quarta-feira, 5 de agosto de 2026
PATRIMÔNIO AFRO-BRASILEIRO

Peças de arte sacra afro-brasileira de terreiros goianos sãos expostos ao público pela primeira vez

“Assentamentos” reúne mais de 40 peças de 16 comunidades religiosas de Goiânia e região metropolitana; abertura nesta quinta (6) no Museu Antropológico da UFG com visitação até outubro

Luana Avelarpor Luana Avelar em 5 de agosto de 2026 às 20:30
terreiros
Busto representativo de Orixá- em cerâmica, com aplicações de miçangas e corais africanos, autor desconhecido

Peças até agora ligadas ao cotidiano religioso de terreiros de Goiânia e da região metropolitana chegam ao espaço público nesta quinta-feira (6), às 19h, no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás. A exposição “Assentamentos – Arte Sacra em Terreiros de Goiânia e Entorno” reúne mais de 40 objetos de 16 comunidades e aproxima o visitante de um patrimônio moldado pela fé, pela memória e pela resistência.

O acervo resulta de dois anos de levantamento em Goiânia, Aparecida de Goiânia, Trindade e Abadia de Goiás. Ferramentas rituais, imagens sacras, indumentárias, utensílios e documentos apresentam tradições como ifá, candomblé, umbanda, omolocô, terecô e jurema. Cada peça é exibida a partir de sua função, de seu simbolismo e da história das comunidades que a preservaram.

Há obras produzidas desde a década de 1950, trabalhos de santeiros anônimos e objetos que, segundo a pesquisa, atravessaram o Atlântico com povos escravizados. Ferro, bronze, madeira, argila, cerâmica, ossos, chifres e penas mostram como religiosidade, vida comunitária e produção artística se cruzam na história goiana.

A visita também percorre as ruas da capital. Duas coleções fotográficas do Museu Antropológico, produzidas na década de 1970, recuperam manifestações que enfrentaram a invisibilidade imposta às religiões de matriz africana. Uma delas registra a Procissão dos Pretos-Velhos de Goiânia, entre 1972 e 1977. O cortejo saía da região da Pecuária, no Setor Vila Nova, reunia centenas de fiéis e representantes de terreiros e avançava até o centro, ocupando vias como a Avenida Goiás durante a ditadura militar.

A segunda série, “Terreiro de Candomblé Rei Congo Inhumas-GO, 1972”, documenta vestimentas, instrumentos, espaços rituais e a participação coletiva dos fiéis de uma comunidade de Inhumas. As imagens também registram um momento em que essas expressões ainda recebiam pouca atenção como patrimônio e objeto de pesquisa.

Segundo dados da Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de Goiás citados pelo projeto, há cerca de 18 mil espaços em funcionamento no estado, dos quais 4 mil estão em Goiânia. Apesar dessa presença, o desconhecimento ainda alimenta preconceito e intolerância religiosa. A mostra reconhece os terreiros como lugares de produção de arte, memória e conhecimento.

“Ao lançar luz às peças, objetivamos trazer a público a sua real função e simbolismo agregados, no sentido de propor uma valorização dos cultos afro-brasileiros perante a sociedade goianiense, além de consolidar uma nova referência de pesquisa sobre o patrimônio estudado, contribuindo para o resgate da história goiana no cenário religioso, e para o ensino de história afrodescendente no Brasil, conforme a Lei 10.639/2003 que estabelece, na Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira”, destaca o arquiteto e curador Ricardo Braudes.

A programação inclui atividades de educação patrimonial, palestra pública e visitas guiadas com integrantes dos terreiros e coordenadores do projeto. Os visitantes também receberão um catálogo com parte do acervo.

A abertura acontece nesta quinta-feira (6), das 19h às 21h, no Museu Antropológico da UFG, na Praça Universitária. A visitação começa em 11 de agosto e segue até 9 de outubro, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h. A entrada é gratuita.

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