terça-feira, 6 de outubro de 2026
Maus-tratos

Goiás registra aumento de 40% nas denúncias de violência contra crianças e adolescentes

Para especialistas, casos de violência não são pontuais e expõem problemas estruturais nos cuidados com crianças e jovens

João César Almeidapor em
Violência
Apenas na última semana, dois casos de maus-tratos foram registrados na Grande Goiânia - Foto: Divulgação

No momento em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos, Goiás registra um aumento de 40% no número de denúncias de violência e maus-tratos contra crianças e adolescentes nos primeiros seis meses de 2026. Os dados são do Painel de Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos. Em 2025, foram registradas 4.168 denúncias. Em 2026, o número subiu para 5.800.

Nas últimas semanas, alguns casos de maus-tratos e violência contra crianças vieram à tona. Na segunda-feira (6), em Aparecida de Goiânia, um bebê e três adolescentes, de 12, 14 e 17 anos, foram resgatados pela Guarda Civil Municipal. De acordo com a corporação, os menores foram encontrados em condições precárias, insalubres e de abandono.

Outro caso ocorreu na quinta-feira (9), quando uma criança de 10 anos foi resgatada após ser encontrada em um apartamento em condições insalubres, sem acesso à água, alimentos e banheiro. A criança foi encaminhada para atendimento médico e recebeu alta da UTI nesta segunda-feira (13).

Esses casos refletem a realidade apresentada pelos dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Para o conselheiro tutelar José Roberto da Silva, que atua na região Oeste de Goiânia, o salto estatístico não reflete necessariamente um aumento da violência, mas sim a redução da subnotificação.

“No meu ponto de vista, esse aumento aconteceu porque a população começou a denunciar”, explica ao O HOJE.

Cultura ainda é obstáculo

Apesar do aumento das notificações, a compreensão do que configura maus-tratos ainda representa um obstáculo cultural. José Roberto relatou que, em uma ocorrência registrada no ano passado, uma mãe foi presa após espancar o filho de 4 anos com um fio de carregador de celular. Ao ser questionada pelo Conselho Tutelar, a suspeita tentou justificar a agressão afirmando que a criança era muito desobediente na hora do banho.

“Muitos pais falam assim: ‘Não, meu pai me bateu, minha mãe me bateu, nunca virei bandido, sou cidadão de bem’. Acreditam que isso vai consertar alguém. Tá tudo errado”, alerta o conselheiro.

O advogado criminalista Pedro Paulo Medeiros disse ao O HOJE que alguns contextos aumentam o risco de exposição à violência. Entre eles estão a fragilização das redes familiares e comunitárias de apoio, a sobrecarga dos responsáveis, a ausência de acompanhamento psicossocial e a naturalização do castigo físico como método educativo.

“A violência contra crianças e adolescentes ocorre de maneira reiterada em ambientes familiares, escolares, comunitários e digitais, muitas vezes sob uma estrutura de silêncio, dependência e desigualdade de poder entre adultos e crianças”, comenta.

Para o advogado e professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), Clodoaldo Moreira, os casos recentes que ganharam repercussão na mídia não são episódios isolados.

“Eles são, na verdade, a face visível de uma realidade estrutural brasileira. O que aparece publicamente costuma ser apenas uma pequena parte de um problema muito mais profundo e persistente. A violência contra crianças e adolescentes está ligada às desigualdades sociais, à cultura autoritária, à negligência histórica com a infância e às falhas na prevenção”, explica.

Conselhos Tutelares enfrentam dificuldades

O conselheiro tutelar José Roberto também relata que uma das principais dificuldades na proteção das crianças é a falta de estrutura. Atualmente, Goiânia conta com apenas cinco unidades do Conselho Tutelar. Segundo o conselheiro, a legislação estabelece que deve haver um conselho para cada 100 mil habitantes, o que exigiria a criação de mais dez unidades para atender à demanda.

Somente na região Oeste de Goiânia, cinco conselheiros precisam atender entre 110 e 120 bairros, tornando praticamente impossível realizar o acompanhamento preventivo das vítimas após o resgate. Além da falta de efetivo, as sedes enfrentam problemas estruturais.

O conselheiro afirma que, na unidade Oeste, a internet é de baixa qualidade, os móveis e os veículos alugados estão sucateados e o prédio não possui acessibilidade para pessoas com deficiência, com portas estreitas que dificultam a passagem de cadeirantes. A insegurança também preocupa, diante das ameaças sofridas pelos profissionais e da falta de proteção nas unidades.

Abusos podem deixar sequelas por toda a vida

Violência
Além dos danos físicos, abusos podem deixar marcas para o resto da vida – Foto: Divulgação


Além dos danos físicos, os maus-tratos e as situações de violência podem comprometer profundamente o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Segundo a psicóloga Kelyane Olanda, as agressões também afetam as dimensões emocional, cognitiva e social, especialmente quando começam cedo e se repetem por longos períodos.

Para a psicóloga, experiências frequentes de violência podem levar a criança a desenvolver crenças negativas sobre si mesma e sobre as pessoas ao seu redor. Pensamentos como “não sou importante”, “não estou seguro” ou “não posso confiar nas pessoas” passam a influenciar a forma como Kelyane compreende o mundo e constrói seus relacionamentos.

Entre os efeitos mais comuns estão sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, além de alterações no sono, dificuldades escolares, problemas de comportamento e obstáculos para estabelecer vínculos afetivos saudáveis. Quanto mais precoce e prolongada for a exposição à violência, maiores tendem a ser os prejuízos ao desenvolvimento.

Kelyane ressalta que o aumento das denúncias deve ser analisado com cautela. O cenário pode indicar tanto um crescimento dos casos quanto uma maior conscientização da população e melhoria na atuação dos Conselhos Tutelares, dos serviços de saúde e dos canais de denúncia. Fatores como dificuldades econômicas, abuso de álcool e drogas, transtornos mentais sem tratamento, histórico familiar de violência e ausência de apoio podem ampliar a vulnerabilidade, mas não justificam as agressões.

Diante de uma suspeita ou confirmação de violência, a primeira medida deve ser interromper as agressões e garantir a segurança da vítima. O acompanhamento precisa envolver os serviços de saúde, assistência social, escola e o sistema de garantia de direitos. A especialista destaca que, com intervenção precoce e uma rede de apoio fortalecida, é possível reduzir os danos e favorecer uma recuperação gradual.

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