quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Dados x realidade

Desempenho da saúde em Goiás contrasta com relatos de precarização na rede pública

Indicadores destacam a saúde pública de Goiás, mas profissionais da rede relatam sobrecarga, superlotação e precarização do atendimento

Anna Salgadopor Anna Salgado em
saúde goiás
Legenda : Hospitais goianos figuram entre os mais bem avaliados do SUS, enquanto profissionais da rede estadual denunciam sobrecarga de trabalho, déficit de equipes | Foto : Divulgação/SES-GO

Goiás figura entre os Estados com melhor desempenho na saúde pública brasileira, segundo indicadores nacionais que apontam investimentos recordes, expansão da rede hospitalar e hospitais de referência no Sistema Único de Saúde (SUS). Paralelamente aos resultados apresentados pelo governo estadual, profissionais da rede pública relatam sobrecarga de trabalho, deficiência de insumos, superlotação e dificuldades que, segundo trabalhadores e representantes sindicais, comprometem a assistência prestada à população.

Levantamento do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross), em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), coloca Goiás como o segundo Estado com maior número de hospitais públicos entre os 100 melhores do SUS. Ao todo, são dez unidades na lista, atrás apenas de São Paulo e à frente de Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Entre os hospitais destacados estão o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) e o Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG). O governo estadual atribui o desempenho aos investimentos realizados na área, que somaram R$ 29,9 bilhões nos últimos sete anos. Em 2025, 15,08% da receita estadual foi destinada à saúde, percentual superior ao mínimo constitucional de 12%.

A ampliação da estrutura física também integra os resultados apresentados pelo Estado. A rede hospitalar passou de 17 para 25 hospitais estaduais, enquanto o número de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aumentou de 267 para 848, com expansão do atendimento para municípios do interior. Apesar desse crescimento, profissionais da rede afirmam que a ampliação da capacidade não foi acompanhada por melhorias nas condições de trabalho.

Uma servidora da enfermagem do Hospital Estadual de Urgências de Goiás (Hugo), que preferiu não se identificar, descreve um cenário de desgaste contínuo. “Fica parecendo que a gente tá dando banho de porco, que o treino não muda, não melhora. Para mim é cada dia pior do que eu esperava”, relata. Na avaliação da profissional, o modelo de gestão por Organizações Sociais (OSs) apresenta melhorias estruturais, mas não atende às necessidades dos trabalhadores nem dos pacientes.

Segundo relatos de profissionais, a sobrecarga de trabalho tem provocado adoecimento entre os servidores. A enfermagem representa cerca de 60% da força de trabalho hospitalar e, de acordo com trabalhadores da área, grande parte dos profissionais acumula mais de um vínculo empregatício. Os relatos incluem episódios frequentes de afastamentos por problemas psicológicos. “Muitos entram em depressão, começam a chorar. Têm que ir embora porque não dão conta mais. Ou então tomam remédio para poder suportar”, afirma a servidora. Também há menções ao risco de suicídio relacionado ao estresse ocupacional.

Segundo o SindSaúde, a alta ocupação dos leitos e a insuficiência de profissionais provocam impactos diretos sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. A entidade afirma que equipes reduzidas enfrentam jornadas intensas, aumento do desgaste físico, estresse, ansiedade e esgotamento emocional, fatores que resultam em afastamentos por adoecimento e ampliam ainda mais a sobrecarga das equipes que permanecem em atividade.

A redução do quadro de funcionários é apontada como um dos principais fatores para esse cenário. No Hugo, conforme relato da profissional entrevistada, o número de maqueiros caiu de 17 para seis, fazendo comque técnicos de enfermagem e enfermeiros assumam atividades como transporte de pacientes e coleta de sangue, além das atribuições habituais.

Na avaliação do SindSaúde, a expansão da rede hospitalar e do número de leitos não foi acompanhada pela contratação de profissionais em quantidade suficiente para garantir um atendimento seguro e de qualidade. Segundo o sindicato, as unidades funcionam com capacidade elevada e equipes reduzidas, situação que compromete tanto a assistência prestada aos pacientes quanto as condições de trabalho dos servidores.

Para a entidade, a ampliação da capacidade instalada precisa ser acompanhada da realização de concursos públicos, convocação de aprovados e contratação de profissionais de diferentes especialidades médicas para reduzir as filas por consultas, exames e cirurgias. O sindicato também defende a valorização dos trabalhadores por meio de melhores condições de trabalho e reconhecimento salarial.

saúde goiás
Legenda : Expansão de hospitais e leitos de UTI convive com relatos de superlotação, falhas na infraestrutura, adoecimento de trabalhadores e críticas ao modelo de gestão das unidades estaduais | Foto: Reprodução

Superlotação revela que estrutura existente é insuficiente

A expansão dos leitos de UTI também não eliminou episódios de superlotação relatados por trabalhadores da saúde. Dados de monitoramento hospitalar indicam que o Hugol opera com 410 dos 466 leitos ocupados. No Hugo, profissionais descrevem corredores ocupados por macas e pacientes acomodados em espaços improvisados.

