sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Agosto Laranja

Esclerose múltipla atinge mais jovens do que se imagina; neurologista explica os sinais de alerta

Doença afeta cerca de 40 mil brasileiros e aparece com maior frequência entre os 25 e 30 anos; Agosto Laranja chama atenção para sintomas que não devem ser ignorados

Luana Avelarpor Luana Avelar em
Esclerose múltipla

Uma pessoa de 25 ou 30 anos dificilmente espera que uma alteração repentina na visão, um formigamento persistente ou uma dificuldade para caminhar possa estar ligada a uma doença neurológica. É justamente nessa fase, porém, que a esclerose múltipla aparece com maior frequência. 

A Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) estima mais de 40 mil casos diagnosticados no país. No mundo, cerca de 2,8 milhões de pessoas vivem com a doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em agosto, a campanha Agosto Laranja chama atenção para os sinais da enfermidade; no dia 30, o Brasil marca o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla.

“Também é cerca de duas a três vezes mais frequente em mulheres do que em homens. Apesar disso, a doença pode surgir antes ou depois dessa faixa etária, embora isso seja bem menos comum”, afirma o neurologista Iron Dangoni Filho.

Não existe um perfil fechado de quem desenvolverá a doença. Genética e ambiente entram na equação, mas mesmo o histórico familiar tem peso limitado. “A esclerose múltipla resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais. Ter um familiar com a doença aumenta discretamente o risco, mas a grande maioria dos pacientes não possui outros casos na família. Pessoas com baixos níveis de vitamina D, histórico de infecção pelo vírus Epstein-Barr na infância, obesidade na adolescência e tabagismo apresentam maior risco de desenvolver a doença”, explica.

O sintoma que não passa

A esclerose múltipla não se apresenta da mesma forma em todas as pessoas. O que chama atenção, segundo Iron, é o aparecimento súbito de alterações neurológicas que persistem por mais de 24 horas.

“Entre eles estão perda ou embaçamento da visão em um dos olhos, geralmente acompanhado de dor ao movimentá-lo; formigamentos ou dormências em braços, pernas ou no rosto; fraqueza em um lado do corpo; desequilíbrio, tontura ou dificuldade para caminhar; visão dupla e alterações urinárias”, afirma.

Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma o diagnóstico. A persistência, porém, é motivo para procurar avaliação médica. Para quem já sabe que tem esclerose múltipla, uma piora também não deve ser interpretada automaticamente como novo surto. Infecções e outras condições podem provocar aumento temporário dos sintomas.

Durante uma crise, o primeiro passo é justamente diferenciar essas situações. Além da assistência médica, a rotina pode precisar de adaptações por alguns dias. “Além do tratamento prescrito pelo neurologista, familiares e amigos podem ajudar oferecendo apoio, respeitando as limitações do paciente naquele momento e auxiliando nas atividades do dia a dia quando necessário”, diz Iron.

Hábitos também entram no acompanhamento. Eles não são apontados como causa isolada da doença, mas podem interferir em sua evolução. “O tabagismo é um dos fatores mais bem estabelecidos e está associado a uma progressão mais rápida da doença e maior incapacidade ao longo do tempo. O sedentarismo pode contribuir para piorar o condicionamento físico, fadiga e perda de qualidade de vida. Já o consumo excessivo de álcool pode piorar sintomas como desequilíbrio e interagir com alguns medicamentos”, detalha.

O tratamento mudou a perspectiva

A imagem de que o diagnóstico inevitavelmente levará a sequelas graves ou à perda de autonomia ficou para trás com o avanço das terapias. Iron aponta 2012, com a chegada da primeira medicação de alta eficácia, como um marco dessa mudança.

O tratamento atua em duas frentes. A primeira cuida das crises. “O tratamento pode ser dividido em dois pilares. O primeiro é o tratamento das crises, geralmente realizado com corticóides em altas doses para reduzir a inflamação, chamado de pulsoterapia (terapia de pulso, pois usamos uma alta dose em um curto intervalo de tempo)”.

A segunda busca controlar a própria atividade da doença. Os medicamentos modificadores reduzem a inflamação, diminuem a frequência de surtos, retardam a progressão da incapacidade e reduzem o aparecimento de novas lesões no cérebro e na medula.

Hoje há opções orais, injetáveis e por infusão intravenosa, com intervalos que variam conforme a terapia e o perfil do paciente. “Existem tratamentos diários, mensais e até drogas que são usadas uma vez ao ano. Inteirar-se com seu neurologista sobre as opções é de extrema importância e sugiro, inclusive, que participe de forma ativa na escolha do tratamento junto do seu médico”, afirma Iron.

Para uma doença que costuma aparecer quando a vida adulta ainda está sendo construída, o tempo entre o primeiro sintoma persistente e a investigação importa. O alerta do Agosto Laranja não é transformar qualquer formigamento em diagnóstico, mas reconhecer quando uma mudança neurológica deixa de ser passageira. Hoje, identificar a doença e iniciar o acompanhamento cedo significa enfrentar um cenário bastante diferente daquele de poucas décadas atrás.

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