Alta de feminicídios desafia próxima gestão de Vilela em Goiás
Estado registrou 47 mortes no primeiro semestre, alta de 113%; medidas de proteção e monitoramento tentam impedir que violência doméstica termine em feminicídio
O termo “feminicídio” ganhou força nas buscas do Google nas últimas 24 horas, entre os dias 6 e 7 de outubro. No Brasil, o interesse chegou ao índice máximo de 100 e teve média de 59,8 no período. Na semana anterior, a média havia sido de 14,2. Em Goiás, também houve pico de 100, embora o interesse tenha aparecido em apenas quatro dos 90 intervalos analisados.
O Google Trends não informa a quantidade absoluta de pesquisas. O índice, que varia de 0 a 100, mostra a intensidade relativa do interesse por determinado termo. O movimento, portanto, não significa que houve aumento de feminicídios no mesmo período. Mas serve como ponto de partida para olhar para um problema que tem números concretos e preocupa as autoridades.
Em Goiás, 47 mulheres foram vítimas de feminicídio entre janeiro e junho de 2026, contra 22 no mesmo período de 2025. A alta foi de 113%. No primeiro semestre, também foram registradas 108 tentativas de feminicídio. O cenário coloca em discussão não apenas a quantidade de mortes, mas a capacidade da rede pública de identificar situações de risco e impedir que episódios de violência cheguem ao extremo.
Buscas mostram interesse; números mostram o problema
A diferença entre os índices de Goiás e do Brasil também precisa ser interpretada com cautela. Enquanto a média nacional foi de 59,8, Goiás teve média aproximada de 3,3. Isso ocorre porque o Google calcula o interesse proporcionalmente dentro de cada região.
O dado mais relevante está nos registros oficiais. O feminicídio em Goiás já vinha apresentando crescimento antes de 2026. Dados do Plano Estadual de Segurança Pública para o Combate à Violência contra a Mulher apontam que os casos consumados passaram de 44, em 2020, para 59, em 2025. As tentativas também subiram de 129 para 213 no mesmo intervalo.
O aumento reforça a necessidade de agir antes que a violência doméstica evolua para uma morte. Em muitos casos, o feminicídio é precedido por ameaças, agressões, perseguições ou outros episódios que já chegaram ao conhecimento das autoridades. Por isso, a prevenção depende não apenas de registrar a ocorrência, mas de acompanhar o risco depois que ele é identificado.
Proteção precisa continuar depois da medida
No primeiro semestre deste ano, mais de 23 mil medidas protetivas de urgência foram concedidas em Goiás. Segundo o Tribunal de Justiça de Goiás, aproximadamente 72% das primeiras decisões ocorreram no mesmo dia e 94% em até 24 horas.
A rapidez na concessão é importante, mas não encerra o problema. A proteção precisa ser acompanhada e fiscalizada para evitar que o agressor volte a ameaçar ou se aproxime da vítima. Um caso registrado em Aparecida de Goiânia mostra a dimensão desse desafio.
A técnica de enfermagem Aquira Pereira dos Santos, de 36 anos, morreu em setembro após ser baleada dentro de casa. O marido foi preso como suspeito e alegou que o disparo teria sido acidental. Antes da morte, Aquira já havia relatado violência doméstica e solicitado proteção.
Entre as medidas recentes adotadas pelo Estado está o monitoramento eletrônico de agressores. A legislação prevê que homens submetidos ao uso de tornozeleira em casos de violência doméstica possam ser responsabilizados pelos custos do equipamento. A vítima, por sua vez, deve receber gratuitamente dispositivos de proteção, como ferramentas de alerta.
O objetivo é acompanhar o cumprimento das medidas protetivas e identificar aproximações ou violações das restrições impostas pela Justiça. O mecanismo, porém, depende de fiscalização e de uma resposta rápida quando o equipamento aponta uma possível violação.
Desafio do Estado é prevenir feminicídios
A Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds) afirma que mantém ações voltadas ao acolhimento, proteção, prevenção e autonomia das mulheres. O programa Goiás Por Elas, segundo a pasta, já beneficiou mais de 11 mil mulheres desde o ano de 2023.
Outra frente é o Centro de Referência Estadual da Igualdade (Crei), que oferece atendimento psicológico e social e orientação jurídica. De 2019 ao primeiro semestre de 2026, foram contabilizados 3.775 atendimentos. A secretaria também afirma encaminhar mulheres em situação de violência para vagas reservadas em contratações de serviços terceirizados.
Em 2026, o programa Goiás Pela Vida das Mulheres está sendo desenvolvido em 34 municípios do Entorno do Distrito Federal e do Sudoeste Goiano, regiões escolhidas por apresentarem índices elevados de violência. Já o Pacto Goiano pelo Fim da Violência contra as Mulheres alcançou 153 municípios, segundo a Seds.
A secretaria também destaca a expansão dos grupos reflexivos destinados a homens autores de violência. Goiás passou de cinco grupos em 2020 para 47 atualmente. A proposta é trabalhar a responsabilização e mudança de comportamento para reduzir a reincidência.
Além dessas ações, o Estado mantém o Protocolo Todos Por Elas, a campanha Feminicídio Zero e a Rede Estadual de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. A existência de uma rede mais ampla, contudo, não elimina o desafio de saber se ela consegue alcançar os casos de maior risco antes que a violência se torne letal.
Governo terá desafio de agir antes da morte
Uma das propostas em discussão na Assembleia Legislativa de Goiás é a criação do Sisfem-GO, sistema de monitoramento e notificação de feminicídios e tentativas. A iniciativa pretende reunir informações de diferentes órgãos e permitir uma análise territorial dos casos, facilitando a identificação de padrões e situações de risco.
A integração de dados é apontada como uma das necessidades para aprimorar a prevenção. Informações sobre segurança pública, Justiça, saúde e assistência social podem ajudar a identificar mulheres que já sofreram violência e apresentam maior possibilidade de sofrer uma nova agressão.
O desafio também envolve acompanhar os agressores, fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas, ampliar o atendimento especializado e garantir que a mulher tenha acesso à rede de proteção. A tecnologia, como as tornozeleiras eletrônicas, pode ser uma ferramenta nesse processo, mas não substitui a atuação integrada dos órgãos responsáveis.
O tema estará entre os desafios do próximo ciclo de governo de Goiás. Daniel Vilela foi reeleito governador no primeiro turno das eleições de 2026.
Leia mais aqui:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.