domingo, 25 de outubro de 2026
Impasse

Goiás constrói mais, mas financiamento afasta famílias da casa própria

Juros, dificuldade de aprovação e falta de incentivos limitam acesso ao crédito, enquanto mercado mantém demanda elevada

Renata Ferrazpor em
Goiás constrói mais, mas financiamento afasta famílias da casa própria
Divulgação

O mercado imobiliário de Goiás continua movimentado, mas o acesso ao financiamento tem se tornado um dos principais desafios para quem pretende comprar um imóvel. Enquanto a demanda permanece elevada e as incorporadoras buscam facilitar as vendas, parte dos consumidores enfrenta dificuldades para conseguir crédito. O cenário cria um contraste: há famílias interessadas em comprar, mas nem todas conseguem transformar esse interesse em aquisição.

Segundo o Sindicato da Indústria da Construção no Estado de Goiás  – Sinduscon-GO, é importante diferenciar lançamentos de repasses, que correspondem às contratações realizadas por meio do FGTS. No primeiro semestre de 2026, Goiás registrou 20.035 unidades habitacionais contratadas, queda de 11,5% em relação ao mesmo período de 2025. 

Em Goiânia, o recuo foi de 14,5%. Já cidades do entorno metropolitano cresceram, como Águas Lindas de Goiás, com alta de 34,4%, e Luziânia, com 26,5%. O resultado também contrasta com o cenário nacional, já que as contratações do Minha Casa, Minha Vida cresceram 26% até abril.

Crédito é principal gargalo

Para o Sinduscon-GO, o problema em Goiás não está necessariamente na falta de demanda ou de recursos do programa habitacional. O principal entrave está no crédito para o comprador final. Existem duas etapas de financiamento: o crédito para pessoas jurídicas, que ajuda a incorporadora a viabilizar o empreendimento, e o crédito para pessoas físicas, que depende da comprovação de renda e da aprovação bancária.

Na prática, o imóvel pode estar disponível, mas o consumidor não consegue obter financiamento para comprá-lo. A situação afeta principalmente as famílias de menor renda, que dependem do crédito para adquirir a casa própria. O Sinduscon também aponta que mecanismos de incentivo para compensar essa dificuldade, como subsídios estaduais e municipais para a entrada, são praticamente inexistentes em Goiás.

O economista Leonardo Ferraz explica que os juros elevados também pesam sobre esse cenário. Com o crédito mais caro, as parcelas aumentam e os bancos passam a exigir maior capacidade financeira do consumidor. Ao mesmo tempo, compradores de maior renda e investidores conseguem manter participação no mercado, já que dependem menos do financiamento tradicional.

Setor busca alternativas

Diante das dificuldades, incorporadoras passaram a oferecer entradas menores, parcelamentos mais longos e condições comerciais mais flexíveis. Para o Sinduscon-GO, porém, essas medidas funcionam apenas como solução de curto prazo. 

A entidade, transferir para as empresas parte do esforço para viabilizar a compra aumenta o risco para incorporadores e consumidores e não resolve o problema estrutural do acesso ao crédito.

O setor defende maior participação do poder público, principalmente por meio de subsídios para a entrada, modelo adotado em outros Estados. A medida poderia ampliar a capacidade de financiamento das famílias e reduzir a dependência das condições oferecidas pelas próprias construtoras.

Além do crédito, o setor enfrenta dificuldades na reposição dos imóveis. De acordo com Sinduscon-GO, empresas têm relatado atrasos recorrentes na aprovação de projetos pelos municípios. Com isso, novos lançamentos ficam represados, mesmo com a demanda pelo segmento econômico permanecendo elevada.

O resultado é um descompasso entre vendas e reposição do estoque. O setor afirma que os imóveis colocados no mercado continuam sendo absorvidos, mas a demora para aprovar novos empreendimentos reduz a velocidade de renovação da oferta. Para a entidade, essa escassez pode pressionar os preços, não necessariamente pelo aumento dos custos de construção, mas pela menor disponibilidade de unidades.

Para Leonardo Ferraz, o cenário exige atenção porque o crescimento dos lançamentos não significa, necessariamente, maior acesso à moradia. Uma cidade pode ter oferta de imóveis e, ao mesmo tempo, famílias sem renda suficiente para financiá-los. 

O economista também destaca que a compra para investimento ajuda a manter o mercado aquecido, mas pode aumentar a distância entre a oferta disponível e a capacidade de compra de quem procura o primeiro imóvel.

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