sábado, 10 de outubro de 2026
Justiça

Nova tabela do TJGO pode encarecer processos judiciais para goianos

A taxa judiciária em Goiás pode ficar até 40% mais cara em determinadas faixas, conforme simulações da CASAG

Renata Ferrazpor em
Nova tabela do TJGO pode encarecer processos judiciais para goianos
Proposta do TJGO prevê nova tabela de cobrança para ações cíveis; OAB-GO questiona falta de divulgação do estudo de impacto financeiro. Foto: Divulgação/TJGO

Quem precisar recorrer à Justiça em Goiás para cobrar uma dívida, pedir indenização ou resolver uma disputa patrimonial poderá enfrentar mudanças no valor da taxa judiciária. O Projeto de Lei nº 874/2026, de autoria do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), propõe uma nova sistemática de cálculo para a cobrança em ações cíveis. Conforme simulações apresentadas pela Caixa de Assistência dos Advogados de Goiás (CASAG), o aumento pode chegar a 40% em determinadas faixas.

Em uma ação de R$ 100 mil, por exemplo, a taxa passaria de R$ 500 para R$ 700, uma diferença de R$ 200. Já em causas de R$ 300 mil, o valor subiria de R$ 2.404,58 para R$ 3.120, segundo os dados apresentados pelo presidente da CASAG, Eduardo Cardoso Jr. Nesse caso, o acréscimo seria de R$ 715,42.

Os valores correspondem à taxa judiciária, uma das despesas relacionadas ao ingresso de uma ação. Portanto, não representam o custo total de um processo, que também pode envolver outras custas e honorários advocatícios. O impacto final depende das características de cada demanda e das despesas aplicáveis.

A proposta foi encaminhada à Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) e já foi lida em Plenário, seguindo para a Comissão Mista. Enquanto o projeto avança, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) questiona a falta de transparência sobre os efeitos financeiros da mudança.

Diferença aumenta conforme o valor da causa

As simulações apresentadas pela CASAG mostram que o impacto não será igual para todos os cidadãos. Em uma ação de R$ 800 mil, a elevação estimada é de 15,99%. Para uma causa de R$ 1 milhão, o aumento informado é de 9,08%, o que representa mais de R$ 1,1 mil adicionais.

Por outro lado, o projeto também prevê redução em determinadas faixas. Em uma ação de R$ 30 mil, a taxa cairia de R$ 150 para R$ 105, uma diminuição de 30%. A proposta estabelece o valor mínimo de R$ 105 e reorganiza a cobrança por faixas sucessivas, com alíquotas que aumentam conforme o valor da causa.

O texto prevê alíquota de 0,35% para causas de até R$ 30 mil. Sobre a parcela que exceder esse montante até R$ 120 mil, o percentual será de 0,85%. Nas faixas seguintes, as alíquotas previstas são de 1,25% entre R$ 120 mil e R$ 300 mil e de 1,45% entre R$ 300 mil e R$ 800 mil.

Os cálculos apresentados pela CASAG indicam que, embora algumas demandas possam ficar mais baratas, outras terão aumento expressivo. Por isso, a comparação entre as tabelas atual e proposta é importante para identificar quanto cada faixa poderá representar no orçamento de quem precisa recorrer ao Judiciário.

Custo pode pesar para quem busca direitos

Na prática, a despesa pode pesar para quem busca recuperar um dinheiro não recebido, cobrar uma obrigação contratual ou pedir reparação por prejuízos. A taxa é apenas uma parte dos gastos envolvidos, mas pode representar um custo adicional para quem já enfrenta dificuldades financeiras.

A gratuidade da Justiça é um mecanismo previsto para pessoas que não conseguem arcar com as despesas processuais sem comprometer o próprio sustento. A concessão depende da análise dos requisitos legais e das circunstâncias do caso. Assim, nem todo cidadão com orçamento limitado está automaticamente dispensado dos pagamentos.

A discussão envolve tanto o financiamento dos serviços judiciários quanto as condições para que a população consiga buscar seus direitos. Em 1995, ao julgar uma ação contra a taxa judiciária goiana, o Supremo Tribunal Federal (STF) advertiu que a cobrança não pode tornar excessivamente oneroso o acesso ao Judiciário, conforme relembra a OAB-GO.

OAB-GO cobra transparência

Em nota divulgada na quinta-feira (8), a OAB-GO manifestou “grave preocupação” com o Projeto de Lei nº 874/2026. A entidade afirma que a proposta avançou sem consulta prévia à advocacia e cobra a divulgação do estudo de impacto financeiro encomendado pela Presidência do TJGO, mas que não acompanha o texto enviado à Assembleia.

Segundo a Ordem, a ausência desses dados impede que a sociedade compreenda quem pagará mais, quem poderá pagar menos e qual será o efeito da nova sistemática sobre a arrecadação. A entidade também anunciou que pretende levar questionamentos ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A justificativa apresentada para a proposta aponta a intenção de reorganizar a cobrança, reduzir proporcionalmente o peso das custas em causas menores e considerar a capacidade contributiva das partes. A OAB-GO, por sua vez, pede que a discussão na Alego ocorra com transparência e participação da advocacia e da sociedade.

O O HOJE procurou o Tribunal de Justiça de Goiás para esclarecer os critérios adotados, obter a projeção de arrecadação e questionar os possíveis efeitos da mudança para os cidadãos. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

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