quinta-feira, 30 de julho de 2026
tráfico humano

Dia de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas expõe avanço da exploração humana

Dados da Defensoria Pública da União, da Polícia Federal e do Ministério da Justiça mostram aumento das notificações e das investigações sobre tráfico de pessoas

Anna Salgadopor Anna Salgado em 30 de julho de 2026 às 00:48
TRÁFICO DE PESSOAS HUMANO
Legenda 1: SUS registrou 3.117 notificações de casos suspeitos ou confirmados de tráfico de pessoas em 2025, alta de 29,9% em relação ao ano anterior | Foto 1: Divulgação/Agência Senado

Nesta quinta-feira (30), quando é celebrado o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, dados da Defensoria Pública da União (DPU), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, da Polícia Federal e de pesquisas da Universidade Federal de Goiás (UFG) reforçam a dimensão do crime no Brasil e colocam Goiás entre os estados com maior número de investigações abertas pela Polícia Federal. Entre 2017 e 2025, 238 brasileiros foram resgatados em operações oficiais, enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 3.117 notificações de casos suspeitos ou confirmados apenas em 2025, aumento de 29,9% em relação ao ano anterior.

A DPU utiliza a data para defender um olhar interseccional sobre o tráfico de pessoas e a formulação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da exploração humana. Segundo a instituição, o tráfico ocorre principalmente com foco na exploração sexual e no trabalho em condições análogas à escravidão. As vítimas costumam ser atraídas por promessas de emprego, dinheiro, conforto, viagens e melhores condições de vida. Após o deslocamento, muitas permanecem em situação de exploração devido à retenção de documentos, ao desconhecimento da língua local, à condição migratória irregular, ao monitoramento constante por integrantes das redes criminosas e à violência física e psicológica.

O crime é tipificado pela Lei nº 13.344/2016, que define como tráfico de pessoas o ato de agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoas mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com finalidades que incluem exploração sexual, trabalho em condição análoga à escravidão, servidão, adoção ilegal e remoção de órgãos, tecidos ou partes do corpo.

Especialistas apontam que os dados oficiais representam apenas parte da dimensão do problema, em razão da subnotificação e da dificuldade de identificação das vítimas.

TRAFICO DE PESSOAS
Legenda 2: Goiás aparece entre os Estados com maior número de investigações da Polícia Federal em 2025 e integra rotas internacionais de exploração sexual identificadas por pesquisas da UFG | Foto 2: Divulgação/CNJ

Goiás concentra investigações e rotas internacionais

Dentro do cenário nacional, Goiás ocupa posição de destaque nos registros relacionados ao tráfico de pessoas. Estudos coordenados pela UFG indicam que o estado apresenta elevado número de vítimas, especialmente em casos de tráfico internacional de mulheres para exploração sexual comercial.

As principais rotas identificadas têm como destino países europeus, especialmente Espanha e Portugal. O perfil predominante é de mulheres jovens e travestis em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Em diversos casos, a aceitação inicial da proposta de prostituição ocorre como alternativa de sobrevivência, mas termina em redes de exploração marcadas por dívidas, violência física e violência psicológica.

Em 2025, Goiás registrou 10 inquéritos instaurados pela Polícia Federal por tráfico de pessoas, mesma quantidade contabilizada por Paraná e Rio de Janeiro, ficando atrás apenas de São Paulo, que liderou o ranking nacional com 46 investigações.

Além disso, municípios goianos apresentam taxas elevadas de estupro por 100 mil habitantes, como Luziânia (86,4), Trindade (84,8) e Planaltina (84,1), indicador associado por pesquisadores a contextos de elevada violência sexual e maior vulnerabilidade para o aliciamento.

O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), analisou o fenômeno entre 2017 e 2021 e traçou um panorama das vítimas e das modalidades de exploração no país. O documento reúne informações da DPU e de outros órgãos públicos e ressalta que o Brasil ainda não possui um sistema unificado de coleta de dados sobre tráfico de pessoas, o que limita a dimensão estatística do problema.

Entre os fatores de risco apontados, 95% dos entrevistados identificaram a pobreza como um dos principais elementos de vulnerabilidade. A condição socioeconômica precária favorece o aliciamento por meio de ofertas de trabalho ou oportunidades que posteriormente se transformam em situações de exploração.

O levantamento também mostra diferenças importantes entre os perfis das vítimas. Dados da Polícia Federal indicam que, entre 2018 e 2020, 63,5% das pessoas resgatadas eram homens, 20,6% mulheres e 16% crianças. Enquanto mulheres são mais frequentemente traficadas para exploração sexual, homens aparecem com maior frequência em situações de trabalho escravo.

Perfil das vítimas no Brasil

Os registros de 2024 e 2025 mostram que o tráfico de pessoas atinge diferentes grupos de forma desigual, de acordo com gênero, idade e raça.

