Após novela da Globo, Fernanda Pimenta retorna a Goiânia com espetáculo de palhaçaria
Com projeção nacional em “Coração Acelerado”, atriz apresenta “Malagueta na Labuta” e reafirma Goiás como território de criação
Há cinco anos, Fernanda Pimenta estreou “Malagueta na Labuta” em formato on-line, com apoio do Basileu França. Nesta terça-feira (15), às 19h30, ela retorna ao teatro da instituição depois de circular por oito cidades goianas, pelo Nordeste e passar por uma remontagem após residência com a palhaça catalã Pepa Plana. O retorno ocorre em outro momento da carreira: a atriz acaba de alcançar projeção nacional em “Coração Acelerado”, novela das sete da TV Globo.
O reencontro aproxima duas fases de uma mesma artista. Em entrevista ao jornal O HOJE, Fernanda diz que a passagem pela televisão ampliou o alcance de seu trabalho, mas também confirmou o peso da formação construída antes dela. “Entro em cena agora carregando a bagagem de um alcance nacional, mas, acima de tudo, o reconhecimento de que a engrenagem da televisão só foi possível devido à maturidade lapidada no teatro”, afirma.
Na peça, Malagueta é uma diarista chamada às pressas para uma faxina de emergência. Entre panos, baldes e objetos de limpeza, transforma o trabalho em jogo e humor. O riso também alcança as desigualdades de gênero e o serviço doméstico. “O jogo cênico, que antes lidava com o isolamento do formato online de 2021, agora transborda em um reencontro presencial vivo, onde o riso político sobre as desigualdades de gênero e o trabalho doméstico”, diz Fernanda. “Voltar ao Basileu é ressignificar toda a trajetória desta montagem. Será o reencontro de Malagueta com o público goiano após a novela”, completa.
Na palhaçaria, Fernanda resume sua relação com a criação na expressão “praticar minha loucura e minha divindade”. “A loucura é a liberdade de desobedecer às normas sociais impostas aos corpos femininos, permitindo-se falhar no palco e na vida”, afirma. “A divindade habita na conexão sagrada que o riso estabelece com o público; rir de si mesma e criar um espaço ritualístico onde o fracasso vira celebração e emancipação política”, acrescenta. Para a atriz, essa dimensão também atravessa a forma como compreende o próprio ofício. “E é na arte onde eu encontro um sentido para minha vida: é minha parte sagrada esse meu eu artista”, diz.
Foi dessa formação apoiada no corpo, no improviso e na relação com a plateia que Fernanda partiu para trabalhar diante das câmeras. Em “Coração Acelerado”, interpretou Irene e também Amélie. A mudança exigiu outra medida de atuação. “O teatro e a palhaçaria exigem uma projeção física e vocal expansiva para alcançar a última fileira. Diante das câmeras, o desafio foi recalibrar a escala da atuação, internalizando a energia sem perder a expressividade”, explica. “Na TV, a lente captura o milímetro do pensamento”, acrescenta.
A estreia televisiva veio depois de mais de duas décadas nas artes cênicas. Mestre em Artes da Cena pela Unicamp e doutora em Artes Cênicas pela UnB, Fernanda participou de mais de 20 espetáculos e de mais de dez produções cinematográficas, além de atuar como diretora, dramaturga e produtora. Grande parte desse percurso foi construída em Goiás.
“Goiás está impregnado na espinha dorsal de minha atuação. Descobri as artes em Goiás. Criei muito nessa terra”, diz. Essa base também chegou à televisão. “O Brasil conheceu na novela uma atriz que traz a comicidade, a cultura popular e a força da identidade do Centro-Oeste construída em anos de estrada”.
A experiência também reforçou sua leitura sobre a concentração do mercado audiovisual. “Essa trajetória de duas décadas evidencia o quanto o mercado audiovisual brasileiro ainda é concentrado e excludente em relação às artes de outros estados”, afirma. Para artistas fora do eixo Rio-São Paulo, ela cita a insistência, as políticas públicas de fomento e a autogestão como caminhos para manter os trabalhos em circulação.
Chegar à novela sem ter estruturado a carreira em função do mercado carioca tornou essa percepção ainda mais concreta. “Chegar à novela das sete sem ter buscado ativamente o mercado carioca prova que existe uma produção artística de altíssimo nível técnico e acadêmico pulsando no interior do país, que não precisa validar sua existência no Sudeste para ser legítima”, afirma. “Precisamos criar mais arte autoral sobre nossas histórias”, completa.
Quando fala sobre o que gostaria que o público nacional descobrisse em Goiás, Fernanda amplia o olhar para além da própria carreira. Cita o teatro de bonecos, o circo, o cinema e a palhaçaria. “A arte goiana é sofisticada, politizada, possui grupos teatrais com décadas de pesquisa contínua e uma rede de criadores independentes que dialogam diretamente com circuitos internacionais, produzindo cultura autoral vibrante de forma permanente”, diz.
A televisão, nesse cenário, passa a conviver com linguagens que já faziam parte de seu trabalho. “Experimentar a engrenagem industrial da televisão trouxe a percepção de que a TV pode ser um espaço de expansão de alcance e de diálogo de massa, mas sem nunca abrir mão da soberania artística”, afirma. Fernanda pretende manter essa experiência ao lado da direção, da escrita e da circulação independente de seus espetáculos de teatro e circo.
Na terça-feira, ela volta ao Basileu França com uma Malagueta amadurecida por cinco anos de circulação e atravessada também pela experiência recente na televisão. Após a apresentação, Fernanda participa de um bate-papo com o público, em um reencontro com a cena goiana que marcou sua formação e segue presente nas escolhas artísticas que pretende levar adiante.
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