terça-feira, 8 de setembro de 2026
SAÚDE E NUTRIÇÃO

Comer diante das telas faz você consumir mais do que imagina; entenda o motivo

Organismo leva até 20 minutos para sinalizar saciedade ao cérebro; comer com atenção dividida pode fazer a refeição terminar antes desse sinal

Luana Avelarpor em
Comer diante das telas faz você consumir mais do que imagina; entenda o motivo

A refeição deixou de ser, para muita gente, uma atividade feita sozinha. O prato divide espaço com mensagens, vídeos, reuniões, televisão ou uma sequência de tarefas no computador. O problema não está apenas no que se come diante das telas, mas no quanto essa atenção fragmentada modifica a própria experiência de comer.

Uma revisão de mais de 50 estudos realizados nos Estados Unidos e no Reino Unido encontrou associação entre distração durante as refeições e maior ingestão de alimentos, inclusive algumas horas depois. O trabalho, publicado no American Journal of Clinical Nutrition, reuniu pesquisas que analisaram diferentes formas de desatenção à mesa e seus efeitos sobre o comportamento alimentar.

Os resultados ajudam a explicar por que terminar uma refeição nem sempre significa perceber que ela terminou. A regulação do apetite depende de sinais físicos, mas também da atenção dedicada ao ato de comer. Quando a pessoa acompanha uma série, responde mensagens ou trabalha enquanto se alimenta, parte das informações sobre quantidade, ritmo e experiência da refeição pode passar despercebida.

Há também uma questão de tempo. A saciedade não aparece imediatamente após as primeiras garfadas. O organismo leva cerca de 15 a 20 minutos para que o estômago sinalize ao cérebro que está cheio e para que respostas hormonais relacionadas a esse processo sejam desencadeadas. Comer rapidamente enquanto a atenção está em outro estímulo pode fazer com que a refeição termine antes que esses sinais sejam percebidos com clareza.

Outro mecanismo estudado envolve a memória. Registrar mentalmente uma refeição participa da forma como a ingestão é percebida posteriormente. Se a lembrança do que foi consumido fica menos definida, pode haver maior propensão a procurar comida novamente ou a beliscar antes da refeição seguinte.

Isso não significa que assistir a um vídeo durante o almoço provoque, por si só, ganho de peso. A preocupação está na repetição do comportamento e na possibilidade de a alimentação se tornar cada vez mais automática. Ao longo do tempo, esse padrão pode dificultar o reconhecimento de fome e saciedade e favorecer maior consumo, sobretudo em pessoas predispostas ao ganho de peso.

Recuperar atenção durante as refeições não exige comer em silêncio absoluto nem criar regras rígidas. A mudança pode começar pela redução da sobreposição de tarefas. Interromper o trabalho por alguns minutos, deixar a televisão para depois ou evitar consultar o celular a cada notificação permite que a refeição volte a ocupar o centro da atenção.

Comer em ritmo menos acelerado e perceber quando a fome começa a diminuir também fazem parte dessa lógica. É o princípio da chamada alimentação com atenção plena, ou mindful eating, abordagem que busca reduzir respostas automáticas diante da comida.

Em uma rotina organizada para fazer várias coisas ao mesmo tempo, o almoço pode parecer um intervalo fácil de preencher com mais uma tela. As pesquisas sugerem justamente o contrário: prestar atenção ao prato também participa da maneira como o corpo reconhece que já comeu o suficiente.

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