Alegria de Daniel acaba: Goiás foi à falência e não voltou
É impossível que o governador, reeleito com discurso de modernidade, esteja satisfeito com um Estado que há 300 anos vive do que tira do solo e mantém 30 vezes mais programas sociais que na época em que seu pai administrou
O HOJE veiculou, na edição desta quarta-feira (7), uma notícia que serviria de peça publicitária, até por ter sido escrita por um dos melhores analistas econômicos da América Latina, Lauro Veiga Filho. No 4º bimestre deste ano, a receita do Estado subiu 11,8%, de R$ 7,475 bilhões para R$ 8,357 bilhões apenas em julho e agosto. Repetindo: em somente dois meses, aumentou R$ 882,166 milhões. Mas a alegria acaba por aí, é curtíssima, como a de quem vence nas urnas para um Executivo falido, caso do governador Daniel Vilela (MDB). Reeleito com a imagem de gestor moderno, Vilela está com a faca e o queijo na mão, ela para cortar os gastos, ele para ser dividido entre 167 mil servidores públicos. O tempo de festa acabou, a comemoração já era, terá até dia 25 de outubro para palanques de Flávio Bolsonaro, depois é só dizer não para companheiros numa jornada 7×0, maior que a goleada da Alemanha.
As grandes categorias, como segurança pública, Educação e saúde, já conseguiram ou estão em vias de negociar aumento – aumento do verbo aumentar, não corrigir a inflação. Caso Daniel continue se submetendo aos gritos de manifestantes, o Estado vai se manter no moto-perpétuo de esfolar o contribuinte, receber repasses do governo federal e pagar a folha. No mês seguinte, a mesma ladainha e assim indefinidamente. A dívida de R$ 25 bilhões voltou a ser paga, porém, em doses homeopáticas inferiores a 1 milésimo por mês. Ou seja, nunca será quitada.
A Previdência é o retrato do Estado que foi à falência e decidiu não voltar, pois, segundo a secretária de Economia, Renata Lacerda, o governo sequer sabe o tamanho do monstro ou como o combater. “Não existe, no momento, uma medida específica em execução voltada exclusivamente ao problema”, disse Lacerda em audiência na Comissão de Finanças da Assembleia no fim de abril. Como desde então nada se fez no governo além de campanha eleitoral, é óbvio que nenhuma providência foi tomada.
Com muita rapidez o governo aderiu ao presidenciável do PL
É de tal modo gigantesco o buraco do atraso em que Goiás se meteu que com muita rapidez o governo e seus aliados aderiram ao presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro. O temor é que os recursos federais, que no governo do pai de Flávio jorraram sem parar nos cofres estaduais, sequer pinguem no próximo ano, não porque a União vai perseguir, mas por culpa do Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino está em cima das emendas que os parlamentares enviam a suas bases, o que pode ser traduzido em secura. Por isso, nada como ser aliado de quem está na iminência de se eleger presidente da República, sem importarem os xingamentos recentes.
Outra medida impopular que aguarda a nova posse de Daniel é a redução dos programas sociais. Ele e seu antecessor e padrinho, Ronaldo Caiado, foram reeleitos a reboque de 30 projetos populistas, soma na qual não estão os do governo federal, que manda o dinheiro para o Estado pagar. Em vez de incentivar startups para o estudante sonhar em ter uma, há em Goiás uma torrencial chuva de doações de uniformes, dinheiro mensalmente, mochilas, tênis e umas geringonças travestidas de iPad. O que dá um gás para o adolescente frequentar a escola é ela lhe garantir futuro, não um troco para pagar Uber em dias chuvosos.
