sexta-feira, 2 de outubro de 2026
RELIGIÃO E SOCIEDADE

Intolerância religiosa fez 2.774 vítimas em um ano; sacerdote explica o que está por trás dos números

Pai Rodrigo Queiroz, sacerdote de Umbanda e pesquisador, aponta a distância entre reconhecimento cultural e proteção real e alerta que analfabetismo religioso somado a racismo alimenta a violência

Luana Avelarpor em
Intolerância religiosa
Sacerdote e pesquisador Pai Rodrigo Queiroz analisa como desinformação, racismo religioso e estereótipos ainda alimentam ataques e hostilidade contra terreiros

Uma religião pode ocupar museus, ser estudada nas universidades e aparecer em políticas de patrimônio sem que seus praticantes estejam livres de esconder a própria fé no trabalho, na escola ou na vizinhança. É nessa distância entre reconhecimento público e convivência cotidiana que o sacerdote de Umbanda, filósofo e pesquisador Pai Rodrigo Queiroz situa parte da intolerância enfrentada pelas tradições afro-brasileiras.

O Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Entre as religiões identificadas, a Umbanda aparece com 228 registros, seguida pelo Candomblé. Em Goiás, Rodrigo cita uma estimativa de cerca de 18 mil espaços em funcionamento, dos quais 4 mil estariam em Goiânia.

A presença crescente dessas religiões em museus, universidades e políticas de patrimônio não impediu que a violência continuasse do lado de fora. “Porque o reconhecimento cultural não é política de proteção. O título entra no papel e o terreiro continua sozinho na rua”, afirma o sacerdote. Para ele, o reconhecimento precisa ser acompanhado por estruturas capazes de responder à violência. “Patrimônio sem fiscalização, sem delegacia preparada e sem escola que ensine vira placa decorativa.”

Em Goiânia, Rodrigo lembra que essa hostilidade tem antecedentes recentes. “Em 2003, aqui em Goiânia, uma exposição de Orixás virou alvo de protesto público de igrejas neopentecostais”, recorda. Hoje, o Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás abriga “Assentamentos”, com mais de 40 peças sagradas cedidas por 16 terreiros da capital e do entorno, além de fotografias feitas em um terreiro de Inhumas em 1972.

Quando o discurso prepara o ataque

Ataques a terreiros e destruição de imagens são a parte mais visível da intolerância. Antes deles, porém, circulam discursos que transformam crenças diferentes em ameaça e seus praticantes em inimigos a serem combatidos.

É nesse ponto que Rodrigo chama atenção para a ideia de “guerra espiritual”. “Aquele que ensina que existe um inimigo a ser destruído e que destruir é ato de fé. Quando o púlpito transforma o vizinho em demônio, alguém vai quebrar a imagem na encruzilhada e postar o vídeo.”

Os números da pesquisa “Respeite o meu Terreiro” mostram como essa hostilidade chega à rotina dessas comunidades. Feito pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em parceria com a Renafro, o terreiro Ilê Omolu Oxum e a UniRio, o levantamento aponta que 76% dos terreiros participantes sofreram racismo religioso e 80% de seus integrantes foram vítimas diretas de agressões.

A perseguição não nasceu com as redes sociais. Rodrigo lembra de períodos em que terreiros recorriam à denominação de “centro espírita” para conseguir alvarás e conviviam com denúncias de vizinhos e ações de delegacias de costumes. O ambiente digital, porém, ampliou o alcance dessa violência.

“O retrocesso é que o ataque migrou para a internet, ganhou algoritmo e agora persegue o filho de santo no trabalho, na escola e na família, com plateia e sem rosto”, afirma o pesquisador.

A tolerância que impõe distância

Nem toda rejeição se apresenta como agressão aberta. Ela também aparece quando a Umbanda é aceita como manifestação cultural, mas incomoda ao fazer parte da vizinhança. Rodrigo cita três ideias recorrentes: reduzi-la a folclore, dividir práticas entre uma suposta “macumba do bem” e outra “do mal” e admitir o terreiro apenas enquanto permanecer distante.

“O terceiro é a tolerância de distância, aquela que respeita desde que seja longe da minha rua e sem tambor. Também escuto muito que Umbanda é coisa de gente pobre e sem estudo. Temos médicos, professores, advogados e pesquisadores no terreiro há décadas.”

A associação entre Exu e o diabo cristão aparece como outro exemplo de uma interpretação construída fora da própria tradição e repetida ao longo do tempo. Rodrigo explica que a confusão remonta ao século XIX, quando missionários utilizaram o nome de Èṣù para designar o diabo em traduções da Bíblia para o iorubá.

“Foi decisão de tradutor, não fato religioso, e essa escolha voltou para o Brasil e colou”, afirma. Na cosmologia iorubá, Èṣù está relacionado à comunicação e ao movimento, enquanto o diabo cristão pertence a outro sistema religioso.

Esse tipo de distorção está no que Rodrigo chama de “analfabetismo religioso”. “É a incapacidade de ler o fenômeno religioso, o do outro e o próprio.”

A Lei 10.639, de 2003, tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Passadas mais de duas décadas, o pesquisador considera que o conhecimento sobre Orixás e tradições religiosas afro-brasileiras ainda é limitado. “Quando falta informação, o preconceito ocupa o lugar. Analfabetismo religioso somado a racismo produz exatamente o que estamos vendo”, diz.

A disputa em torno dessas imagens também atravessa “Exu do Ouro: Consciência de riqueza”, lançado em nova edição pela Citadel. No livro, Rodrigo trata de ética, trabalho, dinheiro e prosperidade para apresentar Exu a partir dos fundamentos da própria tradição, e não das associações construídas sobre ela.

Os números mostram que o problema não termina quando um símbolo é explicado corretamente ou uma religião passa a ocupar museus e universidades. Ele aparece quando o praticante precisa esconder a fé no trabalho, quando o terreiro incomoda por estar na rua ao lado ou quando o tambor ainda é recebido como ameaça. Mais de duas décadas depois da Lei 10.639, conhecer as tradições afro-brasileiras continua sendo parte de uma discussão que ultrapassa o direito de acreditar e alcança o direito de existir publicamente sem que a própria religião se transforme em motivo de hostilidade.

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