quinta-feira, 23 de julho de 2026
COMPORTAMENTO E SAÚDE MENTAL

Mensagem não respondida, encontro que não sai: como a rotina está afastando os amigos

Hiperconectividade criou expectativa de disponibilidade permanente que desgasta amizades; especialista orienta como retomar vínculos sem precisar de desculpas elaboradas

Luana Avelarpor Luana Avelar em 23 de julho de 2026 às 20:30
Mensagem

Uma mensagem leva segundos para chegar ao destino. Uma chamada de vídeo aproxima pessoas que vivem em continentes diferentes. Ainda assim, frases como “preciso responder aquela mensagem faz semanas” ou “achei que você estivesse bravo porque visualizou e não respondeu” se tornaram comuns.

A tecnologia encurtou distâncias, mas também mudou a forma como as amizades se sustentam. A hiperconectividade criou um desafio para a saúde mental: a expectativa de disponibilidade permanente. Antes o silêncio fazia parte natural das relações. Hoje a demora em responder pode significar desinteresse.

A psicóloga Jhoanne Hansen, especialista em saúde mental de criadores de conteúdo, diz que a facilidade de comunicação trouxe ganhos, mas também instalou uma sensação de obrigação constante.

“A disponibilidade permanente pode transformar a presença em cobranças invisíveis, que desgastam a espontaneidade das relações. Não basta mais existir na vida do outro, é preciso responder rápido, reagir ao story, comentar no tempo certo, como se amizade fosse uma métrica de desempenho. A expectativa constante nos deixa em alerta, sempre devendo alguma coisa a alguém. Quando a resposta não vem no ritmo esperado, o silêncio, que antes era apenas silêncio, passa a significar desinteresse”, diz.

Culpa nem sempre significa falta de afeto

Abrir uma conversa, ver uma mensagem antiga e pensar que já passou tempo demais para responder é uma experiência cada vez mais comum. O resultado costuma ser o oposto do desejado: o contato esfria porque a pessoa acredita que já é tarde para retomá-lo.

Para Hansen, essa culpa nasce de uma ilusão criada pela tecnologia. “Ela nos deu a ilusão de que responder é sempre possível, portanto adiar parece uma escolha e não uma circunstância. Isso transforma cansaço ou sobrecarga emocional em motivo de vergonha, como se cuidar de si fosse uma falha moral. A demora não necessariamente reflete falta de afeto, e sim falta de disponibilidade emocional. Amizades saudáveis comportam pausas e recomeços”, explica.

O adiamento constante, segundo ela, tem explicação psicológica. “Esse comportamento resulta de um mecanismo de defesa chamado evitação. Quanto mais tempo passa, maior tende a ser a vergonha por reaparecer, o que faz a pessoa adiar ainda mais a resposta. Um ‘lembrei de você e quis saber como está’ costuma ser muito mais poderoso do que uma explicação perfeita.”

Quando o “a gente marca” nunca vira encontro

A promessa de um encontro que não sai do papel é outro sintoma da rotina acelerada. Entre trabalho e notificações, as amizades acabam empurradas para um momento de folga que muitas vezes não chega.

Para Hansen, isso reflete uma mudança na forma como as prioridades são administradas. “O ‘a gente marca’ costuma ser sincero no momento em que é dito, mas, por não ganhar espaço concreto na agenda, raramente sobrevive à rotina. O urgente atropela o que deveria vir primeiro, e a amizade quase nunca aparece como urgente. A tecnologia reforça esse padrão porque, estando conectados pelas telas, sentimos que o encontro presencial pode esperar”, diz.

Presença física ainda é insubstituível

Mensagens e chamadas ajudam a manter contato, mas a psicóloga destaca que a convivência presencial oferece experiências emocionais que nenhuma tela reproduz. “No encontro presencial compartilhamos olhares, gestos, silêncios e risadas, formas de comunicação que fortalecem o acolhimento. Já as conversas digitais tendem a ser mais fragmentadas e funcionais”, afirma.

Para quem acredita ter deixado passar tempo demais, a orientação é abandonar a ideia de que existe um prazo para demonstrar carinho. “Em vez de começar com longas desculpas, vale enviar uma mensagem simples e sincera, como ‘lembrei de você e senti vontade de saber como está’. A vergonha nasce da ideia de que os assuntos expiram, quando, na verdade, vínculos saudáveis toleram desencontros, recomeços e gestos espontâneos de reaproximação”, orienta.

Amizade como estratégia de saúde mental

Em uma rotina marcada pelo excesso de trabalho e de informações, reservar tempo para os amigos deixou de ser apenas um gesto afetivo e passou a ser uma estratégia para preservar a saúde emocional.

“Priorizar amizade em uma rotina cheia exige tratá-la como compromisso, às vezes agendando um encontro com a mesma seriedade de uma reunião de trabalho. Pequenos gestos recorrentes costumam ser mais significativos do que grandes planos que nunca saem do papel. Também ajuda a proteger alguns momentos da invasão de telas e notificações, para que exista presença de verdade quando o encontro acontece”, afirma Hansen.

O relatório From Loneliness to Social Connection, publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2025, mostra que o isolamento social aumenta o risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares, diabetes e prejuízos cognitivos.

“Nutrir amizades fortalece o sentimento de pertencimento, resgata memórias afetivas e reduz a sensação de isolamento. Em um mundo cada vez mais conectado pelas telas, dedicar tempo às relações presenciais segue sendo uma das formas mais eficazes de cuidar da saúde mental”, conclui a psicóloga.

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