Pai de Daniel, Maguito ficou conhecido como “pai dos pobres”
O pai de Daniel, Maguito Vilela, ficou conhecido como “pai dos pobres”, alcançou aprovação parecida com as de Caiado, na faixa dos 90%, com somente um programa social, o de alimentos. Agora, Daniel repousa sobre 30 vezes mais doações, o que emperra a industrialização e ideias semelhantes. Por isso, Goiás vive atolado no mesmo binômio dos bandeirantes quando aqui chegaram, há exatamente 300 anos, mineração-plantação. O palavrório do governo ainda é a atração de investimentos, claro ilusionismo que suplanta a vocação dos goianos para empreender. Em vez de esperar alguém que virá para dar emprego, poderia haver 30 programas de crer em quem já mora aqui.
Nas transições de grupos políticos, há o refresco de uns dois anos entre o que o novo gestor herda e os seus planos postos em prática. A Daniel não é dada essa folga, pois sua gestão é de continuidade. Jair Bolsonaro ficou mais de dois anos sem o Bolsa Família de Lula, até lançar seu próprio cartão. O mesmo ocorreu no âmbito local, com Caiado, que acabou com a Renda Cidadã e ficou bons 30 meses, em alguns casos, sem a herança de Marconi Perillo. Para resolver o que realmente vai priorizar, Daniel vai ter de romper com a herança de demagogia. Ou mantê-la, por ser o mais eficiente mecanismo de comprar voto com dinheiro público.
Daniel precisa esquecer que pilotou uma coligação com 12 partidos

Outra armadilha é a do concurso público. Mal saiu às urnas, Daniel já enfiou gente na folha, no caso, para a Polícia Científica. E os cursinhos particulares permanecem lotados de alunos aguardando provas em prometidos editais. Ou seja, o atoleiro não terá fim. Outro governador que chegou ao cargo mais jovem que Daniel, Marconi, nomeou excelentes secretários de Administração, José Walter Vazquez, e de Planejamento, Giuseppe Vecci, o 1º indicado pelo PSDB nacional, o outro recrutado por aqui mesmo. O resultado foram duas ótimas gestões, que deram a Marconi quatro mandatos de governador, um espólio que se esgotou a tal ponto que já perdeu três seguidas, inclusive a mais humilhante, a deste ano, ficando atrás do PT, como bem lembrou Caiado com um sorriso de canto de boca durante entrevista pós-eleição.
Em vez de inchar a folha, Daniel precisa arrumar um Vazquez para encontrar mecanismos legais e administrativos de tirar alguns milhares, mexendo inclusive nos efetivos. Se soltar a faca que corta os gastos, quem vai levar facada nas costas é o governador, pois está sendo aguardado por mais de 500 companheiros derrotados nas eleições, além dos 50 que ganharam. O que todos eles querem: cargos. Os honestos, para se bancar com salário; os pilantras, para roubar e quitar com os agiotas. São 550 que disputaram para deputado e senador e estão pendurados em financiamentos, empréstimos com amigos e parentes, devido às loucuras no período eleitoral. Se Daniel ceder ao primeiro, seu governo será igual aos de Alcides Rodrigues e José Eliton, que sucederam Marconi, e Henrique Santillo e Maguito, que substituíram Iris Rezende. E no time de quem está Ronaldo Caiado? No de governantes fortes, como Iris e Marconi. Se o sucessor não pegar firme, vira fracassor.
Daniel precisa esquecer que pilotou uma coligação com 12 partidos
Para isso, Daniel precisa esquecer que pilotou uma coligação com 12 partidos e 550 companheiros de campanha, inclusive alguns que estavam em siglas oficialmente ligadas a Marconi e Wilder Morais (PL). Como não pode mais se candidatar a governador, não precisa ser tão demagogo. Como tem uma base sólida de 30 deputados estaduais, não precisa comprar votos para fazer o presidente da Assembleia. Como tem 220 prefeitos, não precisa inflar a folha de pagamento pendurando ex-prefeitos, ex-deputados e seus respectivos familiares. Como é rico, bilionário após a morte do pai, não precisa se preocupar com o que fazer depois do mandato. Como é jovem, ainda tem muito tempo para se arrepender se for demagogo e ver que colaborou com a falência do futuro de seu Estado. (Especial para O HOJE)
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