Nos inquéritos da Polícia Federal de 2024, homens cisgênero representaram 85,3% das vítimas de tráfico para fins de trabalho escravo. Já mulheres e meninas concentraram a maior parte dos casos relacionados à exploração sexual.

Nos registros internacionais identificados pelo Itamaraty em 2024, dos 63 casos contabilizados, 3,2% envolveram mulheres transgênero, evidenciando a vulnerabilidade da população LGBTQIA+.

Crianças e adolescentes corresponderam a quase 30% das vítimas atendidas pelo SUS. O aliciamento desse grupo ocorre com frequência em ambientes digitais e em contextos de fragilidade familiar e ausência de redes de proteção. A Polícia Rodoviária Federal identificou mais de 17.600 pontos de vulnerabilidade à exploração sexual infantil nas rodovias federais.

Pessoas pretas e pardas representaram 55,6% das vítimas identificadas em casos de ameaça e agressão relacionados ao tráfico de pessoas.

Autoridades e pesquisadores também identificaram uma mudança no perfil da exploração internacional. Em 2025 e 2026, cresceu o número de brasileiros recrutados para centros de golpes digitais, conhecidos como scam centers, instalados em países do sudeste asiático, como Filipinas, Camboja, Mianmar e Laos.

As vítimas são atraídas por falsas promessas de emprego e altos salários, geralmente voltadas para pessoas com conhecimentos em informática. Ao chegarem ao destino, têm documentos retidos e passam a atuar sob cárcere privado e violência, sendo obrigadas a aplicar fraudes online, incluindo golpes com criptomoedas e o esquema conhecido como “pig butchering”, em que vínculos afetivos são simulados para extorquir investidores.

Investigação enfrenta obstáculos

Diante da atuação cada vez mais sofisticada das redes criminosas, o Ministério Público Federal (MPF) passou a concentrar, desde 2024, todas as investigações e ações judiciais sobre tráfico internacional de pessoas na Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC). Segundo o órgão, a estrutura especializada atuou em mais de 1.100 processos judiciais no último ano e meio e apresentou denúncias contra 216 pessoas entre 2025 e junho de 2026. Desse total, 79 respondem por tráfico internacional de pessoas, em casos que envolveram 299 vítimas identificadas.  

A repressão ao tráfico de pessoas continua enfrentando dificuldades estruturais. Estudo divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aponta que a insuficiência de provas robustas dificulta a condenação de integrantes de organizações criminosas.

Outro fator apontado é o chamado “funil institucional”. Entre 2024 e 2026, apenas 46,6% das denúncias encaminhadas ao canal Comunica PF resultaram na instauração formal de inquéritos, principalmente devido à falta de evidências digitais suficientes ou à dificuldade de enquadramento na tipificação penal.

As investigações também apontam convergência crescente entre tráfico de pessoas e estelionato eletrônico. Os registros de estelionato no Brasil aumentaram 429,8% desde 2018, tornando-se o principal crime patrimonial do país e uma das possíveis fontes de financiamento de redes criminosas envolvidas com tráfico humano.

Nos inquéritos da Polícia Federal de 2024, as principais finalidades registradas foram trabalho escravo (40,9%), exploração sexual (31,5%), servidão (21,5%) e adoção ilegal (6%). No ranking de inquéritos por unidade da federação em 2025, São Paulo liderou com 46 investigações, seguido por Goiás, Paraná e Rio de Janeiro, com 10 registros cada. Entre os fatores de vulnerabilidade apontados por profissionais que atuam na área, destacam-se condição socioeconômica precária (22%), baixa escolaridade (18%) e condição migratória (14%). Em relação às vítimas estrangeiras, cerca de 68% dos migrantes que solicitaram residência no Brasil por serem vítimas de tráfico em 2024 eram paraguaios, seguidos por bolivianos (23%).

O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas também aponta lacunas ainda pouco estudadas, como o tráfico de mulheres para exploração laboral, as formas de servidão presentes no Brasil, o tráfico de indígenas e quilombolas, as especificidades do tráfico interno e internacional para exploração sexual e a relação entre migração e exploração laboral.

A internet aparece como principal meio de aliciamento, mencionada por 78% das instituições consultadas. As abordagens costumam envolver promessas de emprego, viagens internacionais, oportunidades artísticas e propostas financeiras apresentadas fora de canais formais.

As denúncias podem ser feitas pelos canais Disque 100, para violações de direitos humanos e tráfico de crianças; Ligue 180, para casos envolvendo mulheres e meninas; Polícia Federal, pelo telefone 194; e Polícia Rodoviária Federal, pelo telefone 191.

O governo federal mantém em vigor o IV Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (2024-2028), voltado à integração de dados e ao fortalecimento da assistência a vítimas brasileiras no exterior por meio do protocolo POP/TIP.

 

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