quarta-feira, 28 de outubro de 2026
SAÚDE

Sífilis bate recorde em Goiás com 12 mil casos em 2025

Homens concentram 62,3% das notificações, enquanto jovens de 20 a 29 anos representam 37,8% dos registros de sífilis no Estado

Micael Mourapor em
Sífilis
Na fase inicial da sífilis pode surgir uma ferida, geralmente única e indolor, nos órgãos genitais, ânus, boca ou em outras áreas de contato sexual Foto : SecondSide/Adobe Stock

Goiás registrou 12.012 notificações de sífilis adquirida em 2025, o maior número anual da série histórica disponível desde 2010, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES). O número representa uma média de quase 33 registros por dia e um aumento de 19,3% em relação a 2024, quando foram notificadas 10.070 ocorrências.

Os homens representam a maior parte dos registros, com 7.485 notificações, o equivalente a 62,3% do total. Entre as mulheres, foram contabilizados 4.482 casos. Em 45 notificações, o sexo do paciente não foi informado.

A faixa etária com maior número de registros foi a de 20 a 29 anos, com 4.544 notificações, o que corresponde a 37,8% do total. Na sequência aparecem os grupos de 30 a 39 anos, com 2.953 casos, e de 40 a 49 anos, com 1.725 registros.

Crescimento dos casos

Os dados mostram que as notificações voltaram a crescer após uma leve queda registrada em 2024. Em 2023, Goiás havia contabilizado 10.296 casos. No ano seguinte, foram 10.070, uma redução de 226 registros.

Já em 2025, o número saltou para 12.012 notificações, representando 1.942 casos a mais em apenas um ano.

O crescimento também chama atenção quando comparado ao início da década. Em 2020, foram registrados 4.445 casos. O número de notificações de 2025 é 170% maior do que o registrado naquele ano.

Redução de preservativos entre jovens 

Segundo a médica infectologista do Hospital Estadual de Doenças Tropicais (HDT), Christiane Kobal, o aumento das notificações é preocupante e mostra que a sífilis continua sendo um importante problema de saúde pública.

A especialista explica que o crescimento pode estar relacionado a uma combinação de fatores, entre eles a redução do uso de preservativos, principalmente entre pessoas mais jovens, além da falsa percepção de que as infecções sexualmente transmissíveis são doenças do passado ou de fácil resolução.

“O aumento das notificações de sífilis é preocupante e mostra que a infecção continua sendo um importante problema de saúde pública. Esse crescimento provavelmente resulta de uma combinação de fatores. Entre eles estão a redução do uso de preservativos, especialmente entre pessoas mais jovens, a percepção equivocada de que as infecções sexualmente transmissíveis são doenças do passado ou facilmente resolvidas e a existência de pessoas infectadas que não apresentam sintomas e, por isso, podem transmitir a bactéria sem saber.”

A infectologista também chama atenção para a percepção de que a sífilis seria uma infecção simples por possuir tratamento. “Muitos acreditam que é uma infecção de fácil tratamento e perderam o medo da infecção.”

Diante do aumento dos registros, a médica destaca a importância de reforçar as medidas de prevenção, ampliar a testagem e garantir o diagnóstico e o tratamento precoces. “Números tão elevados reforçam a necessidade de ampliar prevenção, diagnóstico precoce e tratamento.”

Jovens concentram maior número de notificações

Para Christiane Kobal, a concentração dos casos entre pessoas de 20 a 29 anos pode estar relacionada ao período da vida em que existe maior atividade sexual e, em alguns casos, maior número ou troca de parceiros.

“Adultos jovens estão em uma fase da vida em que geralmente existe maior atividade sexual e, muitas vezes, maior número ou troca de parceiros. Quando isso se associa ao uso inconsistente do preservativo e à baixa percepção do risco de adquirir uma IST, aumenta a possibilidade de transmissão.”

A especialista também explica que alguns grupos podem apresentar maior vulnerabilidade epidemiológica, mas reforça que a sífilis pode atingir qualquer pessoa sexualmente ativa “No caso dos homens, é importante também considerar que determinados grupos apresentam maior vulnerabilidade epidemiológica à sífilis, inclusive homens que fazem sexo com homens. Isso não significa que a infecção esteja restrita a qualquer grupo específico: qualquer pessoa sexualmente ativa pode adquirir sífilis.”

Segundo a infectologista, as estratégias de prevenção devem ser direcionadas à população de forma ampla e sem estigmatização. “Por isso, a prevenção deve ser ampla e sem estigmatização.”

Sífilis pode ser silenciosa e exige prevenção 

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum. Apesar de ter cura, a doença pode evoluir para quadros graves quando não diagnosticada e tratada corretamente. Em alguns casos, a infecção permanece sem sintomas, o que facilita a transmissão.

A infectologista Christiane Kobal, na fase inicial pode surgir uma ferida, geralmente única e indolor, nos órgãos genitais, ânus, boca ou em outras áreas de contato sexual. A lesão pode desaparecer mesmo sem tratamento, levando a pessoa a acreditar que está curada. Em fases posteriores, podem aparecer manchas pelo corpo, inclusive nas mãos e nos pés, febre, mal-estar e aumento dos gânglios. Depois, a doença pode permanecer em fase latente, sem sinais aparentes.

“Por isso, não devemos esperar aparecer sintomas para realizar o teste. Pessoas que tiveram relação sexual desprotegida, um novo parceiro, múltiplos parceiros ou contato com alguém diagnosticado com sífilis devem procurar uma unidade de saúde para avaliação e testagem.”

Sem tratamento, a bactéria pode permanecer no organismo por anos e atingir o sistema nervoso, os olhos, os ouvidos e o sistema cardiovascular. Na gestação, a infecção também pode ser transmitida para o bebê e provocar sífilis congênita, aborto, morte fetal, prematuridade e outras complicações.

A principal forma de prevenção é o uso de preservativo, aliado à testagem periódica e ao diagnóstico precoce. A médica ressalta que o preservativo reduz significativamente o risco, mas não oferece proteção absoluta, já que as lesões podem estar em áreas não cobertas.

“A prevenção deve ser combinada: uso consistente de preservativos, testagem periódica, diagnóstico precoce e tratamento adequado da pessoa infectada e de seus parceiros sexuais quando indicado.”

A especialista também reforça que o teste deve ser encarado como parte dos cuidados com a saúde sexual, sem vergonha ou estigma. Quanto mais cedo a doença for identificada e tratada, menor o risco de complicações e transmissão.

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