terça-feira, 8 de setembro de 2026
SAÚDE DA MULHER

Perimenopausa: o que o corpo avisa antes dos fogachos e que muitas mulheres ignoram

Ginecologista explica que sono interrompido, falha de memória e irritação podem ser os primeiros sinais da fase que antecede a menopausa, mesmo com ciclo ainda regular

Luana Avelarpor em
Perimenopausa

A menstruação continua regular, mas alguma coisa mudou. O sono passa a ser interrompido no meio da madrugada, palavras conhecidas somem durante uma conversa e uma irritação difícil de explicar aparece em situações antes banais. Para mulheres a partir dos 40 anos, sintomas assim podem ser confundidos com estresse ou sobrecarga, embora também estejam entre as manifestações possíveis da perimenopausa.

A fase antecede a menopausa e pode começar antes dos fogachos e das alterações mais perceptíveis no ciclo. Nesse período, o estradiol não simplesmente diminui: pode subir e cair dentro de um mesmo ciclo. Ao mesmo tempo, ciclos com ovulação passam a se alternar com outros sem ovulação, criando uma instabilidade hormonal capaz de repercutir no sono, no humor, na memória e na resposta ao estresse.

“Durante muito tempo, a perimenopausa foi explicada como uma fase de falta de hormônio, mas o que muitas mulheres enfrentam primeiro é a imprevisibilidade do sinal hormonal e o cérebro percebe essa mudança antes mesmo do primeiro fogacho. A mulher ainda pode estar menstruando regularmente e, mesmo assim, perceber que o sono mudou, que a memória falha ou que já não se reconhece emocionalmente”, afirma a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta.

A redução das ovulações também diminui a progesterona. Segundo a especialista, essa mudança pode favorecer insônia, ansiedade, irritabilidade e dificuldade de concentração.

Nem tudo deve ser colocado na conta dos hormônios

A idade e o conjunto de sintomas ajudam na investigação, mas não bastam para explicar qualquer alteração. Problemas de tireoide, anemia, depressão, apneia do sono e efeitos de medicamentos também podem produzir queixas semelhantes e precisam ser considerados quando os sintomas persistem ou interferem na rotina.

A avaliação também não se resolve com uma única dosagem hormonal. “O diagnóstico não depende de um exame de sangue isolado. O FSH, hormônio que o cérebro usa para estimular os ovários, oscila ao longo da transição, assim como o próprio estradiol, por isso, um resultado normal não descarta a perimenopausa, e um valor alto sozinho não a confirma. A partir dos 45 anos, diante de sintomas e mudanças persistentes no ciclo, o diagnóstico costuma ser clínico, baseado no padrão da menstruação e na história da paciente, não em um número isolado de laboratório”, explica Fabiane.

A ginecologista compara a dosagem isolada de FSH a uma fotografia feita no meio de uma tempestade. “O exame registra aquele momento, mas não mostra toda a oscilação”, diz.

O tratamento depende do histórico e dos sintomas predominantes. Terapia hormonal pode ser indicada em alguns casos, mas não é a única alternativa. Sono, ansiedade, atividade física, mudanças de hábitos e estratégias não hormonais também podem fazer parte do cuidado.

A procura por avaliação não precisa esperar o primeiro fogacho. Alterações persistentes de memória, humor, ansiedade ou sono, sobretudo quando aparecem junto a mudanças menstruais, já merecem investigação. “Ela não está exagerando, não está inventando e não precisa esperar o primeiro fogacho para buscar ajuda. Há uma explicação biológica possível, há diagnóstico e há tratamento”, conclui Fabiane.

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