terça-feira, 21 de julho de 2026
Interferência

Tarifaço de Trump vira contra Flávio Bolsonaro e ameaça campanha

Proximidade com o presidente dos EUA provoca desgaste nas redes sociais; especialistas avaliam que impacto pode aumentar caso tarifas causem queda nas exportações, demissões e perda de renda

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 20 de julho de 2026 às 10:10
Flávio Bolsonaro
Polêmicas em torno de Flávio são prato cheio para adversários. Foto Ton Molina/Agência Senado

Bruno Goulart

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil já entrou na disputa eleitoral e começa a pesar sobre a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Aliado do presidente norte-americano, Donald Trump, Flávio tem sido associado à medida que pode prejudicar empresas, trabalhadores e diferentes setores da economia brasileira.

Por enquanto, o maior efeito aparece nas redes sociais. Um levantamento da AP Exata mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve avaliação estável durante o período analisado. Flávio, por outro lado, registrou uma queda de 2,3 pontos percentuais nas menções positivas.

A ligação com Trump também aparece com mais força nas publicações sobre o senador. O nome do presidente dos Estados Unidos esteve presente em 27% das postagens relacionadas a Lula. Nas menções a Flávio, o índice chegou a 40%.

Segundo a AP Exata, os números mostram que decisões tomadas nos Estados Unidos já influenciam a imagem dos pré-candidatos brasileiros. O desgaste atinge principalmente Flávio porque a proximidade com Trump não costuma ser bem recebida pelo eleitor moderado, grupo que pode decidir a eleição.

Além disso, Lula tenta usar o tarifaço para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional. A estratégia busca apresentar o governo como defensor dos interesses brasileiros diante da pressão de uma potência estrangeira. Flávio, por sua vez, terá de convencer o eleitor de que não contribuiu para uma medida capaz de causar prejuízos ao próprio país.

Contradição no discurso patriota

O especialista em Marketing Político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, avalia que o episódio expõe uma contradição no discurso de patriotismo usado pelo grupo bolsonarista. “Como alguém que se apresenta como patriota vai a outro país, superior do ponto de vista econômico e militar, e pede uma espécie de intervenção contra o próprio Brasil?”, questiona.

Na avaliação de Fulquim, a proximidade de Flávio com Trump, as viagens aos Estados Unidos e os encontros com lideranças norte-americanas serão explorados pelos adversários durante a campanha. O tema poderá ser usado não apenas por Lula, mas também por outros candidatos que disputam espaço no campo da direita. “Esses episódios representam um prato cheio não apenas para Lula, mas também para os demais adversários políticos”, afirma.

A discussão sobre o PIX também pode aumentar o desgaste. O sistema de pagamentos foi criado durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e costuma ser apresentado pelo bolsonarismo como uma conquista da antiga gestão. Ao mesmo tempo, o PIX entrou no debate comercial entre Brasil e Estados Unidos.

Para Fulquim, será difícil afastar Flávio da imagem de alguém que apoiou uma pressão externa contra a economia brasileira. O prejuízo eleitoral pode atingir principalmente os eleitores menos ligados ao bolsonarismo e aqueles que ainda não escolheram um candidato.

Impacto econômico

O mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé afirma que o tamanho do impacto dependerá das consequências reais das tarifas. Caso as empresas brasileiras passem a vender menos para os Estados Unidos, a situação poderá sair das redes sociais e chegar ao emprego e à renda da população. “A influência das tarifas pode ser muito grande a partir do momento em que começarem a produzir efeitos concretos na economia”, explica.

Segundo Zancopé, empresas que perderem contratos ou tiverem queda nas vendas poderão reduzir gastos, fornecedores e funcionários. Nesse caso, o tarifaço poderá causar demissões, diminuir a atividade econômica e prejudicar cadeias inteiras de produção.

Possível impacto nos Estados

O setor de calçados aparece entre os mais preocupantes. A redução das vendas para os Estados Unidos pode atingir com maior força Estados como São Paulo e Santa Catarina, onde o bolsonarismo também disputa cargos importantes.

Em Santa Catarina, o impacto poderá atingir uma possível candidatura de Carlos Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, ao Senado. Caso moradores percam empregos ou conheçam pessoas prejudicadas pelas tarifas, a ligação da família Bolsonaro com Trump poderá virar um problema nas urnas.

Em São Paulo, a oposição também poderá explorar os efeitos econômicos contra candidatos ligados ao bolsonarismo. A depender do tamanho da crise, o tema pode beneficiar o petista Fernando Haddad e dificultar as campanhas da direita para o governo, como a reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e os candidatos ao Senado, que vão disputar as duas cadeiras com Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).

Em Goiás, Zancopé afirma que ainda não existem elementos suficientes para medir um impacto eleitoral mais claro. A situação dependerá da forma como as cadeias produtivas do Estado serão atingidas. (Especial para O HOJE)

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