OMS desaconselha medicamentos contra obesidade em menores de 10 anos
Enquanto a organização recomenda mudanças no estilo de vida para crianças, Brasil avalia incorporar terapias ao SUS e Goiás registra 43,9 mil casos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou as primeiras diretrizes globais para o enfrentamento da obesidade em crianças e adolescentes e desaconselhou o uso de medicamentos antiobesidade, injeções para emagrecimento e cirurgias bariátricas em menores de 10 anos. No Brasil, enquanto o Ministério da Saúde avalia a incorporação de terapias baseadas em GLP-1 ao Sistema Único de Saúde (SUS), os preços das chamadas canetas emagrecedoras caíram cerca de 70% nas farmácias em menos de um ano.
Em Goiás, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) apontam 43.900 crianças de 0 a 10 anos com obesidade, e uma lei estadual passou a determinar a avaliação antropométrica anual ou medição do Índice de Massa Corporal (IMC) de alunos da rede pública estadual.
Diretrizes da OMS
No primeiro guia global sobre obesidade infantil e adolescente, a OMS desaconselha formalmente o uso de remédios antiobesidade, injeções emagrecedoras e cirurgias bariátricas para crianças menores de 10 anos. Para essa faixa etária, o documento recomenda alimentação saudável, atividade física e apoio comportamental com participação familiar. Tecnologias digitais, como monitoramento de movimento e jogos interativos, são recomendadas condicionalmente e sob supervisão.
Para adolescentes de 10 a 19 anos, as injeções podem ser consideradas como último recurso, após intervenções supervisionadas relacionadas ao estilo de vida não apresentarem resultado. A cirurgia bariátrica é indicada apenas para adolescentes com maturidade e obesidade grave.
A diretora do Departamento de Nutrição da OMS, Luz María De Regil, destacou o apoio à adoção de hábitos sustentáveis como base do tratamento e mencionou a escassez de evidências sobre o uso de agonistas de GLP-1 em organismos imaturos.
A OMS também apontou a relação entre obesidade e saúde mental. Segundo a organização, ansiedade, depressão e desregulação emocional podem contribuir para o sedentarismo e a alimentação inadequada, enquanto estigma e bullying podem agravar o quadro.
Dados apresentados pela agência indicam que a obesidade entre crianças e adolescentes quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%. Em 2024, 170 milhões de jovens estavam nessa condição, sendo 70 milhões entre 5 e 9 anos e 100 milhões entre 10 e 19 anos.
Preços e possível incorporação ao SUS
As chamadas canetas emagrecedoras passaram por redução de preços no mercado brasileiro. Segundo o Ministério da Saúde, o valor desses medicamentos caiu cerca de 70% nas farmácias em menos de um ano. A pasta avalia ampliar o acesso por meio da incorporação das terapias ao SUS.
Segundo o Ministério da Saúde, 16 novos produtos foram registrados no Brasil apenas em 2026, incluindo genéricos e similares, após um chamamento realizado pela pasta e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estimular a entrada de novos fabricantes. Pelo menos quatro dos novos produtos são produzidos no País.
Dados do mercado citados pelo Ministério da Saúde apontam que o número de pessoas que utilizam canetas emagrecedoras passou de aproximadamente 400 mil para mais de 750 mil por mês.
O Ministério da Saúde projeta um custo de R$ 1,5 bilhão por ano para a incorporação dos medicamentos ao SUS. A pasta apresentou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) um pedido de avaliação desse tipo de medicamento, responsável pela análise de novas tecnologias para o sistema público. Padilha afirmou que a eventual incorporação dos medicamentos estaria associada a outras ações de alimentação e atividade física.

Medicamentos não substituem prevenção
Dados do Sisvan de 2025 mostram que 43.900 crianças de 0 a 10 anos acompanhadas pela Atenção Primária em Goiás foram diagnosticadas com obesidade. O número corresponde a 9,34% das 469.899 crianças avaliadas pela rede pública.
Dados do Vigitel 2025 apontam que 63,3% dos homens e 62,6% das mulheres adultas em Goiás estão com excesso de peso. A obesidade corresponde a mais de 25% da população.
No cenário nacional, projeções do Atlas Mundial da Obesidade indicam que o excesso de peso entre crianças e adolescentes pode atingir 50% até 2040.
Em Goiás, o governador Daniel Vilela sancionou a Lei nº 24.523, de 9 de setembro de 2026, de autoria do deputado Karlos Cabral. A norma altera a Lei nº 20.456/2019 e determina a realização de avaliação antropométrica anual ou medição do IMC dos alunos da rede pública estadual.
A lei estabelece que a pesagem deve ser realizada de forma individual e reservada, sem comparação entre estudantes. Segundo Karlos Cabral, a medida tem como objetivo acompanhar a saúde dos alunos e oferecer suporte às famílias, sem finalidade estética.
Academia da Saúde
Paralelamente às discussões sobre o uso de medicamentos, o Ministério da Saúde informou que ampliou os investimentos na Academia da Saúde. A política prevê 582 novos estabelecimentos credenciados em 448 municípios, com investimentos de R$ 80,7 milhões.
Integrada à Atenção Primária, a Academia da Saúde oferece atividades físicas e outras ações de promoção da saúde, prevenção de agravos e produção do cuidado nos territórios.
As atividades da política passaram de 331,6 mil, em 2022, para 492,1 mil, em 2025, aumento de 48,5%. Segundo o Ministério da Saúde, uma nova portaria prevê a expansão para quase 2 mil unidades, com recursos também destinados à contratação de nutricionistas, educadores físicos e fisioterapeutas.
Regras da Anvisa
No Brasil, a Anvisa aprovou a liraglutida (Saxenda) e a semaglutida (Wegovy) para o tratamento da obesidade em menores. Em abril de 2026, a agência também autorizou a tirzepatida (Mounjaro) para pacientes de 10 a 17 anos com base no estudo SURPASS-PEDS. A indicação é restrita ao tratamento do diabetes tipo 2. O uso da substância para emagrecimento pediátrico é considerado off-label.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta para os riscos da automedicação e do uso dos medicamentos por razões estéticas. Segundo a entidade, o uso indevido pode aumentar o risco de efeitos como pancreatite aguda, problemas na vesícula, desidratação, déficit de crescimento e distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia.
A pediatra Fabíola Suano, da SBP, defende a criação de ambientes que estimulem brincadeiras ativas e a redução do tempo de exposição às telas.
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