Violência contra adolescente no Discord amplia debate sobre segurança digital
Jovem que teria sido coagida durante interações e lives na plataforma motivou investigação e levou a ANPD a restringir funcionalidades do Discord
A morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul colocou o Discord no centro do debate sobre a segurança de crianças e adolescentes na internet e levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a adotar uma medida preventiva contra a plataforma. Nesta quarta-feira (12), a agência determinou que o serviço suspenda, no Brasil, as transmissões ao vivo e outros recursos de compartilhamento de vídeos. A empresa terá três dias úteis para cumprir a determinação.
A decisão foi tomada durante uma investigação da ANPD sobre possíveis falhas na proteção de menores dentro da plataforma. O caso envolve uma adolescente que teria sido coagida e incentivada por integrantes de um grupo a cometer suicídio. As autoridades passaram a analisar as interações ocorridas no ambiente virtual diante da suspeita de que parte da violência contra a vítima também tenha ocorrido pela internet.
A determinação da ANPD não significa que o Discord será retirado do ar no Brasil. A medida atinge especificamente as transmissões ao vivo e outros recursos relacionados ao compartilhamento de vídeos. A suspensão deverá permanecer até que a empresa demonstre a adoção de mecanismos considerados eficazes para ampliar a proteção de crianças e adolescentes.
O Discord contestou a decisão e afirmou que já vinha implementando medidas de segurança. A empresa também informou que o servidor privado relacionado ao caso foi desativado. A situação, porém, amplia a discussão sobre a responsabilidade de plataformas que permitem comunidades, conversas privadas e compartilhamento de conteúdo em tempo real.
Vulnerabilidade preocupa especialistas
Para a psicóloga infantil Izabela Fresneda, crianças e adolescentes estão mais vulneráveis aos riscos do ambiente digital porque ainda estão em processo de desenvolvimento físico e cerebral.
“Quando a gente leva transmissões ao vivo, chats e jogos que estão nessas plataformas, nós estamos falando de um indivíduo despreparado, que está vendo, consumindo e sendo estimulado por pontos e questões que, no momento, ele não está preparado para ver, para assistir e para consumir determinados conteúdos”, explica.
“As crianças e os adolescentes estão, permanecem em um ambiente onde as regras e os limites não estão estabelecidos”, afirma Izabela. Para a psicóloga, esse cenário pode afetar o estado psicológico dos menores, principalmente quando há uso excessivo das plataformas e dificuldade de estabelecer limites para o tempo diante das telas.
A psicóloga alerta que alterações na rotina podem indicar que a criança ou o adolescente enfrenta uma situação de sofrimento relacionada ao ambiente digital. Entre os sinais estão mudanças no sono e na alimentação, isolamento, movimentos repetitivos, roer as unhas, cutucar machucados e alterações na convivência familiar.
Esconder o celular
Também merece atenção quando o menor passa a esconder excessivamente o celular ou demonstra medo e angústia quando os responsáveis se aproximam do aparelho. Mudanças na linguagem também podem ser percebidas.
“São comportamentos verbais, xingamentos, questões inadequadas que antes não eram presentes na vida deles”, explica. Segundo a especialista, falas diferentes ou significativas para aquele indivíduo devem ser observadas.
Para construir uma relação de confiança, a especialista recomenda escuta ativa e sem julgamentos. O adolescente deve sentir que pode procurar os responsáveis para relatar situações de risco sem medo de ser imediatamente repreendido.
“Os pais de adolescentes devem mostrar segurança. Segurança no sentido de que eu posso confiar no meu pai, eu posso confiar na minha mãe de contar determinadas coisas”, afirma.
O caso ocorre em meio ao aumento de denúncias relacionadas ao Discord. Dados divulgados pela SaferNet apontam crescimento de 54% nas denúncias envolvendo a plataforma entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Goiás também entra no debate sobre riscos nas plataformas on-line
Em Goiás, a Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC) registra casos em que crianças e adolescentes são abordados por criminosos em ambientes digitais. Segundo a titular da unidade, delegada Marcella Cordeiro Orçai, há ocorrências em que o primeiro contato entre o abusador e a vítima acontece em jogos on-line.
De acordo com a delegada, esses ambientes podem funcionar como porta de entrada para criminosos criarem uma relação de confiança com menores. Depois da aproximação, a comunicação pode migrar para aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp, Telegram ou Discord.
“Embora o abuso não ocorra necessariamente dentro da plataforma de jogos, ela serve como porta de entrada para esses criminosos”, explica Marcella.
Entre os casos registrados estão aliciamento para fins sexuais, produção e compartilhamento de material íntimo envolvendo menores, chantagem após a obtenção de imagens e violência psicológica.
A delegada também cita obrigações previstas na Lei nº 15.211/2025 para plataformas utilizadas por menores, incluindo mecanismos de verificação de idade, ferramentas de supervisão parental, restrições à coleta e ao uso de dados pessoais de crianças e adolescentes e remoção de conteúdos ilícitos envolvendo menores.
O descumprimento pode resultar em sanções, incluindo multas, suspensão ou proibição de atividades. O caso do Discord amplia, portanto, uma discussão que também alcança Goiás: como garantir que crianças e adolescentes possam utilizar jogos, redes sociais e comunidades virtuais sem ficarem expostos a criminosos.
A medida da ANPD coloca as plataformas sob maior pressão para aperfeiçoar mecanismos de segurança. Para especialistas e autoridades, entretanto, a proteção não depende apenas das empresas. Acompanhamento familiar, diálogo e atenção aos sinais apresentados por crianças e adolescentes continuam sendo ferramentas fundamentais para identificar situações de risco antes que os episódios evoluam para casos mais graves.
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