Método antigo faz governo sofrer e oposição penar para juntar gente
Bastidores de encontro em Trindade mostram que não está fácil para ninguém mobilizar público para ouvir políticos, mesmo para quem conta com mais de 200 prefeitos, milhares de vereadores e bilhões em dinheiro no ano campanha eleitoral
Este mês de julho vai terminar tendo como grandes notícias o sucesso de público nas aparições de Ana e Daniel, em Trindade, a pouco mais de dois meses da eleição. Ela, mais de 150 mil escutando; ele juntou 200 mil para ouvi-lo. Milagre do Divino Pai Eterno? Não, prestígio de Daniel e Ana, que não gastaram 1 centavo sequer para lotar a cidade de admiradores. Daniel Vilela, candidato do MDB a governador, e Ana Paula Rezende, vice de Wilder Morais, do PL? Nada disso! Daniel, o cantor que tem programa de música sertaneja na Rede Globo, e Ana Castela, que namorou um filho de Leonardo, Zé Felipe, logo após ele se separar de Virgínia Fonseca, ex e atual ficante do jogador Vini Jr. A menos que sejam celebridades, dessas com milhões de seguidores nas redes sociais e cobertura incessante da máquina de publicidade do Estado, ninguém junta multidão, muito menos político.
Neste fim de semana, o governador Daniel Vilela e seu antecessor no cargo, o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), estiveram em Trindade, na Região Metropolitana da Capital. Os organizadores e seus áulicos na imprensa e nas mídias digitais dizem que 10 mil pessoas apareceram no Carreiródromo, um lugar mais do que adequado. Como não há fonte independente que tenha contado os presentes, e com as imagens aéreas a que o repórter de O HOJE teve acesso foi impossível concluir, fiquemos com os números oficiais: 10 mil com Daniel em Trindade, 4 mil com Wilder na Tatersal da Pecuária, 2 mil com Marconi Perillo (PSDB) na Assembleia Legislativa.
Foram três partos difíceis. Como o evento do governo está recente, foi neste fim de semana [sábado (18)], é preciso discutir o modelo de mobilização. Ao menos três jornalistas ligados a O HOJE acompanharam de dentro o esforço do novo governador para não passar vergonha. Ele já está atrapalhando a campanha de Caiado, que deveria se concentrar em outras unidades da federação. Por isso, tinha no mínimo de deixar Trindade saindo gente pelo ladrão. A festa veio sendo preparada desde junho. Centenas de assessores se dedicaram exclusivamente a convidar. E nunca esse verbo teve tanto sinônimo.
Diversos prefeitos disseram que estavam atarantados
Um colunista dO HOJE conversou com diversos prefeitos (o MDB aposta que 200 deles vão pedir voto em Daniel) e eles estavam atarantados. Reclamavam da pressão de secretários e outros auxiliares do governo para que cada município levasse determinada quantidade de ônibus cheios de ocupantes de cargos comissionados em prefeituras e Câmaras de Vereadores. Os nomeados no governo, então, fizeram a sua parte, mesmo na marra, tudo controlado por chefes de repartição. Ai de quem surgisse por lá ou aparecesse com o exército do eu sozinho. Daniel não é o primeiro mandatário a agir desse modo: rigorosamente todos os seus antecessores, à exceção de Alcides Rodrigues (2006-2010), realizaram mutirões de nomeados para arrancar aplausos a fórceps.
A verdade é que o método ruiu. Nem os próprios integrantes das respectivas campanhas ficam felizes com essas multidões de araque. Sabem que estão mentindo para si mesmos. E em duplicidade: as pessoas vão até lá porque são obrigadas. Batem ponto de segunda a sexta-feira e ainda têm de sair da Emater de Iporá, da Saneago de Inhumas, do Ciretran de Goianira, da Codego no Daia (Anápolis), da Agrodefesa de Goianésia, de todos os órgãos de Goiânia e Trindade para bater bumbo para um chefe que mal conhecem e com o qual têm vínculo exatamente nenhum.
Falta imaginar quem esses gênios querem iludir com as fotos e os vídeos de sempre, as ameaças costumeiras, o fingimento tradicional. Acima de tudo, é dinheiro jogado fora. No caso dos majoritários, dinheiro público, pois é dos cofres do governo que saem as diárias, a locação de veículos e toda a máquina usada durante o mês para ver se junta gente. Ou seja, o contribuinte patrocina a festa que tanto repudia. É um desperdício de tempo e recursos também para os pré-candidatos a deputado. O HOJE conversou com vários e todos, rigorosamente todos eram um poço até o fundo de mágoas.
Se aquele furdúncio não rende para os majoritários, imagine aos proporcionais
Se aquele furdúncio não rende um voto sequer para os majoritários (governador e seu vice, senadores e seus suplentes), imagine para os proporcionais (pré-candidatos à Câmara e à Assembleia Legislativa). É deputado tropeçando em deputado. Seus cabos eleitorais não têm a quem pedir apoio, pois todos ali já são comprometidos. Que vantagem levam com isso? Zero vezes zero. Um ex-deputado estadual que tenta voltar à Alego disse a O HOJE que oito concorrentes seus lhe pediram voto, fora o volume de material recebido nas longas horas perdidas na Cidade Santa: “Isso não é ‘Pra frente, Goiás’, é pra trás, deputados”, lamentou em referência ao título da manifestação estatal.
O “Pra frente, Goiás” (sem a vírgula, já que a Língua Portuguesa não pode ser surrada apenas nos discursos) foi uma série de comícios que passou por diversas regiões do Estado, Campos Belos (no Nordeste), Itumbiara (no Sul), Jaraguá (no Vale do São Patrício), Luziânia (no Entorno de Brasília), Rio Verde (no Sudoeste) e Uruaçu (no Norte). O efeito nas pesquisas é nenhum, pois o palavrório é despejado sobre quem já se acostumou com o conteúdo – e está nem ligando para ele. Nenhuma pessoa do povo vai a esses ambientes, a não ser que queira emprego, mas aí já deixa de ser povo.
Seduzam nas redes, mas sem pressionar
Daniel, Marconi e Wilder precisam aprender com Virgínia e Vini Jr. e outros campeões de audiência virtual: seduzam nas redes, mas sem pressionar. Assim como o repórter não identificou os entrevistados para este texto, também ficam anônimos os que recomendam fazer eventos como o que para juntar 10 mil pessoas em Trindade precisou mobilizar 10 mil comissionados e seus familiares, cabos eleitorais de deputados, ocupantes de função gratificada e outras vítimas, além de 40 parlamentares com mandato, milhares de vereadores que o governo contabiliza como seus distribuidores de santinhos. É, não basta lotar o Carreiródromo, é preciso ter santinho. É um curioso caso de Benjamin Button, aquele adesivo de colar na camiseta, com a cara e o número do candidato. Daqui a pouco vira alevino e nada. (Especial para O HOJE)
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