Bets pressionam renda e ampliam dependência de mulheres em Goiás
Estudo mostra que 42% das brasileiras já apostaram ou ainda apostam e aponta maior exposição entre mães, que jogam 1,6 vez a mais que mulheres sem filhos
Mais da metade das mulheres brasileiras já foi diretamente afetada pelas plataformas de apostas online, as bets, como apostadora ou ao arcar com consequências da dependência de familiares. O dado consta do estudo “Mulheres & Bets”, da Clarice, com os institutos Estratégia Latina e Ideia. Segundo a pesquisa, 42% das brasileiras afirmam apostar ou já terem apostado, enquanto 12% relatam sofrer os efeitos do vício de parceiros ou parentes. Entre as mulheres, as mães jogam cerca de 1,6 vez mais do que as sem filhos.
Segundo Beatriz Della Costa, porta-voz do estudo, a motivação dessas mães está ligada à tentativa de complementar a renda e arcar com despesas, e não ao consumo de luxo associado às apostas por influenciadores digitais. As apostas são utilizadas para tentar “pagar o bolo de aniversário, ir comer num japonês, pedir um delivery ou comprar material escolar”. O jogo passa a ser encarado como “terceira renda” ou possibilidade de melhorar a situação financeira.
As bets ganharam força no Brasil durante a pandemia de Covid-19. Em 2025, as perdas líquidas das famílias para as bets foram estimadas em R$ 62,5 bilhões, diferença entre o apostado e os prêmios devolvidos, equivalente a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. No mesmo ano, as plataformas movimentaram R$ 351 bilhões em transações via PIX. As classes C, D e E estão entre as mais afetadas; a vulnerabilidade financeira pode comprometer a avaliação dos riscos.
Em outubro de 2025, o governo proibiu o uso do Bolsa Família em apostas, após identificar R$ 3 bilhões destinados às bets por beneficiários em um único mês.
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Em Goiás, 50,1% dos lares eram chefiados por mulheres em 2024. Em Goiânia, a proporção chegou a 51,9% das residências. O cenário envolve sobrecarga financeira e vulnerabilidade de mães solo e mulheres negras ou pardas com baixa escolaridade.
Na saúde pública da Capital, 120 atendimentos por ludopatia foram registrados até meados de 2026, mais que o dobro dos 50 casos de 2025. Especialistas apontam o acesso por celulares e os mecanismos de recompensa dos aplicativos como fatores relacionados à dependência.
Segundo o Sindilojas-GO, as vendas no varejo goiano caíram, em parte devido ao redirecionamento de recursos das famílias para as plataformas. Recursos antes destinados ao comércio local, como roupas, alimentos e calçados, passam a ser usados nas apostas. “Menos consumo significa menos investimento e menos geração de empregos”, afirma Marisa Carneiro, presidente da entidade.
A ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. Segundo a neurocientista Aida Leal, o funcionamento das plataformas está relacionado ao “reforço intermitente”, mecanismo no qual a liberação de dopamina é intensificada pela expectativa do resultado. O pico ocorre durante a expectativa, não necessariamente após uma vitória. “O que acontece com as bets é que você acha que está apostando dinheiro, mas, na verdade, está buscando uma recompensa”, explica.
Para mães que desenvolvem dependência, o problema envolve também questões emocionais relacionadas à maternidade. Mulheres sem filhos relatam maior facilidade em reconhecer o problema, enquanto as mães podem apresentar vergonha e sensação de fracasso pela percepção de deixar de cumprir responsabilidades com os filhos. Uma esteticista perdeu mais de R$ 500 mil, incluindo economias, carro e moradia.
A médica generalista Mariana Sachett afirma que o transtorno tem características semelhantes às de outras dependências. “Ninguém usa cocaína esperando que isso vá pagar o aluguel, mas todo mundo que abre o aplicativo de aposta espera exatamente isso”, afirma. A expectativa de ganhos capazes de modificar a situação financeira pode levar apostadores a considerar a atividade como investimento. O quadro é classificado como transtorno do jogo e demanda acompanhamento especializado.
O estudo “Mulheres & Bets” e especialistas defendem maior rigor na regulamentação e restrições aos cassinos digitais, como o “jogo do tigrinho”, apontado como uma das principais portas de entrada para o vício entre mulheres por oferecer retorno imediato.
O governo federal oferece o bloqueio do CPF para apostas pelo portal gov.br, com a autoexclusão de todas as casas regulamentadas. Em Goiânia, o tratamento gratuito é oferecido pelo SUS nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS AD) dos setores Vila Mutirão I, Negrão de Lima e Setor Central. Também existem grupos como os Jogadores Anônimos (JA), para suporte emocional e prevenção de recaídas. (Especial para O HOJE)
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