segunda-feira, 27 de julho de 2026
Eleições 2026

Inteligência artificial avança nas eleições e desafia controle da Justiça

Enquanto TSE aperta as regras contra deepfakes, a tecnologia cresce nos bastidores das campanhas, acelera análises e pode ampliar a disputa digital em Goiás

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 27 de julho de 2026 às 09:43
Urna eletrônica
Uso de inteligência artificial pode influenciar eleitor na hora do voto. Foto: Valter Campanato/ABr

Bruno Goulart

A inteligência artificial deve ocupar um espaço inédito nas eleições de 2026. No entanto, o maior impacto da tecnologia pode não aparecer apenas em vídeos falsos, vozes clonadas ou imagens manipuladas. Nos bastidores, ferramentas de IA já são usadas para analisar pesquisas, encontrar contradições em discursos, estudar adversários e produzir mensagens diferentes para cada público.

Ao O HOJE, o professor e consultor de marketing político Marcelo Vitorino afirma que o debate público ainda está concentrado na parte mais visível do problema. “A discussão pública sobre inteligência artificial na eleição está presa na parte visível, que é o vídeo falso. A parte que muda o jogo é a invisível”, diz.

Vitorino relata que, na campanha de 2024, reuniu entrevistas de adversários, transcreveu o material e cruzou as falas com os planos de governo registrados. Depois, pediu à inteligência artificial que apontasse incoerências entre as declarações públicas e as propostas apresentadas no papel.

“Esse trabalho levaria dias de equipe. Ficou pronto em horas”, afirma. Segundo o especialista, esse tipo de uso tende a crescer em 2026. A IA pode ajudar na leitura de pesquisas, na análise de adversários, na segmentação do eleitorado e na produção de conteúdo em grande escala. Assim, uma campanha consegue adaptar a linguagem para diferentes regiões, categorias profissionais e faixas etárias.

Por outro lado, a tecnologia também permite criar conteúdos sintéticos cada vez mais realistas. É possível reproduzir vozes, alterar imagens e gerar avatares capazes de simular falas que nunca ocorreram. É justamente nesse ponto que aumenta a preocupação da Justiça Eleitoral.

Regras do TSE

As regras do Tribunal Superior Eleitoral determinam que textos, áudios, vídeos e imagens criados ou alterados por IA sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível. O responsável também deve informar que houve manipulação e indicar a tecnologia utilizada. Além disso, deepfakes usados para favorecer ou prejudicar candidaturas são proibidos.

Nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas posteriores ao encerramento do pleito, fica proibida a publicação de novos conteúdos sintéticos que usem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo quando identificados. O descumprimento pode levar à retirada imediata da publicação e à aplicação de multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil.

Desafios

Ainda assim, Vitorino avalia que o problema está na velocidade de circulação das mensagens. “A norma alcança a vitrine, que é a rede aberta. O estrago acontece nos fundos, no grupo fechado de WhatsApp, onde não existe algoritmo para monitorar nem busca pública para rastrear”, explica.

Para aumentar a capacidade de fiscalização, o TSE orientou os tribunais regionais eleitorais a buscar parcerias com universidades e instituições especializadas em inteligência artificial, perícia digital e análise de conteúdos. A medida pretende ajudar na identificação de manipulações e na produção de provas em processos eleitorais.

Para os candidatos, portanto, o desafio é duplo. Primeiro, as equipes precisam conhecer as novas regras, identificar corretamente os materiais e evitar o compartilhamento de peças falsas. Depois, devem preparar um sistema rápido de defesa, com protocolo de resposta, canais próprios e apoiadores mobilizados.

“Quem esperar o primeiro ataque para montar a resposta vai levar dois dias para responder. Nesse jogo, dois dias é uma eternidade”, alerta Vitorino. Segundo o especialista, a proteção mais simples ainda é uma reputação sólida, capaz de levar o eleitor a desconfiar de conteúdos que não combinam com a trajetória do candidato.

Em Goiás

Em Goiás, a IA pode ampliar a distância entre campanhas mais preparadas para o ambiente digital e aquelas que ainda dependem de métodos tradicionais. A ferramenta permite adaptar mensagens para a Capital, o Entorno e o interior, além de organizar dados, testar formatos e responder rapidamente aos adversários.

Ao mesmo tempo, um conteúdo falso pode atravessar grupos de mensagens e alcançar vários municípios antes de qualquer reação oficial. Por isso, as campanhas goianas terão de investir não apenas em produção digital, mas também em monitoramento, checagem e resposta rápida.

Já para o eleitor, cresce a obrigação de conferir a origem do que recebe. Além da mentira, existe outro efeito perigoso: políticos flagrados em gravações verdadeiras poderão alegar que o material foi produzido por inteligência artificial. “O risco maior é o eleitor parar de acreditar na verdade”, resume Vitorino. (Especial para O HOJE)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também