Daniel é de Caiado o Maguito de Iris e o Alcides de Marconi?
Governadores nas décadas passadas foram usados por seus padrinhos como trampolins para a volta ao poder, com resultados bem distintos, pois um atropelou a reeleição do afilhado e perdeu feio mesmo sendo favorito, o outro teve dois mandatos antes de três derrotas seguidas
O ex-presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) confirma que não pendurou as chuteiras e anuncia a volta ao jogo em 2030. O enredo se parece com o dos líderes de fases anteriores, Iris Rezende e Marconi Perillo (PSDB). Nos três casos, há semelhanças e diferenças, porém, a intenção era a mesma: os padrinhos saíram de cena para tentar outros cargos, tendo na cabeça unicamente a vontade de voltar para a cadeira que deixaram aos afilhados. Em um caso, o de Marconi, deu certo; em outro, o de Iris, deu zebra; o de Caiado ainda está em curso.
Os afilhados de Iris e Marconi foram respectivamente Maguito Vilela e Alcides Rodrigues; o de Caiado é Daniel Vilela, filho de Maguito. A relação de Caiado com Daniel se assemelha bastante à de Iris com Maguito. Havia dezenas querendo, mas Caiado escolheu sozinho Daniel para ser seu vice em 2022, o mesmo que Iris havia feito com Maguito em 1990. Alcides, o Cidinho, chegou a companheiro de chapa de Marconi em 1998 por ter sido o único corajoso a embarcar num caiaque prestes a afundar. O próprio Caiado foi tido como favorito para vice de Cidinho, mas não topou. Os três afilhados ganharam eleição, porém, as coincidências morrem aí.
Em 1994, o pai de Daniel foi eleito com bastante dificuldade, depois de passar a campanha inteira entre o 2º e o 3º lugar. O líder nos levantamentos era Caiado, que no fim ficou fora do 2º, que teve Lúcia Vânia e Maguito. Em 2006, Alcides também começou mal, bem mal, atrás dos então líderes Demóstenes Torres e Maguito. Com a força de Marconi, Cidinho foi para o 2º turno com Maguito e se consagrou. Neste ano, Daniel fez um passeio, reeleito em 1º turno contra Marconi e o senador Wilder Morais (PL).
Propósito nunca foi outro além da volta ao poder
Outras diferenças ocorreram no resultado dessas articulações, pois o propósito dos três líderes nunca foi outro além da volta ao poder. O trio em alguma hora sonhou com a Presidência da República, Iris em 1989 (perdeu a convenção do PMDB para Ulysses Guimarães e Waldir Pires), Marconi em 2006 (era melhor que Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula) e Caiado neste ano (ao contrário dos demais, foi candidato – e pela 2ª vez, 2,18% em 2026 e 0,72% em 1989). Não obtendo sucesso nacional, voltaram para o âmbito regional. Marconi e Iris conseguiram retomar o Governo do Estado, Caiado vai tentar em 2030.
Nessa tentativa de volta, houve atropelos. Alcides e Marconi, que pareciam unha e unheiro, ficaram de boa por pouco tempo, romperam estrepitosamente, sem o governador demitir os indicados do padrinho, mas lançando Vanderlan Cardoso como seu candidato em 2010. Marconi ganhou de Iris e obteve a 3º temporada no Esmeraldairbnb. Iris e Maguito também se desentenderam, mas continuaram no mesmo partido e o rompimento ficou nos bastidores. Iris dominava o diretório do PMDB, empurrando para fora da disputa um Maguito com mais de 80% de aprovação popular. Claro que ia acabar mal: Iris, favoritíssimo de chegar a 90% nas pesquisas, perdeu para um Marconi com 34 anos de idade. Parece que foi praga de Maguito sobre Iris: depois de atropelar o sucessor, Iris perdeu três para governador, em 1998, 2010 e 2014.
O caminho de Caiado tem essas ramificações, romper com Daniel em público, como Marconi e Cidinho; fingir que está tudo bem, reprimindo a sede de esmagar o colega, como Maguito e Iris; construir trajetória inédita, que seria a manutenção da amizade, circunstância mais difícil que Elon Musk virar uber em Pretória. Daniel ainda é uma incógnita; no poder, mais esfinge ainda. Não se sabe como vai reagir quando/se Caiado fizer com ele como Iris fez com Maguito e Marconi, com Alcides: simplesmente se esqueceram de quem era o governador de direito e quiseram sê-lo de fato.
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Aguarda-se a atitude de Caiado e Daniel
Iris e Marconi nomearam quase toda a equipe de Maguito e Alcides. Aguarda-se a atitude de Caiado e Daniel para se descobrir se o 1º vai querer mandar e se o 2º vai aceitar. São três décadas diferentes, só que em política os exemplos se repetem há milênios. Na época de Iris governador, ainda não havia a Lei de Responsabilidade Fiscal, que FHC fez o Congresso aprovar no ano 2000. Então, o que existia era o óbvio, os fora da lei e sua irresponsabilidade fiscal. Maguito herdou um Estado moído, situação que continua. Marconi pegou até adiantamento de impostos de contribuintes grandes. Como Daniel ainda não rompeu com Caiado, sabe-se pouco além do que rezam as prestações de contas, que afinal de contas geralmente não prestam.
Se a aliança entre Daniel e Caiado durar, um dos motivos é o ineditismo. Pela primeira vez, os interesses na próxima eleição se encaixam. Haveria conflito como no caso de Maguito, que poderia ser candidato, já que a reeleição havia sido aprovada no ano anterior. Em 2030, Daniel não poderá concorrer a governador, que passa a ser o objeto de desejo de Ronaldo. Gracinha Caiado, senadora eleita, não parece interessada em cargo no Executivo. Então, é até natural que o casal fique com Daniel para senador, caso ele ajude Caiado a ter o 3º mandato de governador.
Etarismo não será problema. Nesta semana em que foi reeleito, Lula completou 81 anos, mesma idade que Caiado terá no início da campanha em 2030. Como aniversaria em setembro, já estará com 81 no dia da votação, mas o presidente da República completará o Lula 4 com 85. Outra facilidade para Caiado é que seus companheiros de partido estão saindo mais fracos do que entraram: Vanderlan Cardoso perdeu três seguidas (duas de prefeito de Goiânia e a reeleição de senador), Vilmar Rocha foi derrotado também três vezes seguidas (duas de senador, uma delas para Caiado, em 2014; e uma de suplente – de Marconi). Na equipe de Caiado, com cerca de 120 auxiliares do 1º escalão em 7 anos e meio, ninguém se destacou eleitoralmente. Até porque o porte de sua figura impede malabarismos de aparição dos comandados. (Especial para O HOJE)
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