sábado, 29 de agosto de 2026
mosquito da dengue

Goiás registra avanço da dengue e alta de 388% nos casos de chikungunya em 2026

Estado contabilizou 83,8 mil casos confirmados de dengue no primeiro semestre, enquanto circulação do DENV-3 cresce e Goiânia amplia estratégias de controle do Aedes aegypti

Anna Salgadopor em
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Legenda: Goiás confirmou 83.889 casos de dengue no primeiro semestre de 2026, alta de 8,9% em relação ao mesmo período do ano anterior | Foto: Raul Santana/Fiocruz

Goiás registrou 83.889 casos confirmados de dengue no primeiro semestre de 2026, alta de 8,9% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 76.985 confirmações. No mesmo período, os casos de chikungunya aumentaram 388%, passando de 2.134 para 10.416 registros, segundo dados do Painel de Arboviroses da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). O cenário ocorre em meio a temperaturas elevadas, estiagem prolongada e mudanças na circulação dos sorotipos da dengue, com destaque para o avanço do DENV-3.

As condições climáticas registradas em Goiás em 2026 também interferem no ciclo do Aedes aegypti. A persistência do fenômeno El Niño no segundo semestre, estimada com probabilidade superior a 95% por órgãos oficiais como INPE, INMET, Funceme e Censipam, está associada a temperaturas elevadas e períodos prolongados de estiagem no Centro-Oeste.

Segundo o secretário de Estado da Saúde, Rasível Santos, Goiás registra há mais de três semanas temperaturas acima de 34°C e umidade relativa do ar abaixo de 20%. A nota técnica da SES-GO aponta que o ciclo de desenvolvimento do mosquito, normalmente de sete a dez dias, pode ser reduzido para cinco a sete dias em temperaturas elevadas.

Durante a estiagem, os criadouros também podem se concentrar dentro das residências. A subsecretária de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim, afirma que vasos sanitários pouco utilizados, caixas-d’água destampadas, bebedouros de animais e pratos de plantas estão entre os locais que podem favorecer a reprodução do mosquito.

A escassez de água também pode levar ao armazenamento doméstico. Conforme Rasível Santos, recipientes sem vedação adequada podem ampliar os focos do mosquito. Com o retorno das chuvas, esses criadouros podem se somar a recipientes externos, como lixo, pneus, calhas e lajes. Para Flúvia, a ocorrência de dengue em 2026 não ficou restrita ao período chuvoso. “Seja com chuva ou sem chuva, o que a gente viu este ano? Dengue o ano inteiro”, afirmou.

DENV-3 passa a liderar registros laboratoriais

A circulação dos sorotipos também é acompanhada pela vigilância genômica. Dados do banco oficial de Goiás mostram que o DENV-3 esteve praticamente ausente do estado entre 2011 e 2023, com apenas registros isolados em 2015, 2016 e 2017.

Em 2024, foram identificadas três amostras positivas. Em 2025, o número subiu para 192. Em 2026, chegaram a 4.127 os testes positivos para o DENV-3, acima dos 3.523 registros do DENV-2.

O epidemiologista e pesquisador Prof. Dr. João Bosco Siqueira Junior aponta a ausência de contato prévio com o DENV-3 entre parte da população como um dos fatores relacionados ao cenário. Crianças e jovens nascidos após 2010 estão entre os grupos que podem ter menor exposição anterior ao sorotipo.

Os dados epidemiológicos também mostram elevada ocorrência de dengue entre menores de 14 anos. Na Semana Epidemiológica 30 de 2026, foram registrados 27.203 casos notificados e 16.417 confirmados nessa faixa etária, correspondente a 17% das infecções do estado.

Em pessoas que já tiveram dengue por outros sorotipos, como DENV-1 ou DENV-2, uma nova infecção por DENV-3 pode apresentar maior risco de formas graves, em razão do fenômeno conhecido como facilitação dependente de anticorpos.

