Por que tantas pessoas voltam a engordar? Ciência explica por que o organismo tenta recuperar o peso perdido
Especialista afirma que o efeito sanfona é consequência de adaptações biológicas que aumentam a fome, reduzem o metabolismo e dificultam a manutenção do emagrecimento
Emagrecer não encerra a disputa com a balança. Depois da perda de peso, o organismo passa a operar em outra direção: aumenta os sinais de fome, economiza energia e mantém as células de gordura prontas para recuperar o que foi perdido. É essa combinação que ajuda a explicar por que tantas pessoas voltam a engordar mesmo depois de mudanças na alimentação e na rotina.
O fenômeno, conhecido como efeito sanfona, não pode ser reduzido à falta de disciplina. A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica e multifatorial, e pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que a própria biologia cria obstáculos à manutenção do novo peso.
Parte dessa reação vem de um mecanismo moldado ao longo da evolução humana, quando armazenar energia representava uma vantagem diante de períodos de escassez. O cardiologista Guilherme Borges explica que o corpo ainda responde de acordo com essa lógica. “Durante milhares de anos, armazenar gordura foi essencial para a sobrevivência da espécie humana. Hoje vivemos em um ambiente de abundância alimentar, mas nosso organismo continua programado para preservar essas reservas de energia.”
Essa herança evolutiva ajuda a explicar uma reação que pode parecer contraditória: mesmo quando o emagrecimento é intencional, o corpo responde à redução das reservas de gordura como um sinal de alerta. “O organismo não entende que a pessoa emagreceu para melhorar a saúde. Do ponto de vista biológico, ele interpreta a perda de gordura como uma ameaça às reservas energéticas e passa a estimular mecanismos para recuperá-las”, explica Borges.
A fome não volta ao ponto de partida
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema, publicado no The New England Journal of Medicine, acompanhou pessoas após o emagrecimento e identificou mudanças persistentes em hormônios ligados ao apetite. Mesmo um ano depois da perda de peso, permaneciam alterações que favoreciam mais fome e menor sensação de saciedade.
Isso significa que o esforço necessário para manter o resultado pode ser diferente daquele enfrentado antes de emagrecer. A pessoa passa a conviver com sinais fisiológicos que estimulam a ingestão justamente quando tenta preservar uma quantidade menor de gordura corporal.
Ao mesmo tempo, o organismo aprende a gastar menos. Depois do emagrecimento, a quantidade de energia necessária para realizar as mesmas atividades pode cair, processo conhecido como adaptação metabólica.
Borges chama atenção para o impacto dessa mudança. “Uma redução de cerca de 10% do peso corporal pode diminuir significativamente o gasto energético diário. Isso significa que manter o novo peso exige estratégias permanentes e não apenas uma dieta temporária.”
Há ainda outro componente: os adipócitos, células responsáveis pelo armazenamento de gordura, diminuem de tamanho quando ocorre emagrecimento, mas não desaparecem. Permanecem no organismo capazes de voltar a armazenar energia caso haja excesso disponível.
O reganho de peso, portanto, nasce de várias frentes ao mesmo tempo. A fome pode aumentar, a saciedade pode diminuir e o corpo passa a funcionar com gasto energético menor. Quando esse cenário se encontra com um ambiente de comida disponível a qualquer hora, sono insuficiente, estresse e pouca atividade física, manter o resultado se torna ainda mais complexo.
“Não é apenas uma questão de força de vontade. Existe uma resposta biológica intensa tentando restaurar a gordura corporal. Quando ela se soma ao ambiente moderno, manter o emagrecimento torna-se muito mais difícil”, afirma o cardiologista.
Emagrecer não é o fim do tratamento
Essa compreensão mudou também a maneira como a obesidade é tratada. Se o organismo continua reagindo mesmo depois da perda de peso, a manutenção não pode ser vista como uma etapa automática nem como responsabilidade exclusiva do paciente.
O acompanhamento precisa continuar depois que a meta inicial é alcançada. Alimentação, atividade física, estratégias comportamentais e, quando houver indicação médica, medicamentos podem fazer parte do cuidado de longo prazo. O plano deve ser ajustado conforme a resposta individual e as mudanças que surgem ao longo do processo.
Por isso, a manutenção precisa ser planejada desde o início do acompanhamento, com ajustes que possam continuar mesmo depois da perda de peso. “O tratamento não termina quando a pessoa emagrece. Em muitos casos, é justamente nesse momento que começa a fase mais importante, que é evitar o reganho de peso”, afirma Borges.
A lógica é semelhante à aplicada a outras doenças crônicas: o controle não significa desaparecimento definitivo da condição. Por isso, oscilações não devem ser interpretadas automaticamente como fracasso nem como prova de que o tratamento “não funcionou”.
“Assim como acontece com hipertensão, diabetes e colesterol elevado, a obesidade exige tratamento de longo prazo. Oscilações podem acontecer, mas elas não representam fracasso. Com acompanhamento médico e nutricional, é possível ajustar a estratégia e preservar os benefícios conquistados para a saúde cardiovascular e para a qualidade de vida”, conclui Borges.
O efeito sanfona deixa, assim, de ser explicado apenas pelo comportamento individual. A manutenção do peso depende de enfrentar uma combinação de fome aumentada, menor gasto energético e um ambiente que favorece o consumo — razões pelas quais o cuidado precisa continuar após o emagrecimento.
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