sexta-feira, 25 de setembro de 2026
SAÚDE MENTAL

Jovens em redes afetadas por suicídio precisam de atenção específica, aponta estudo

Estudo com jovens de 13 a 22 anos aponta associação entre casos na rede de convivência e maior probabilidade de novas tentativas

Luana Avelarpor em
suicídio

Um episódio de suicídio não termina em quem esteve diretamente envolvido. Dentro de uma família, escola, universidade ou grupo de amigos, a ocorrência pode alterar a forma como outros jovens lidam com o próprio sofrimento. É esse efeito sobre a rede de convivência que um novo estudo, publicado na JAMA, procurou medir ao acompanhar cerca de 2.000 pessoas entre 13 e 22 anos durante dois anos.

Nenhum dos participantes tinha histórico de tentativa no início da pesquisa. Ao longo do acompanhamento, os cientistas registraram tanto o surgimento de primeiros episódios entre os jovens quanto tentativas ou mortes por suicídio ocorridas com pessoas próximas. Quem havia sido exposto a um caso em sua rede apresentou probabilidade quase três vezes maior de também tentar o suicídio. Mesmo depois de um ajuste estatístico para sintomas de depressão, o risco permaneceu 2,5 vezes superior.

O dado não autoriza uma leitura simples de causa e efeito. A própria pesquisa ressalta que o suicídio resulta da combinação de diferentes fatores e que parte deles pode se sobrepor. Ambientes familiares difíceis, condições socioeconômicas, bullying, uso de drogas, eventos traumáticos e outras vulnerabilidades podem aumentar simultaneamente a chance de um jovem conviver com uma tentativa na própria rede e de enfrentar sofrimento psíquico intenso.

O que o estudo acrescenta é a dimensão relacional do problema. Na adolescência e no início da vida adulta, referências próximas têm peso importante na forma como emoções e estratégias de enfrentamento são construídas. Quando um caso ocorre com alguém da família, um amigo ou uma figura com quem existe forte identificação, o impacto pode exigir atenção específica, sobretudo entre aqueles que já apresentam outras vulnerabilidades.

Depois do episódio, o cuidado precisa continuar

Durante muito tempo, o medo de um possível efeito de contágio levou famílias, escolas e instituições a evitar o assunto. Hoje, profissionais de saúde mental defendem outra abordagem: não transformar o suicídio em espetáculo nem expor detalhes, mas também não deixar o grupo afetado sozinho com o silêncio. A resposta inclui escuta, identificação de pessoas em maior sofrimento e encaminhamento quando necessário.

Esse conjunto de medidas é conhecido como posvenção e pode ser adotado após uma tentativa ou morte em escolas, universidades, empresas e outras comunidades. A ideia é reconhecer que o impacto não é igual para todos e que algumas pessoas podem precisar de acompanhamento mais próximo.

A pesquisa também encontrou associação entre redes presenciais de amizade mais amplas e menos sintomas depressivos. O dado não permite tratar amizade como proteção automática, mas reforça a importância dos vínculos presenciais e de espaços de conversa.

No Brasil, o tema ganha peso diante dos indicadores disponíveis. O Ministério da Saúde contabilizou mais de 15 mil mortes por suicídio em 2021. Em outro levantamento, publicado na The Lancet Regional Health – Americas, o suicídio aparece como a terceira principal causa de morte entre pessoas de 10 a 24 anos no continente. Embora os homens ainda concentrem a maior parte das mortes, o crescimento das taxas tem sido mais intenso entre mulheres jovens.

A principal consequência prática do novo estudo está em não tratar a exposição a uma tentativa ou morte como um detalhe. Um episódio pode repercutir de maneira diferente entre pessoas da mesma comunidade, e quem já atravessa depressão, bullying, violência, uso de drogas ou outras situações de vulnerabilidade pode demandar atenção adicional.

O cuidado precisa alcançar também quem ficou. Famílias, escolas e serviços de saúde podem reduzir o isolamento ao reconhecer que uma tentativa ou morte afeta toda uma rede.

Onde buscar ajuda: o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de risco imediato, é indicado procurar atendimento de urgência ou emergência.

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