A partir da análise da circulação viral e da imunidade da população, o Ceti-Saúde UFG projeta que a entrada do DENV-3 em Goiânia poderia levar a picos de até 600 atendimentos diários por dengue, em níveis semelhantes aos registrados nas crises de 2022 e 2024.

Goiânia lidera os registros absolutos entre os municípios apresentados no banco epidemiológico estadual, com 1.793 casos e incidência de 119 casos por 100 mil habitantes. Aparecida de Goiânia aparece na sequência, com 1.091 casos e incidência de 196. Anápolis contabiliza 375 casos e incidência de 89, enquanto Mineiros registra 249 casos e incidência de 332. Rio Verde soma 240 casos e incidência de 99.

Na análise por incidência, Perolândia apresenta o maior índice, com 11 casos em uma população de 2.999 habitantes e taxa de 367 casos por 100 mil habitantes. Edéia registra 41 casos e incidência de 342; Mineiros, 332; Palestina de Goiás, 321; e Brazabrantes, 309.

Os municípios estão classificados na faixa vermelha, correspondente a incidências superiores a 300 casos por 100 mil habitantes, segundo os dados apresentados no banco estadual.

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Legenda: Goiânia iniciou a instalação de 15 mil armadilhas biológicas para o controle do Aedes aegypti
| Foto: Alex Malheiros

Capital amplia uso de armadilhas biológicas

Em Goiânia, a prefeitura iniciou em 25 de agosto a instalação de 15 mil armadilhas biológicas das tecnologias In2Care e Inestrap. A medida ocorre após uma alta acumulada de 19,4% nos casos de dengue em 2026 e de 609% nos registros de chikungunya na capital.

A instalação começou pelo Residencial Itaipu, na Região Sudoeste, e será ampliada para quatro regiões da cidade. A Inestrap está sendo priorizada na Região Leste e posteriormente será levada às regiões Oeste e Campinas-Centro. A previsão é distribuir 10 mil unidades nos próximos dois meses.

As armadilhas utilizam larvicidas e fungos biológicos para contaminar as fêmeas do mosquito. Após o contato, as fêmeas podem transportar o material para outros criadouros, onde ocorre a ação sobre as larvas.

Outra estratégia adotada em Goiás é o Método Wolbachia, que utiliza mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia. A técnica interfere no desenvolvimento dos vírus da dengue, zika e chikungunya no organismo do mosquito.

O método está em execução em Valparaíso, Luziânia, Aparecida de Goiânia, Trindade e Anápolis. Segundo Flúvia Amorim, o fumacê deve ser utilizado em situações específicas de surto localizado, enquanto métodos biológicos e biotecnológicos integram as estratégias de controle.

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Estado prepara plano de emergência

A SES-GO trabalha há quase um ano na estruturação de um Plano Estadual de Emergência e Contingência para 2026-2027. A proposta prevê a preparação dos 246 municípios para possíveis aumentos na demanda da rede de saúde.

Entre as medidas estão a preparação das unidades, o treinamento das equipes e a manutenção de estoques estratégicos de insumos de reidratação, como soro fisiológico e sais de reidratação oral.

A participação da população também integra as orientações da Secretaria. Segundo Rasível Santos, cerca de 80% dos criadouros do mosquito permanecem dentro das residências. A recomendação é realizar uma vistoria de cinco minutos nas casas a cada cinco dias, com atenção a recipientes que possam acumular água e caixas-d’água.

Modelos de inteligência artificial também são utilizados em pesquisas para antecipar o comportamento da dengue. Estudo publicado em agosto de 2026 no International Journal of Biometeorology avaliou modelos de aprendizado de máquina para prever taxas de morbidade por dengue nas 27 capitais brasileiras com até quatro semanas de antecedência.

Goiânia apresentou o maior desempenho entre as capitais analisadas com o algoritmo CatBoost, baseado em árvores de decisão e Boosting de Gradiente. O modelo alcançou R² de 0,9199 na capital.

 

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