segunda-feira, 31 de agosto de 2026
paternidade

Registros sem nome do pai crescem pelo terceiro ano seguido em Goiás

Estado teve 3.573 casos entre janeiro e agosto de 2026, antes 3.449 no mesmo período de 2025 e 3.136 em 2024; Brasil soma 450.651 registros

Lalice Fernandespor em
registro pai goiás
Legenda: Recusa do suposto pai, rompimento de relações e desinformação aparecem entre os fatores apontados | Foto: Marcello Casal Jr/ ABr

O número de crianças registradas sem o nome do pai cresceu pelo terceiro ano consecutivo em Goiás. No período de 1º de janeiro a 1º de agosto, foram 3.136 registros em 2024, 3.449 em 2025 e 3.573 em 2026, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil. No Brasil, o total chegou a 450.651 registros considerando 2024 e 2025 e o mesmo período de 2026, com 106.442 ocorrências neste ano.

A concentração dos registros também aparece nos municípios goianos que concentram os dados mais elevados. Goiânia somou 3.324 casos entre 2024 e 2026. Aparecida de Goiânia teve 1.535 registros, enquanto Anápolis chegou a 852 no mesmo período.

Os números, porém, não representam necessariamente crianças que permanecerão sem reconhecimento paterno. A Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO), explica que o dado do registro civil é uma fotografia do momento em que a certidão é lavrada. Parte dos casos é regularizada posteriormente por reconhecimento espontâneo em cartório ou por decisão judicial, sem alteração do número originalmente contabilizado.

O que explica o aumento

Os atendimentos da Defensoria apontam diferentes situações relacionadas ao registro apenas com a filiação materna. Entre os fatores estão a recusa do suposto pai, a ausência no momento do registro, o rompimento da relação durante a gestação ou após o nascimento, a desinformação e a vulnerabilidade socioeconômica. Também aparecem casos de violência doméstica, pais que vivem em outros Estados ou países e dificuldades provocadas pela distância.

Para o sociólogo e docente do Instituto Federal de Goiás (IFG) José Elias Domingos, o cenário também precisa ser observado a partir da estrutura das relações familiares brasileiras. A avaliação considera a permanência do “patriarcalismo e o machismo estrutural” e uma responsabilização diferente de homens e mulheres diante da parentalidade. “A paternidade, ainda no Brasil, é vista como um favor, como opção, enquanto que a maternidade é um destino obrigatório”.

Mudanças nas relações afetivas e condições econômicas também aparecem na análise do sociólogo. A advogada especialista em Direito da família, Tatiana Nora ressalta, contudo, que nem todo registro sem o nome do pai envolve conflito, já que existem casos de maternidade solo por reprodução assistida e famílias formadas por duas mulheres.

A própria forma de acesso ao registro civil também mudou e permite que a mãe realize o procedimento sem a presença do pai. A advogada especialista em direito da família, Adriana Monteiro, destaca que “soma-se a isso aspectos sociais, como a maior informalidade nas relações afetivas e a crescente judicialização das relações familiares, o que faz com que o reconhecimento da paternidade seja, muitas vezes, postergado para momento posterior, inclusive pela via judicial”.

Quando há concordância do genitor, o reconhecimento da paternidade pode ser feito gratuitamente em cartório e sem processo judicial. Nos casos de resistência ou ausência, existem mecanismos como a averiguação oficiosa e a investigação judicial, que podem envolver exame de DNA. A Defensoria aponta a localização do suposto pai, a recusa ao exame, a distância entre as partes, dificuldades de acesso e casos envolvendo residentes no exterior entre os principais obstáculos.

Tatiana Nora ressalta, que em casos que envolvem exame de DNA, “a lei responde com uma presunção: quem se nega injustificadamente corre o risco de ter a paternidade reconhecida”. A especialista, porém, afirma que a recusa não gera reconhecimento automático, segundo Nora, “em decisão de março de 2026, a Terceira Turma do STJ reafirmou que o ônus da prova nessas ações é bipartido — cabe a quem alega ser filho trazer indícios mínimos do relacionamento, e à outra parte demonstrar o contrário”. “A recusa pesa muito, mas é avaliada junto com todo o restante da prova”. completa.

Ainda, o reconhecimento tardio modifica a leitura dos dados sobre a ausência paterna. Levantamento da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) mostra que 36,2% dos reconhecimentos de paternidade realizados no país ocorrem depois dos seis anos, considerando 327.869 reconhecimentos feitos entre 2014 e junho de 2026. Do total, 14,7% ocorreram depois da maioridade.

Efeitos ultrapassam a certidão

Enquanto a paternidade não é reconhecida, podem ficar pendentes direitos relacionados à filiação, como alimentos, benefícios previdenciários e direitos sucessórios. Também podem surgir limitações relacionadas à convivência com o pai e com a família paterna, além de questões ligadas à identidade e ao conhecimento da origem genética. A Defensoria classifica o reconhecimento do estado de filiação como direito personalíssimo, indisponível e imprescritível.

Para Domingos, os efeitos também alcançam a formação emocional e social da criança. “A criança vai crescer lidando com o luto de alguém que está vivo”.

 

Leia mais:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Goiás pai registro

Veja também

TRT Goiás abre vagas de estágio com salário de até R$ 2,1 mil

Concurso Público

TRT Goiás abre vagas de estágio com salário de até R$ 2,1 mil

Oportunidades são para estudantes de pós-graduação em Direito, com atuação em Goiânia e jorna...
Entregadores por aplicativo

BREQUE GERAL

Entregadores por aplicativo fazem paralisação nacional nesta terça-feira (1º)

"Breque Geral dos Apps" exige o pagamento de um valor mínimo fixo por corrida
Aparecida de Goiânia

levantamento

Aparecida de Goiânia ultrapassa 560 mil habitantes e se mantém como 2ª maior cidade de Goiás

Município ganhou quase 5 mil moradores em um ano, cresceu acima da média nacional e segue entre as...
Goiânia

FUTURO DA CAPITAL

Crescimento de Goiânia cria desafios para a infraestrutura urbana

Capital chega a 1,51 milhão de habitantes, enquanto avanço da Região Metropolitana reforça desaf...
Homem que jogou ex de penhasco em BH vira réu por tentativa de feminicídio

24 HORAS EM MATA

Homem que jogou ex de penhasco em BH vira réu por tentativa de feminicídio

Processo tramita em segredo de Justiça; homem também foi indiciado por sequestro, ameaça, roubo, ...
Irmãos são presos em Morrinhos por sonegação de R$ 45 milhões e máfia de remédios contra o câncer

ESQUEMA MILIONÁRIO

Irmãos são presos em Morrinhos por sonegação de R$ 45 milhões e máfia de remédios contra o câncer

Ação conjunta do Cira-GO cumpriu mandados em Goiânia e Morrinhos. Um dos empresários presos era ...
Aterro Sanitário

MEIO AMBIENTE

TJGO mantém licenças do Aterro Sanitário de Goiânia

Decisão suspende, por enquanto, anulação das licenças emitidas pela Amma e transferência do lic...
Servidor

TAGUATINGA

Servidor de Goiás é preso após atirar contra vizinho no DF

Suspeito teria atirado contra um vizinho após uma reclamação sobre som alto