EDUCAÇÃO

Desinformação atinge crianças e adolescentes; veja como escola e família podem agir

Professor de filosofia explica que algoritmos criam bolhas que distorcem a realidade e defende leitura e pensamento crítico como principais ferramentas contra a desinformação

Luana Avelarpor em
desinformação

Nunca houve tanta informação disponível para crianças e adolescentes, e nunca foi tão difícil separar fato de opinião, publicidade de conteúdo genuíno, dado verificado de manipulação. Entre vídeos curtos e influenciadores, o desafio deixou de ser o acesso e passou a ser a origem: de onde vem o que se lê, quem produziu e com que interesse.

Para Guilherme Augusto, mestre em Filosofia e professor da área de Geociências, o cenário lembra o Mito da Caverna, de Platão: quando o algoritmo repete as mesmas preferências e afasta o contato com versões divergentes, o usuário corre o risco de tratar aquele ambiente limitado como se fosse a realidade inteira.

“A metáfora mostra como é comum as pessoas se acostumarem com o ambiente sem cultivar um senso crítico e uma capacidade de sair da caverna e ir buscar a verdade. Além disso, ajuda as pessoas a terem um senso crítico e cuidado com o que a sociedade coloca como verdade”, explica.

Nesse cenário, a escola segue como uma das principais barreiras contra a desinformação, não porque tenha respostas prontas, mas porque pode ensinar o aluno a perguntar, verificar fontes e comparar versões.

“Creio que uma boa estratégia é incentivar o pensamento lúdico, focar em atividades nas quais a interação e o trabalho em equipe sejam feitos em sala de aula. Existem muitas ferramentas pedagógicas a partir das metodologias ativas para auxiliar os professores nisso e proporcionar aos estudantes momentos de protagonismo e interação”, afirma.

A desinformação costuma ser reduzida às notícias falsas, mas o campo é mais amplo. Envolve também a dificuldade de separar fato de opinião, confundir interpretação com evidência e aceitar um conteúdo só porque foi compartilhado por alguém conhecido.

Para Guilherme, o primeiro passo é examinar a fonte antes de repassar qualquer informação. “O primeiro sinal está na capacidade de avaliar com cuidado uma informação e buscar as fontes. É comum muitas pessoas confiarem em alguns canais de informação ou influenciadores e isso é um problema. O segundo passo é buscar canais relevantes e bons livros. O pensamento crítico surge com o conhecimento e um bom repertório.”

Redes sociais e inteligência artificial

Para o professor, TikTok, Instagram e YouTube não devem ser tratados apenas como ameaça: reúnem também conteúdo produzido por pesquisadores e especialistas. Ignorar essas plataformas afasta a escola da rotina dos estudantes, mas usá-las sem critério pode legitimar material raso ou sem fundamentação.

“Existem muitos canais com conteúdos relevantes, conheço canais de doutores e mestres em filosofia, neurociência e inúmeros temas. A questão é que a escola precisa ser seletiva e investigar o conteúdo, para desta forma poder indicar e divulgar bons materiais destas plataformas digitais aos seus estudantes”, diz.

A própria internet pode virar objeto de estudo em sala. “Outra forma é incentivar a discussão sobre temas que estão na internet, para desta forma mostrar o quanto alguns conteúdos são bons e bem fundamentados ou ruins e sem referência.”

O mesmo cuidado passa a valer para os conteúdos gerados por inteligência artificial. Com a produção acelerada de textos, imagens e vídeos, memorizar informação perde peso diante da necessidade de interpretar e verificar: uma resposta organizada e bem escrita não é sinônimo de resposta verdadeira. Comparar versões, localizar a fonte original e reconhecer os limites dessas ferramentas passam a fazer parte da alfabetização básica.

“Ensinar os estudantes a avaliar tudo o que eles estão tendo contato e investigar as informações é indispensável. E, principalmente, ensinar o quão importante é a leitura e a busca por conhecimento. O saber serve como base para o senso crítico”, resume Guilherme.

A leitura como saída 

A responsabilidade, no entanto, não se encerra nos portões da escola. Sair da bolha criada pelos algoritmos passa por um hábito concreto, cultivado também em casa: a leitura.

“O primeiro e importante passo é a leitura, é com ela que cultivamos o saber ou mesmo momentos de acesso à cultura e à literatura. Um filho que busca ler bons livros é um indivíduo propício a ter senso crítico e critérios”, afirma o professor.

Combater a desinformação não se resume a corrigir uma mentira depois que ela já circulou. O trabalho mais duradouro consiste em formar pessoas capazes de desconfiar de certezas fáceis, buscar evidências e rever a própria opinião quando necessário.

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