quinta-feira, 6 de agosto de 2026
OPINIÃO

Igreja dá sobrevida a Daniel, mas 4 ao Senado vitimam Gracinha

Como foi decidida a mudança de última hora que tirou da vice o primo de Caiado e colocou um pastor da Assembleia de Deus; na tentativa de salvar o governador, esqueceu-se do excesso de candidatos que podem atrapalhar o favoritismo de ex-primeira-dama

Nilson Gomespor Nilson Gomes em
Igreja dá sobrevida a Daniel, mas 4 ao Senado vitimam Gracinha
Caiado cortou o gás da panela de pressão. Começou diminuindo a chama ao admitir a retirada de seu preferido, o primo Adriano. Daniel respirou mais aliviado do que Jonas quando saiu de dentro da baleia - Foto: Divulgação

As últimas horas de terça-feira (4), véspera da convenção dos partidos governistas no prazo final permitido pela Lei da Reforma Política e a Resolução 23.609/2019 do Tribunal Superior Eleitoral, podem ser equiparadas à Corrida Maluca. Para os mais novos, que não tiveram o privilégio de ver o desenho da Hanna-Barbera, o Dick Vigarista e o Muttley dirigiam a “máquina do mal”, a Penélope Charmosa desfilava em seu carro cor-de-rosa, o Professor Aéreo comandava um foguete, o Peter Perfeito era invejado em seu bólido atômico e a Quadrilha da Morte aprontava num possante à prova de balas. Pede-se ao leitor que vá encaixando os personagens reais nos fictícios. O governador Daniel Vilela (MDB) estava enredado na já definida presença de Adriano da Rocha Lima (PSD) como seu vice. Enquanto isso, Gracinha Caiado (União Brasil) sobre com um grupo de superestimados senatoriáveis, que vão prejudicá-la. Mas, enfim, apareceu o destemido Ronaldo Caiado (PSD) para salvar o mocinho, mas sem livrar a mocinha de seus algozes.

Daniel ia chegar à convenção e perpetrar um desejo de Caiado, o de lhe dar um companheiro de chapa que não significasse perigo. Ou seja, caso não dê certo a trajetória rumo ao Palácio do Planalto, Ronaldo pode voltar a ser candidato a governador em 2030 à frente de seu grupo. Se Daniel se reeleger em outubro, não poderá concorrer à reeleição, pois estes meses em que cumpre o mandato-tampão deixado pelo mesmo Caiado contam como se fosse o período inteiro de quatro anos. Já o vice de Daniel representaria bomba à vista, pois não teria a amarra legal e talvez tivesse a grande ideia de enfrentar Caiado. Seria um novo episódio da Corrida Maluca. Ainda há muito chão a percorrer, pois Daniel precisa ganhar e, nas circunstâncias descritas aqui, Caiado teria perdido para presidente e estaria com risco de sofrer um golpe dentro do próprio grupo.

Para evitar esse cenário, Caiado apressou as reuniões na terça-feira

Para evitar esse cenário, Caiado apressou as reuniões na terça-feira, voou na ponte aérea Goiânia – São Paulo e começou a noite já conversando com seu sucessor, num embate que duraria até às primeiras horas de quarta (5). Para uma pessoa de família tradicional, como Caiado (mais) e Vilela (menos, bem menos), alguém confiável é alguém do clã. Portanto, para Ronaldo o mais (na verdade, o único) palatável era o primo. Porém, como O HOJE alertou, a oposição estava à espreita da escolha para ressuscitar Nerso da Capitinga e fazer um feat. com o Panelão do Gugu. Afinal, como na época da Panelinha do MDB, lançada por Marconi Perillo (PSDB) em 1998, seriam três integrantes da mesma linhagem em três cargos majoritários poderosíssimos: Ronaldo Caiado para presidente da República; sua mulher, Gracinha Caiado, para senadora; e seu primo Adriano da Rocha Lima para vice-governador.

Caiado cortou o gás da panela de pressão. Começou diminuindo a chama ao admitir a retirada de seu preferido, o primo Adriano. Daniel respirou mais aliviado do que Jonas quando saiu de dentro da baleia. Restava escolhe alguém para o lugar.

José Mário Schreiner foi aniquilado pela velha e má intriga regional

José Mário Schreiner foi aniquilado pela velha e má intriga regional, que existe entre Ceres – Jaraguá – Goianésia, no Vale do São Patrício; Posse – Campos Belos, no Nordeste; Pires do Rio – Ipameri – Catalão, no Sudeste; Caldas Novas – Morrinhos – Itumbiara, no Sul; Uruaçu – Niquelândia – Porangatu, no Norte; São Luís de Montes Belos – Iporá – Caiapônia, no Oeste; São Miguel – Mozarlândia – Nova Crixás, no Vale do Araguaia; Jataí – Mineiros – Rio Verde – Santa Helena, no Sudoeste. Esta, a mais forte delas. José Mário tem base em Mineiros; Daniel, em Jataí; a família Do Vale, em Rio Verde.

A conta era simples e ao mesmo tempo ininteligível. Schreiner, caiadista de primeiríssima hora, não poderia ser vice porque era da mesma região de Daniel (o Sudoeste), da mesma classe de Caiado (a agropecuária), por ter sido vetado por lideranças de Rio Verde. Argumentos parecidos haviam tirado de cena Célio Silveira (deputado federal e ex-prefeito de Luziânia, no Entorno de Brasília, onde cada município é uma cidade-Estado da Itália pré-unificação) e Adib Elias (ex-prefeito de Catalão). Schreiner tinha como trunfo, além da amizade com Caiado, a reconexão da base caiadista com os produtores rurais, estremecidos desde a implantação da Taxa do Agro. O próprio José Mário continuaria firme com o grupo, a preocupação era que o setor se dispersaria.

