terça-feira, 8 de setembro de 2026
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Violência digital em relacionamentos: veja por que a maioria não reconhece o problema

Controle de senhas, mensagens e localização ainda é naturalizado como parte da intimidade

Luana Avelarpor em
Violência digital em relacionamentos: veja por que a maioria não reconhece o problema

O problema não está em um casal conhecer a senha um do outro. Está no que acontece quando uma das partes deixa de poder dizer não. Acesso ao celular, localização compartilhada ou conhecimento sobre conversas podem fazer parte de acordos entre parceiros. A situação muda quando essas informações passam a ser exigidas como prova de confiança ou condição para evitar discussões.

Essa fronteira ainda é pouco reconhecida. Pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360 ouviu 2.004 brasileiros com mais de 16 anos e constatou que apenas 44% classificam o controle das redes sociais como uma forma de violência contra a mulher. Outros 41% consideram a prática problemática, mas não chegam a defini-la dessa maneira. Para 15%, trata-se de algo normal entre casais.

O contraste aparece dentro do próprio levantamento. Para 61% dos entrevistados, a violência contra a mulher é a forma de criminalidade mais grave do país, à frente do tráfico de drogas e do assalto à mão armada. Há, portanto, uma percepção ampla sobre a gravidade do problema, mas ela diminui quando a violência assume formas menos explícitas e se mistura à rotina de uma relação.

O celular ampliou as possibilidades dessa fiscalização. Conversas, fotografias, contatos, redes sociais e, em alguns casos, localização em tempo real ficam reunidos em um único aparelho. O acompanhamento que antes dependeria da presença física pode continuar ao longo do dia e transformar ações cotidianas, como receber uma mensagem ou seguir alguém, em motivo para cobranças.

Nem sempre existe uma proibição direta. A restrição também pode ser construída pela repetição. Uma discussão depois de determinada publicação, questionamentos sobre amizades ou a cobrança frequente por explicações podem levar a pessoa a modificar a própria rotina antes mesmo que o parceiro peça alguma coisa.

É quando ela passa a apagar conversas para evitar brigas, deixa de publicar uma fotografia, diminui o contato com alguém ou pensa duas vezes antes de aceitar um novo seguidor que a vigilância começa a produzir efeitos concretos. As escolhas passam a ser feitas considerando a reação do outro.

Intimidade não significa acesso obrigatório

Não existe uma regra universal sobre quanto um casal deve compartilhar. Algumas pessoas conhecem as senhas umas das outras por conveniência. Outras preferem manter conversas, aparelhos e contas privadas. Nenhuma das duas situações define, isoladamente, uma relação saudável ou abusiva.

O ponto de atenção está na possibilidade de recusar. Se não entregar o telefone gera acusações, desligar a localização provoca conflito ou manter uma conversa privada é tratado automaticamente como sinal de infidelidade, o acesso deixa de ser voluntário.

A questão também ajuda a entender por que comportamentos de vigilância podem permanecer naturalizados. Eles nem sempre chegam apresentados como imposição. Podem receber o nome de cuidado, preocupação ou ciúme e, por isso, parecer menos graves do que uma ameaça ou uma agressão física.

Os resultados do Datafolha mostram que essa dificuldade de identificação atravessa o país. No Sudeste, 45% reconheceram o controle digital como violência. Norte e Nordeste registraram 44%, o Sul, 42%, e o Centro-Oeste, 40%. A pouca diferença entre os percentuais indica que a tolerância a essas práticas não está concentrada em uma região específica.

Quando a cobrança passa a ditar escolhas

Nem todo conflito relacionado às redes sociais configura violência. Casais podem discordar sobre exposição pública, privacidade ou limites dentro da relação. O que altera a natureza dessas divergências é a imposição recorrente e o medo das consequências de contrariar o parceiro.

A violência psicológica pode ocorrer justamente nesse terreno menos visível. Não é necessário impedir fisicamente alguém de encontrar amigos para reduzir seus vínculos. Se determinadas amizades passam a provocar discussões constantes, cobranças ou punições emocionais, a própria pessoa pode começar a se afastar para diminuir a tensão.

Com isso, pequenas concessões deixam de ser episódios isolados e passam a organizar o cotidiano. O telefone continua nas mãos da mesma pessoa, mas ela já não decide da mesma maneira com quem conversa, o que publica ou quais relações mantém.

É essa dinâmica que os números ajudam a iluminar. Ao mesmo tempo em que a violência contra a mulher ocupa posição central entre as preocupações dos brasileiros, práticas capazes de restringir a vida dentro de uma relação ainda podem ser interpretadas como parte comum da intimidade.

A senha, por si só, diz pouco sobre um relacionamento. A diferença está em saber se ela foi compartilhada por escolha ou por medo das consequências de dizer não. É nesse ponto que intimidade e confiança podem ceder espaço à vigilância.

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