Segundo a servidora entrevistada, faltam condições adequadas para procedimentos básicos. “Não tem local para os trabalhadores lavarem as mãos para cuidar do paciente, que é um procedimento básico. Onde vai ter pia para lavar as mãos?”, questiona. Também há relatos de insuficiência de pontos de oxigênio para pacientes acomodados fora dos quartos. Ao descrever a rotina da unidade, a profissional compara o ambiente da emergência a um cenário de guerra e a um “campo de concentração”.

O SindSaúde afirma que continua recebendo denúncias frequentes de pacientes internados em corredores, enfermarias superlotadas e dificuldades para o funcionamento adequado de leitos em razão da falta de estrutura, insumos e profissionais. Segundo a entidade, o problema não é pontual e atinge diferentes unidades da rede pública estadual e municipal.

De acordo com o sindicato, inspeções realizadas pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) também identificaram pacientes permanecendo por mais de 24 horas em unidades de urgência e emergência, situação atribuída à insuficiência de leitos hospitalares e à desorganização da rede de atendimento. Para a entidade, a permanência prolongada nas UPAs e Cais contribui para um efeito cascata de superlotação, com impactos sobre o fluxo de pacientes e a capacidade de resposta dos serviços.

Os relatos também apontam impactos na assistência prestada nas enfermarias. Trabalhadores afirmam que há quartos com até 18 pessoas entre pacientes e acompanhantes, situação que, segundo os profissionais, favorece a disseminação de infecções hospitalares. “Hoje em dia tá muito comum, é muita enfermaria com um alto índice de infecção”, relata.

Os relatos também apontam problemas nas condições de higiene da unidade. Segundo a servidora entrevistada, houve registro recente de percevejos em cadeiras destinadas aos acompanhantes, situação que, conforme o relato, persistiu mesmo após uma dedetização. A profissional também afirma que a superlotação nos corredores, aliada à falta de estrutura para pacientes e acompanhantes, compromete a privacidade e dificulta os cuidados básicos. “É muito desumano. Você pensa que está no meio de uma guerra”, relata.

O modelo de gestão por Organizações Sociais também é alvo de críticas de representantes sindicais que apontam que o sistema reduz a transparência financeira e dificulta o controle social. Como exemplo, citam a gestão do Instituto CEM no Hugo, marcada por suspeitas de irregularidades, questionamentos sobre aditivos contratuais e uma dívida que, segundo determinação do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO), deverá ser devolvida aos cofres públicos.

Profissionais também relatam que procedimentos administrativos podem atrasar o atendimento em situações de urgência. Segundo os trabalhadores, medicamentos dependem do cumprimento de etapas obrigatórias no sistema eletrônico antes da liberação pela farmácia. “Enquanto não registra tudo, a medicação não sobe, o paciente que se dane”, afirma a servidora.

As críticas também se estendem ao sistema de regulação estadual. Desde 2021, o Governo de Goiás assumiu a regulação da saúde de Goiânia com o argumento de ampliar a equidade no acesso aos serviços. Para o SindSaúde, entretanto, houve aumento das filas para consultas especializadas e cirurgias. De acordo com relatos apresentados pelo sindicato, pacientes aguardam há meses por consultas em especialidades como urologia, sem previsão de atendimento.

Na avaliação do sindicato, a falta de profissionais interfere diretamente no funcionamento dos leitos e na assistência prestada aos pacientes. Segundo a entidade, não basta ampliar a estrutura física da rede hospitalar se não houver equipes em número suficiente para garantir um atendimento adequado. O sindicato afirma que a escassez de trabalhadores e de médicos especialistas compromete o funcionamento da rede, contribui para o aumento das filas por consultas, exames e cirurgias e prejudica a continuidade do tratamento dos pacientes.

Para a entidade, a abertura e a ocupação dos leitos devem ser planejadas de acordo com as necessidades da população, e não apenas por critérios administrativos. O sindicato defende que a expansão da capacidade instalada seja acompanhada por investimentos permanentes em recursos humanos e no fortalecimento da rede pública de saúde.

O SindSaúde também avalia que os rankings nacionais que colocam Goiás entre os destaques da saúde pública refletem avanços em indicadores específicos, mas não retratam integralmente a realidade vivida diariamente por profissionais e usuários do Sistema Único de Saúde. Segundo a entidade, denúncias recorrentes de superlotação, déficit de trabalhadores, falta de insumos, demora no acesso a consultas especializadas e longas filas para exames e procedimentos evidenciam problemas que não aparecem nos levantamentos estatísticos.

Na avaliação do sindicato, a qualidade da saúde pública deve ser medida não apenas pelos indicadores de desempenho, mas também pelas condições concretas em que os serviços são prestados. A entidade sustenta que trabalhadores adoecidos pela sobrecarga e pacientes que enfrentam dificuldades para acessar atendimento demonstram a necessidade de ampliar investimentos em pessoal, planejamento e estrutura para garantir atendimento digno à população e melhores condições de trabalho aos profissionais.

 

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