Em 2018, deixou a vaga para Carmo, que não brilhou, mas não lhe deu trabalho

Pesado o que havia pró e contra, passou-se ao ex-senador Luiz Carlos do Carmo. Em 2014, Caiado se entendeu com seu ex-colega de Câmara dos Deputados, Manoel Ferreira, líder máximo do ramo da Igreja Assembleia de Deus fundada em Madureira no Rio de Janeiro (o outro é o da AD de Belém do Pará, a Missão). A pedido de Manoel, colocou de 1º suplente em sua chapa ao Senado o então deputado estadual Luiz do Carmo. Em retribuição, o líder supremo da AD Madureira promoveu reuniões imensas em todas as grandes igrejas de sua denominação em Goiás. Eleito governador em 2018, deixou a vaga para Carmo, que não brilhou, mas também não lhe deu trabalho. Aceitou bovinamente não inflar ainda mais o número de candidatos ao Senado em 2022, manteve-se obediente a Caiado e só não fez campanha porque não é disso. Portanto, demonstrou possuir o que o presidenciável mais requer, obediência. Bingo!

Carmo representa muito pouco ou quase nada em termos de voto. Seu mérito, além da fidelidade canina, era não haver vetos como os de Daniel e os Do Vale a Zé Mário. No menor dos mínimos, Carmo novamente não vai dar canseira a Caiado e ele não pode se preocupar com Goiás além do que seus companheiros vêm lhe dando de dor de cabeça. Em vez de fazer campanha em outros Estados, precisa voltar a Goiás dia sim e outro também para apagar incêndio. Carmo é tão inútil que não serve nem para dar trabalho. Acima dele, na hierarquia de seu campo da AD, o de Campinas, está seu irmão Oídes, que herdou os templos do verdadeiro líder assembleiano, o Albino Boaventura, que foi suplente de Mauro Miranda e assumiu interinamente no Senado duas vezes.

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Em tese, Daniel já teria o apoio da AD Campinas

Com ou sem Luiz do Carmo na chapa, seu discurso ali estava facilitado – Foto: divulgação

 

Em tese, Daniel já teria o apoio da AD Campinas porque um de seus frequentadores é o senador Vanderlan Cardoso (PSD). Com ou sem Luiz do Carmo na chapa, seu discurso ali estava facilitado. Outro senão para o irmão de Oídes é a inexpressividade diante de outras denominações. Ele tem exatamente nada em igrejas de muitos fiéis como a Católica, a do Evangelho Quadrangular, Universal, Mundial, Fonte da Vida, Presbiteriana, Batista, Deus é Amor, Cristã Evangélica. Em outros segmentos da própria Assembleia de Deus, seu prestígio é nenhum. A única boa notícia é que, em caso de vitória de Daniel, vai ser um vice como foi de suplente, discreto, sem incomodar. Não é muito, mas pelo menos não seria motivo para panelinha.

Em meio à Corrida Maluca, com os pilotos que o leitor já identificou pelos nomes reais e seus personagens no desenho animado, foi resolvido um problema e adiado outro. E bem volumoso. É a quantidade de postulantes ao Senado que acompanham Daniel na chapa majoritária. Além de Vanderlan ser da mesma igreja dos irmãos Carmo, ele acaba de sofrer derrotas acachapantes para prefeito de Goiânia (ele mesmo) e de Senador Canedo (sua mulher, Isaura Cardoso). Com um senão adicional: Isaura tem muitíssimo interesse na vitória de Wilder Morais a governador, pois é sua 1ª suplente. Wilder derrotando Daniel, ela será senadora. Como nada é tão ruim que não possa piorar, Vanderlan é lulista no Senado e direitista em Goiás.

Caiado herdou o problema Vanderlan ao se filiar ao PSD, sigla que o senador já presidia antes de o presidenciável ali aportar. Outro pepino a ser descascado foi obra do próprio comandante do caiadismo: o deputado federal Zacharias Calil havia migrado para o PL de Wilder e ali seria candidato a senador. Em mais uma articulação bem-sucedida, o presidenciável impediu a saída de Calil e lhe garantiu vaga ao Senado. Não perca a conta: já são dois senatoriáveis. O 3º é obra de Daniel, que foi traído por Gustavo Mendanha, para quem conseguiu com o pai, Maguito Vilela, os cargos de presidente da Câmara e prefeito de Aparecida. Mendanha o chamava “meu irmão”. A família não durou até o galo cantar três vezes a galinha: Mendanha saiu do MDB presidido pelo mano, saiu candidato a governador em 2022 contra ele, que era vice de Caiado, e saiu-se com tudo quanto era desculpa ao ser surrado nas urnas. Agora, está de volta para engordar a chapa e prejudicar uma candidatura que estava firme, inabalável.

Sem o 2º voto, Gracinha pode ser a campeã do 1º e perder a eleição

É o 4º nome ao Senado, o de Gracinha. Foi uma primeira-dama atípica, pois tratou o social com dados técnicos, de modo profissional, com afeto e, sobretudo, para poder de resolução. É tida, inclusive entre seus companheiros de chapa, como favorita. Aí mora um fantasma: assusta a todos com seu poderio eleitoral advindo do reconhecimento popular. Portanto, é próxima de zero a possibilidade de Vanderlan, Calil e Mendanha fazerem campanha casada com a dela. Sem o 2º voto, ela pode ser a campeã do 1º e perder a eleição. Portanto, uma Corrida Consciente teria de resolver esse caso, pois o de Daniel ficou como ele queria. A chapa ao Senado, com quatro fazendo dobradinha com ele para governador, também ficou. Falta estabelecer uma fórmula de ajudar alguém evitando enterrar as esperanças de outro. No caso, de outra. (Especial para O HOJE)

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