Número de analfabetos cai em Goiás, mas analfabetismo funcional persiste
Taxa de analfabetismo caiu para 3,5% no Estado, enquanto dificuldades de leitura, interpretação e resolução de problemas ainda atingem parcela da população
Goiás registrou avanços nos indicadores de alfabetização infantil e redução do analfabetismo entre a população adulta, mas o analfabetismo funcional permanece como um desafio educacional. Em 2025, a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu para 3,5% no Estado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE. No mesmo ano, 80% dos estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental foram considerados alfabetizados pelo Indicador Criança Alfabetizada (ICA), desenvolvido pelo Inep, a partir dos resultados das avaliações estaduais do Saego-Alfa.
O percentual de crianças alfabetizadas cresceu de 67% em 2023 para 73% em 2024 e 80% em 2025. Com o resultado, Goiás alcançou, com cinco anos de antecedência, a meta estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC) para 2030 e ficou em segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas do Ceará. O desempenho é relacionado ao Programa AlfaMais Goiás, desenvolvido em parceria com os 246 municípios goianos, com formação docente, material estruturado e incentivos do Prêmio Leia.
A PNAD Contínua de 2025 contabilizou 207 mil pessoas analfabetas em Goiás. A taxa de frequência escolar entre crianças de 6 a 14 anos chegou a 96,7%, enquanto entre jovens de 15 a 17 anos alcançou 92,3%. Entre a população de 15 a 29 anos, o percentual de jovens que não estudavam e não trabalhavam foi de 14,1%, abaixo da média nacional de 17,5% e o menor percentual registrado desde o início da série, em 2019.
Também houve redução do analfabetismo entre pessoas com 60 anos ou mais. A taxa caiu de 14% em 2024 para 12,3% em 2025, enquanto a proporção de pessoas com 25 anos ou mais que concluíram a educação básica passou de 31,1% para 32,5% no mesmo período.
Os dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2025 mostram ainda a dimensão do sistema educacional brasileiro, com cerca de 46 milhões de matrículas. As redes municipais concentram 50,1% das matrículas da educação básica, as estaduais, 29%, e a rede privada, 20,1%. O levantamento também registra desafios relacionados ao fluxo escolar. A distorção idade-série atinge 10% das matrículas no Ensino Fundamental e 15,9% no Ensino Médio, chegando a 22% entre os homens matriculados na 1ª série do Ensino Médio.
Apesar da redução do analfabetismo absoluto, o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) aponta que 29% da população brasileira de 15 a 64 anos permanece na condição de analfabeto funcional. O índice está estagnado desde 2009. O grupo reúne pessoas que conseguem reconhecer letras, palavras isoladas ou números familiares, mas apresentam dificuldades para compreender textos simples, interpretar gráficos, expressar ideias por escrito ou resolver problemas matemáticos do cotidiano.
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Crescimento de 14%
Entre jovens de 15 a 29 anos, a proporção de analfabetos funcionais aumentou de 14% em 2018 para 16% em 2024. Segundo o especialista em educação Carlos André, a redução do número de pessoas que não sabem ler e escrever não representa, necessariamente, a superação das dificuldades relacionadas ao uso da leitura e da escrita. Para Carlos André, o excesso de informações rasas e o uso das redes sociais acentuam as dificuldades de interpretação crítica, embora a origem do problema esteja relacionada a deficiências históricas do ensino básico.
Os dados do Inaf também mostram relação entre escolaridade e alfabetismo funcional. Entre as pessoas que estudaram até o 5º ano do Ensino Fundamental, 78% são classificadas como analfabetas funcionais. O percentual é de 43% entre aqueles que concluíram o Ensino Fundamental. Entre pessoas que chegaram ou concluíram o Ensino Médio, o índice é de 17%, enquanto entre aquelas com Ensino Superior completo chega a 12%.

Problema alcança trabalho, inclusão digital e aprendizagem
No mercado de trabalho, 27% dos trabalhadores brasileiros são classificados como analfabetos funcionais. Entre esse grupo, 49% recebem no máximo um salário mínimo. O levantamento também aponta dificuldades no ambiente digital: mais de 90% das pessoas classificadas como analfabetas funcionais apresentam desempenho baixo ou médio na realização de tarefas virtuais.
Pesquisas de Euzene Mendonça Barbosa Matos, Benedito de Sousa Matos e Francisco Regis Vieira Alves apontam que o analfabetismo funcional ocorre quando pessoas escolarizadas continuam apresentando dificuldades para buscar, avaliar e organizar informações, aprender, resolver problemas e tomar decisões de maneira autônoma.
Os pesquisadores relacionam a permanência do problema a quatro fatores: problemas nos métodos de alfabetização aplicados; deficiências na estrutura física e pedagógica dos sistemas públicos de ensino; ausência de uma política adequada de material didático; e falta de políticas educacionais voltadas ao alinhamento dos níveis de aprendizagem nas escolas.
Com base no conceito formal adotado pelo MEC e pelo Inep, os pesquisadores também destacam que a alfabetização envolve mais do que o domínio de rudimentos de leitura e de significados numéricos isolados. O domínio da língua escrita e dos conceitos matemáticos precisa permitir sua utilização em diferentes contextos sociais. A dificuldade de aplicar leitura e escrita de forma significativa após anos de escolarização pode influenciar salários, oportunidades profissionais e qualidade de vida.
Outra análise, dos pesquisadores Clarice Pires, Rosangela Miranda e Tiago Aparecido de Melo, diferencia o analfabetismo absoluto do funcional. O primeiro corresponde à condição de pessoas que não reconhecem letras por não terem tido acesso ou contato com a escola. O segundo envolve pessoas que sabem ler e escrever letras e números, mas não desenvolveram a capacidade de interpretar textos simples ou realizar operações matemáticas complexas.
Alfabetização e letramento
A análise também aborda a relação entre alfabetização e letramento. Com base nos referenciais de Magda Soares, os pesquisadores definem letramento como a condição de quem não apenas aprende a ler e escrever, mas utiliza essas habilidades em práticas sociais. O contato com diferentes gêneros textuais, como receitas, gráficos, tabelas e bulas de remédio, é apontado como parte desse processo.
Os pesquisadores também destacam que mudanças pedagógicas dependem das condições de trabalho dos professores. Com base em Ezequiel Teodoro da Silva, o estudo aponta investimentos econômicos, salários condignos, infraestrutura escolar e formação continuada como fatores necessários para a implementação de mudanças no cotidiano das salas de aula.
A Seduc-Go (Secretaria Estadual de Educação) informou que a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu de 5,9% em 2026 para 3,5% em 2025, abaixo da média nacional de 4,9%. Apesar da redução, a própria Secretaria ressalta que a queda precisa ser acompanhada pela continuidade da escolarização e pelo desenvolvimento de competências de leitura, interpretação e raciocínio matemático.
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