Divisão de brinquedos por gênero ainda marca a infância e limita escolhas desde cedo
Documento do Unicef aponta que estereótipos de gênero atravessam brincadeiras, comportamentos e formas de cuidado desde a primeira infância
Na hora de escolher um presente para uma criança, a divisão ainda costuma surgir antes da própria escolha. Bonecas, casinhas, panelinhas e tons de rosa de um lado; carrinhos, bolas, pistas e brinquedos de ação do outro. A cena parece banal, mas revela um aprendizado que começa cedo: antes mesmo de dizer claramente do que gosta, a criança já recebe sinais sobre o que seria esperado dela por ser menina ou menino.
Em torno do Mês das Crianças, a discussão ganha força. Não se trata de proibir princesas, carrinhos, futebol ou casinhas, nem de transformar a brincadeira em uma aula. A questão é permitir que a criança experimente diferentes interesses sem ouvir que determinada escolha “não combina” com ela.
O relatório Gênero e violências contra crianças e adolescentes: prevenção e resposta, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mostra que essas expectativas participam do processo de socialização desde os primeiros anos. Elas aparecem no cuidado, nas brincadeiras e nos comportamentos valorizados ou desencorajados pelos adultos. As meninas tendem a ser associadas ao cuidado, à delicadeza e ao espaço doméstico, enquanto meninos são mais frequentemente estimulados à independência, à força e ao ambiente externo.
Entre 0 e 3 anos, essa diferença já pode chegar pela própria caixa de brinquedos. O documento aponta que meninas costumam receber objetos associados ao cuidado e à casa, como bonecas e bichos de pelúcia, enquanto para os meninos predominam bolas, carros e brinquedos de ação. O padrão também alcança as emoções: deles, muitas vezes, espera-se que não chorem, não demonstrem medo e se afastem de comportamentos considerados femininos.
O problema não está em uma menina gostar de bonecas nem em um menino preferir carrinhos. Ele aparece quando essas escolhas deixam de ser apenas possibilidades e passam a funcionar como fronteiras. Se determinadas brincadeiras são apresentadas como inadequadas para um gênero, a criança aprende quais interesses, gestos e formas de expressão serão mais aceitos.
Quando a brincadeira começa a ensinar limites
Dos 4 aos 6 anos, esse aprendizado ganha peso. Segundo o Unicef, é nessa etapa que as crianças começam a organizar com maior clareza ideias sobre o que a sociedade considera feminino e masculino. Ao mesmo tempo, ampliam a autonomia e a convivência fora de casa, sobretudo na educação infantil. A escola, nesse cenário, pode reforçar divisões já naturalizadas ou ajudar a impedir que elas se consolidem.
Isso acontece em situações pequenas. Uma menina que prefere jogar bola pode ser desencorajada de maneira sutil. Um menino que escolhe uma boneca ou uma cozinha de brinquedo pode ouvir risadas ou comentários que o façam recuar. Nem sempre há uma proibição explícita. Às vezes, basta o olhar de estranhamento para indicar que aquela escolha saiu do roteiro esperado.
O Unicef define estereótipos como ideias rígidas aplicadas a determinados grupos e que podem desconsiderar características individuais. No caso do gênero, esses padrões ajudam a delimitar espaços distintos: o cuidado e a submissão para meninas e mulheres; a decisão e o poder para meninos e homens. Por isso, a discussão vai além da cor da embalagem ou do corredor de uma loja.
A liberdade inclui a menina que ama rosa e o menino que passa horas com carrinhos. O ponto é garantir que essas preferências não sejam as únicas opções apresentadas a eles e que experimentar algo diferente não venha acompanhado de censura ou constrangimento.
Para famílias e escolas, o caminho pode começar pela variedade e pela observação. Em vez de decidir antecipadamente do que a criança deve gostar, os adultos podem oferecer opções e prestar atenção ao que interessa. Também vale questionar o próprio impulso de classificar: por que um kit de cozinha pareceria mais adequado a uma menina? Por que uma bola seria automaticamente associada a um menino?
O Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade e protege a identidade e a autonomia de crianças e adolescentes. Crescer com espaço para descobrir preferências sem ter gostos e comportamentos definidos de antemão também passa por esse princípio.
Na próxima vez que surgir a dúvida diante de uma prateleira, talvez a pergunta mais útil não seja se aquele brinquedo é “de menino” ou “de menina”. Basta pensar se ele desperta a curiosidade daquela criança. Parece uma mudança pequena, mas desloca a escolha do rótulo para quem deveria estar no centro da brincadeira.
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