Incêndios já atingem mais de 117 mil hectares em parques de Goiás
Fogo avançou sobre áreas de Terra Ronca, Chapada dos Veadeiros e Serra Dourada, enquanto estiagem e baixa umidade ampliam o risco de novas ocorrências
Nas últimas semanas, em Goiás, algumas ocorrências de incêndios em vegetação chamaram atenção, em especial por atingirem Parques Estaduais e Nacionais. No Nordeste goiano, um incêndio atingiu aproximadamente 14,1 mil hectares na região da Área de Proteção Ambiental (APA) Serra Geral de Goiás. O fogo foi controlado após oito dias de combate.
Do total atingido, cerca de 11,3 mil hectares ficam no Parque Estadual de Terra Ronca (Peter) e outros 2,8 mil hectares correspondem à Reserva Extrativista Recanto das Araras de Terra Ronca. A área afetada representa aproximadamente 20,2% dos 70 mil hectares da APA.
Outro incêndio, na região da Chapada dos Veadeiros, consumiu mais de 1,2 mil hectares de vegetação. Na última terça-feira (25), os focos foram controlados, segundo o Corpo de Bombeiros. O fogo atingiu áreas do município de Colinas do Sul e o Morro da Baleia, entre Alto Paraíso de Goiás e a Vila de São Jorge. A suspeita é de que as chamas tenham sido provocadas por ação humana.
Em Colinas do Sul, um dos pontos atingidos pelo fogo foi o lixão municipal. A secretária de Meio Ambiente, Dayane Moreira, disse à TV Anhanguera que o local é utilizado para descarte de resíduos há mais de 30 anos e o terreno foi adquirido pela prefeitura para essa finalidade.
A área é cercada, mas ainda não conta com uma porteira para controlar o acesso. De acordo com Dayane, a administração municipal pretende instalar o equipamento e encerrar o uso do terreno como depósito de lixo. A proposta é passar a encaminhar os resíduos para um aterro licenciado, com previsão de fechamento do acesso ao local em até dez dias.
Mais recentemente, um incêndio destruiu mais de 1,4 mil hectares na região próxima do Parque Estadual da Serra Dourada, na cidade de Goiás. Ao todo, nessas três ocorrências, foram consumidas pelo fogo cerca de 16,7 mil hectares, algo que equivale a mais de 23 mil campos de futebol.
Segundo informações enviadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), um levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontou que, em 2026, já foram atingidos aproximadamente 117.712 hectares em Goiás. No mesmo período de 2025, eram cerca de 103.334 hectares, o que representa um aumento de aproximadamente 13,9% neste ano.
Estiagem de até 67 dias aumenta risco de queimadas
O gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, explica ao jornal O HOJE que o período de seca cria condições favoráveis para a propagação do fogo. A combinação de baixa umidade relativa do ar, acúmulo de vegetação seca, ventos fortes e altas temperaturas aumenta o risco de incêndios.
Dados do Cimehgo também apontam um período prolongado de estiagem em todas as regiões de Goiás. As regiões Norte e Oeste acumulam o maior período sem chuva, com 67 dias consecutivos de estiagem até 16 de agosto.
Na região Leste, são 66 dias sem precipitação, enquanto as regiões Central e Sul registram 64 dias. No Sudoeste, apesar de o período ser menor, já são 57 dias consecutivos sem chuva.
A combinação entre a estiagem prolongada e a baixa umidade relativa do ar aumenta o risco de incêndios e favorece a propagação das chamas. Segundo os órgãos de monitoramento, grande parte das queimadas registradas neste período é provocada pela ação humana, o que reforça a necessidade de prevenção e de cuidados para evitar novos focos de incêndio.
Em agosto de 2026, São Domingos aparece como o município com o maior número de focos de queimadas, com 50 registros. Na sequência, estão Flores de Goiás, com 27 ocorrências, e Vila Propício, com 18. Também figuram entre os municípios mais afetados Niquelândia, com 17 focos; Vila Boa, com 13; e Mineiros, que registrou 11 ocorrências no período.
Incêndios deixam impactos que podem durar anos no Cerrado
Os incêndios que avançam sobre o Cerrado deixam consequências que vão além da vegetação consumida pelas chamas. Segundo a bióloga e coordenadora do movimento nacional ODS Goiás, os efeitos imediatos incluem a morte de animais, destruição de ninhos, abrigos e áreas de alimentação, além da emissão de fumaça e gases de efeito estufa. Mesmo os animais que conseguem escapar podem morrer posteriormente por queimaduras, desidratação, falta de alimento ou perda do habitat.
A perda de matéria orgânica deixa a superfície do solo mais exposta e vulnerável à erosão. Com o retorno das chuvas, cinzas e sedimentos podem ser carregados para córregos, rios e nascentes, comprometendo a qualidade da água. “Algumas consequências podem permanecer por muitos anos, como a redução da biodiversidade, alteração da composição da vegetação, perda de fertilidade do solo, comprometimento de nascentes e dificuldade de regeneração”, explica Raquel.
Apesar de o Cerrado possuir espécies adaptadas ao fogo, a bióloga alerta que isso não significa que todo incêndio seja natural ou benéfico. Há diferença entre o fogo ecológico, que ocorre ou é manejado em condições adequadas, e os grandes incêndios descontrolados no auge da seca.
Quando as queimadas são intensas ou se repetem em intervalos curtos, até espécies adaptadas podem perder a capacidade de recuperação e reprodução.
Os efeitos atingem ainda organismos menos visíveis, como fungos, bactérias e invertebrados responsáveis pela decomposição da matéria orgânica e pela ciclagem de nutrientes. A redução de polinizadores e dispersores de sementes pode dificultar a regeneração da vegetação, enquanto a perda de determinadas espécies interfere nas relações ecológicas e pode isolar populações de animais.
Outro risco é o avanço de gramíneas invasoras, que secam rapidamente e ampliam a quantidade de material combustível disponível. Com isso, áreas já atingidas podem ficar mais suscetíveis a novos incêndios, formando um ciclo que dificulta a recuperação ambiental.
Para Raquel, os impactos não terminam com o controle das chamas. “É necessário monitoramento posterior, proteção contra novas queimadas e, quando indicado tecnicamente, ações de restauração ambiental”, comenta.
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