Pesquisa aponta preocupação com uso de telas por crianças em Goiás
Pesquisa aponta rejeição às telas na primeira infância; no Estado, posse de celulares entre crianças também caiu
Pesquisa do Instituto Locomotiva aponta que 82% dos adultos são contrários à exposição de crianças de até 3 anos a celulares. Entre crianças de 4 a 7 anos, a rejeição chega a 75%. Além disso, 52% dos entrevistados consideram aceitável que crianças tenham aparelho próprio até os 12 anos.
Em Goiás, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua sobre Tecnologia da Informação e Comunicação (PNAD Contínua TIC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a posse de celular pessoal entre pessoas de 10 a 13 anos caiu de 62,7% em 2023 para 57,2% em 2025. Na faixa de 14 a 19 anos, o índice passou de 91,7% para 90,7% no mesmo período.
A tendência também aparece no cenário nacional. Em 2025, a proporção de pessoas de 10 a 13 anos com celular próprio recuou de 56,7% para 55,2%. Entre os que não possuem aparelho nessa faixa etária, 32% apontaram preocupações com privacidade ou segurança, enquanto 22,6% citaram falta de necessidade.
O levantamento do Instituto Locomotiva, que ouviu 1.367 pessoas, também identificou preocupações com a redução das brincadeiras presenciais. Para 83% dos adultos, crianças de hoje preferem celulares ou televisão a brincar na rua. Outros 73% consideram as brincadeiras ao ar livre melhores do que as telas.
Uso nas escolas
A restrição aos aparelhos pessoais está prevista na Lei Federal nº 15.100/2025, que limita o uso de celulares por estudantes da educação básica durante aulas, recreios e intervalos. A legislação, porém, não impede o uso pedagógico planejado de tecnologias.
Em Goiás, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc-GO) lançou um guia para orientar a utilização de ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Gemini e Magic School, em atividades alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sob mediação dos professores.
O Conselho Nacional de Educação (CNE) também aprovou uma proposta de regulamentação da inteligência artificial na educação. O texto prevê restrições a práticas como vigilância emocional e correção automatizada de redações por IA, além de estabelecer que crianças de até 10 anos não tenham acesso direto e desacompanhado a ferramentas generativas ou conversacionais.
A implementação dessas tecnologias enfrenta desafios de infraestrutura e formação docente. A professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Rosemara Perpetua Lopes aponta lacunas na preparação dos professores e riscos relacionados à proteção de dados. Em pesquisa realizada em Luziânia, Adriel Ferreira Cardoso identificou uso superficial da inteligência artificial e alertou para possíveis prejuízos ao raciocínio crítico sem mediação pedagógica.
Impactos na saúde
A enfermeira especialista em saúde mental Vitória Viana destaca os possíveis impactos do uso excessivo de telas na saúde mental e no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Entre os efeitos associados à exposição prolongada a celulares, tablets e outros dispositivos digitais estão sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima, estresse, isolamento social e alterações no sono.
A exposição precoce e prolongada também pode reduzir as interações presenciais entre crianças e familiares, com possíveis prejuízos ao desenvolvimento da linguagem, à concentração e ao desempenho escolar. Outros comportamentos associados ao uso excessivo de dispositivos incluem agressividade, hiperatividade e impulsividade, além de manifestações relacionadas ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Na primeira infância, um dos pontos de atenção é o uso de celulares e tablets para acalmar, distrair ou entreter bebês. A prática, conhecida como uso de “chupetas digitais”, pode reduzir oportunidades de interação com adultos em uma fase importante para o desenvolvimento neurológico. O contato visual, o toque, o acolhimento e as brincadeiras presenciais são estímulos importantes para a formação de vínculos e para o desenvolvimento infantil.
Os efeitos também podem variar conforme o tipo de conteúdo consumido e a forma de utilização dos dispositivos. Entre meninas adolescentes, foram identificadas associações entre o uso problemático de celulares, sintomas depressivos, comparação da própria aparência nas redes sociais e exposição ao cyberbullying. Entre meninos, aparecem com maior frequência problemas comportamentais, como agressividade e desatenção. Jogos eletrônicos multijogador sem opção de pausa também foram associados a níveis mais elevados de estresse.
Não só prejuízos
A utilização de tecnologias, contudo, não está necessariamente relacionada a prejuízos. Quando ocorre de maneira equilibrada e com orientação adulta, pode favorecer a comunicação, o aprendizado, as pesquisas escolares e o apoio social. A preocupação está concentrada no uso excessivo, contínuo e sem acompanhamento.
Entre as medidas de prevenção estão o estabelecimento de limites para o tempo de tela, o diálogo entre responsáveis e crianças sobre as experiências no ambiente digital e a redução do uso de celulares durante as refeições, nos momentos de convivência familiar e antes de dormir. Também é importante que profissionais de saúde e educadores abordem o tema sem julgamentos prévios, investigando hábitos digitais, alterações no sono, dificuldades de concentração e possíveis sintomas físicos relacionados ao uso prolongado de dispositivos.
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