segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Investimentos

Selic a 15% eleva risco de crédito e exige nova postura na renda fixa

Especialista alerta que juros altos asfixiam o caixa das empresas e aumentam os pedidos de recuperação judicial

João César Almeidapor em
Selic a 15% eleva risco de crédito e exige nova postura na renda fixa
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A atração pelos retornos elevados da renda fixa em tempos de juros altos esconde um risco que costuma passar despercebido por muitos investidores: o risco de crédito. Embora o cenário atual ofereça taxas aparentemente seguras, o aumento no número de empresas que recorrem à recuperação judicial alerta para a diferença entre o rendimento oferecido na prateleira e o dinheiro que efetivamente chegará ao bolso do aplicador.

Para Gabriel Magalhães, estrategista, o ambiente que torna a renda fixa lucrativa é o mesmo que asfixia financeiramente as empresas endividadas. “Uma Selic a 15% talvez não signifique 15% para o investidor”, alerta.

Segundo o estrategista, quando os juros sobem e os negócios enfrentam dificuldades, um evento de crédito pode fazer com que uma carteira projetada para render 15% entregue 12% ou 13%.

O especialista explica que a recuperação judicial não é sinônimo de falência, mas um instrumento legal para que a empresa tente renegociar suas obrigações e continue funcionando. Para quem investiu em títulos de dívida corporativa daquela companhia, o processo não resulta necessariamente na perda total do capital, mas exige flexibilidade. A renegociação costuma implicar mudanças de prazo, de taxas e até do valor final a receber, sempre mediante a aprovação dos credores em assembleia.

O episódio, no entanto, altera radicalmente a percepção de risco do investimento. Um ativo comprado sob a premissa de ser conservador passa a exigir uma gestão de estresse. “Renda fixa não significa garantia de 100%. Em um ativo de boa qualidade, a probabilidade de um problema pode ser pequena, mas ela existe”, afirma Magalhães. Como os credores precisam fazer concessões para que a companhia sobreviva e quite o restante da dívida, o investidor deve estar preparado para abrir mão de parte das condições originais.

A melhor defesa contra esses imprevistos é a diversificação. O estrategista ressalta que um único problema de crédito jamais deveria ser capaz de arruinar um portfólio. A estratégia correta consiste em adequar o tamanho de cada posição financeira ao risco real do ativo. Com os recursos diluídos, quando uma empresa específica enfrenta dificuldades, o baque representa apenas uma parcela administrável do patrimônio e não compromete a saúde financeira do investidor.

Apesar dos alertas, o cenário atual não exige o abandono da renda fixa. Os juros elevados continuam oferecendo margens relevantes de ganho, mas demandam uma análise muito mais rigorosa da qualidade das empresas emissoras dos títulos. O erro mais comum é olhar apenas para a promessa de taxa nominal elevada, ignorando a fragilidade de quem está pegando o dinheiro emprestado. “A questão central é construir uma carteira preparada também para quando alguma coisa não sair como previsto”, conclui o especialista.

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