Cota da China e barreiras da Europa pressionam pecuária em Goiás
Redução das exportações e queda nos abates aumentam a pressão sobre frigoríficos e pecuaristas goianos
O setor pecuário brasileiro enfrenta um dos momentos mais desafiadores de 2026 diante da combinação entre o esgotamento precoce da cota de exportação para a China e o endurecimento das restrições sanitárias impostas pela União Europeia. Os dois fatores têm provocado mudanças no fluxo internacional da proteína animal e levado a ajustes em diferentes etapas da cadeia produtiva, do campo às plantas frigoríficas.
A China, principal destino da carne bovina brasileira, estabeleceu para 2026 uma cota de 1,1 milhão de toneladas com tarifa de importação reduzida a 12%. O ritmo acelerado dos embarques no primeiro semestre fez com que o Brasil atingisse 90% desse volume em 10 de agosto. Pelas regras do Ministério do Comércio da China (Mofcom), caso o limite seja ultrapassado, as exportações brasileiras passarão a pagar uma sobretaxa adicional de 55%, elevando a alíquota total para 67%.
O avanço da utilização da cota provocou desaceleração nos negócios. Em julho, os embarques para a China recuaram 47% em relação a junho, totalizando 85,7 mil toneladas, o pior resultado mensal do ano. O faturamento caiu 50,3%, de US$ 1,08 bilhão para US$ 537,8 milhões. Frigoríficos brasileiros passaram a adotar férias coletivas e a redirecionar parte da produção para evitar que cargas cheguem aos portos chineses após o preenchimento integral da cota, situação que elevaria os custos devido à nova tarifação.
Ao mesmo tempo, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal. A decisão foi motivada pela ausência de comprovação de que a cadeia produtiva brasileira atende às normas europeias sobre o uso de antimicrobianos, especialmente a proibição de medicamentos utilizados como promotores de crescimento ou de substâncias também destinadas ao tratamento humano.
A exigência europeia prevê o controle desses medicamentos durante toda a vida do animal, e a estimativa é de que o Brasil leve de dois a três anos para comprovar plena adequação às regras. A preocupação aumentou após o anúncio de que a Noruega adotará o regulamento europeu e bloqueará as carnes brasileiras a partir de 3 de setembro. Também existe a possibilidade de que países africanos de língua francesa sigam as mesmas orientações técnicas da União Europeia.
Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, a velocidade com que o Brasil utilizou a cota chinesa foi determinante para o cenário atual. “O Brasil acelerou as exportações para a China, realizando vendas num período mais curto e consumindo as cotas”, afirma. Segundo a avaliação, o comportamento do governo chinês nos próximos meses será decisivo para o setor, especialmente quanto à possibilidade de ampliação da cota ou de concessão de cotas extraordinárias ao longo do ano.
Em relação ao mercado interno, Ongaratto observa que a redução das exportações ainda não provocou queda expressiva dos preços ao consumidor. “Não estamos sentindo alterações no mercado interno. Era de se esperar uma queda de preços, porém a oferta de gado para abate também diminuiu”, explica. De acordo com a análise, “os preços se mantiveram porque, mesmo havendo redução de demanda, houve redução de oferta”.
Na avaliação do economista, o impacto imediato tende a ser mais intenso para a indústria frigorífica do que para o produtor rural. “O produtor em si não sofrerá tantos impactos, pois o preço da arroba se manteve. Quem irá sofrer maior impacto são os frigoríficos, que podem até perder vendas pela baixa disponibilidade de gado”, afirma. A perspectiva apresentada é de abertura gradual de novos mercados por meio da atuação conjunta do governo, empresários e entidades representativas do setor.
Os efeitos já aparecem na produção. Dados preliminares apontam que os abates de gado no Brasil recuaram 21,5% em julho. Em Estados como Goiás, a expectativa é de redução de até 30% nas exportações mensais de carne bovina. Pecuaristas relatam maior dificuldade para negociar animais com frigoríficos, que passaram a aplicar descontos no preço da arroba diante da instabilidade do mercado externo.
Como estratégia para compensar as perdas na China e na Europa, a indústria ampliou as vendas para outros destinos. Estados Unidos e Chile elevaram suas compras de carne bovina brasileira, enquanto o Vietnã registrou aumento de 375,4% nas importações. A Indonésia apresentou crescimento de 242,1%, e a Argentina ampliou as aquisições em 139,5% neste ano.
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