sexta-feira, 24 de julho de 2026
SAÚDE E FAMÍLIA

Cuidar dos netos melhora cognição dos avós, diz pesquisa; mas especialista faz um alerta importante

Estudo mostra que cuidar dos netos protege a memória dos avós; psicóloga alerta que quando o cuidado vira responsabilidade integral a experiência pode se transformar em fonte de exaustão

Luana Avelarpor Luana Avelar em 24 de julho de 2026 às 18:30
avós

Tornar-se avó ou avô coloca a infância novamente dentro de casa, mas sob outra perspectiva. Depois de anos dedicados à criação dos próprios filhos, muitos passam a acompanhar as descobertas de uma criança sem carregar, ao menos em princípio, a mesma responsabilidade por educar, sustentar e decidir cada aspecto de sua vida. Essa mudança de papel ajuda a explicar por que a relação entre avós e netos pode assumir um peso particular no envelhecimento.

Às vésperas do Dia dos Avós, com data em 26 de julho, um levantamento do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento acrescentou um dado a essa discussão. Publicado recentemente na revista científica Psychology and Aging, o trabalho indicou que avós que cuidavam dos netos tiveram pontuações mais altas em testes de memória e fluência verbal do que aqueles que não cuidavam, mesmo após ajustes para idade, saúde e outros fatores. O resultado se manteve independentemente da frequência e do tipo de cuidado prestado.

A pesquisa não encerra a discussão sobre os efeitos dessa convivência, mas reforça o interesse por uma relação que atravessa não apenas o cuidado, como também a maneira pela qual os avós ocupam essa fase da vida. Para a psicóloga Adriane Garcia, a maturidade dos filhos abre espaço para uma experiência familiar diferente daquela vivida durante a maternidade ou a paternidade.

“Quando os filhos alcançam a maturidade e assumem as rédeas de suas próprias vidas, abre-se um período singular para os avós: a oportunidade de desfrutar da convivência com os netos, apreciando o processo de crescimento sem o peso da responsabilidade direta pela educação ou pelo provimento. Nesse contexto, os netos representam um novo significado para o prazer de viver, algo muitas vezes negligenciado na fase anterior da vida.”

Uma experiência mais leve

É nesse novo lugar que se encontra também uma percepção comum entre quem já viveu as duas experiências: a de que ser avó ou avô pode ser mais leve do que ser pai ou mãe. Adriane explica por quê. “Muitos avós relatam que a experiência de ser avô é mais leve que a de ser pai, justamente por estarem isentos da responsabilidade de educar e moldar o caráter da criança. Do ponto de vista emocional, esse distanciamento da carga de responsabilidade primária é extremamente benéfico, permitindo que vivenciem as etapas da infância com mais leveza e menos medo.”

A relação ganha outra dimensão quando coincide com mudanças frequentes no envelhecimento. A aposentadoria, a saída dos filhos de casa e a redução de compromissos que durante décadas organizaram os dias podem alterar profundamente a rotina. Nesse cenário, a presença dos netos não significa apenas companhia eventual: pode recolocar os avós em uma dinâmica de encontros, conversas e participação na vida familiar.

“Para os idosos que frequentemente enfrentam a solidão, a convivência com os netos pode ter um impacto profundamente positivo. Ter um papel ativo na vida dos pequenos, após a aposentadoria e o afastamento da rotina exaustiva de criação dos filhos, confere aos avós um novo propósito e um estímulo para uma vida mais dinâmica. Assim, os netos não apenas mitigam a solidão, mas também ressignificam o cotidiano, trazendo a alegria de apreciar os pequenos prazeres da vida”, destaca a psicóloga.

Limites

A proximidade, porém, muda de natureza quando os avós deixam de participar da infância dos netos e passam a responder diariamente por ela. É nesse ponto que o conhecido ditado de que ser avó ou avô é ser pai ou mãe duas vezes encontra um limite. Para Adriane, a comparação simplifica demais duas experiências que pouco têm em comum.

“Essa premissa é questionável, pois trata-se de processos distintos. A experiência é radicalmente diferente quando os avós assumem o papel de cuidadores em tempo integral, suprindo ausências dos pais que trabalham, e quando exercem o papel de avós em sua essência: o de brincar, animar e celebrar momentos, sem a pressão do gerenciamento da vida da criança.”

Em muitas famílias, essa fronteira é tênue. Avós formam a principal rede de apoio para filhos que trabalham e, por isso, ficam com as crianças durante boa parte do dia, acompanham compromissos e assumem tarefas permanentes. “Nesses casos, eles tornam-se, na prática, responsáveis pela gestão da vida da criança. Embora isso possa trazer alegria, também pode gerar sobrecarga, transformando uma vivência que deveria ser prazerosa em uma fonte de exaustão, criando um equilíbrio delicado entre benefícios e prejuízos à saúde mental”, alerta.

A diferença, portanto, não está simplesmente em cuidar ou não dos netos. Está no lugar que esse cuidado ocupa. A convivência pode trazer estímulos, companhia e uma nova forma de participar da família, sem que os avós precisem assumir novamente todas as obrigações da criação. Quando essa divisão se perde, a experiência deixa de ser apenas um encontro entre gerações e pode voltar a carregar o peso de uma responsabilidade já vivida antes.

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