O que Flávio e Lula devem fazer (eleição de 2022 foi decidida na bala)
É impossível dizer com qualquer grau de certeza quem vai ganhar a eleição presidencial, pois as chances permanecem para ambos, a cadeira já esteve com os dois, que se revezam em favoritismos não superiores a algumas horas
A eleição de 2022 foi decidida no 2º turno entre os dois líderes deste século no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). São de tal maneira fortes que quando ficam fora do páreo, quem está dentro não tem qualquer chance sem seu apoio, como Dilma Rousseff em 2010 e 2014, sustentada por Lula, e Flávio Bolsonaro neste ano, indicado pelo pai. As pesquisas, as ruas e as redes sociais indicam que será mais uma eleição decidida no VAR, com as linhas traçadas. Na anterior, Lula ficou com 50,9% e Jair, 49,1 – ou seja, diferença inferior a 1% de votos válidos, pois por essa conta o que um perde vai para o outro.
A eleição deste ano segue rumo igual na mesma fase. Se fosse uma corrida de cavalos, que não merecem ser comparados aos humanos, o pleito estaria sendo decidido no photochart, para a photo finish. Com base em ciência, em expertise ou qualquer que seja a fonte, é materialmente impossível dizer com qualquer grau de certeza quem vai ganhar a eleição presidencial. Os levantamentos, descontando-se a eventual parcialidade de alguns, indicam que as chances permanecem para ambos. Dependendo do período pós-1º turno, vencido por Flávio, a cadeira já esteve com os dois, dados os empates técnicos. A rigor, revezam-se em favoritismos não superiores a algumas horas. E de uma hora para outra a poltrona muda de dono.
Roberto Jefferson e Carla Zambelli decidiram a última eleição
Na eleição passada, o que decidiu quem ocuparia a Presidência da República foram duas ações de irracionais, porém os animais eram humanos, demasiadamente humanos, o ex-deputado Roberto Jefferson e a então deputada Carla Zambelli. O 2º turno estava marcado para 30 de outubro de 2022. Uma semana antes, o ministro Alexandre de Moraes mandou a Polícia Federal prender Jefferson, que estava em sua casa, no interior do Rio de Janeiro. No início do mandato de Bolsonaro na presidência, Jefferson o apoiava, basicamente gravando vídeos com xingamentos aos adversários. Não tinha votos, mas dava ruídos. Em vez de receber a PF com cortesia, ou no máximo falando o que entendesse correto, o ex-deputado deu 50 tiros de fuzil na delegada e no agente que estavam num domingo executando seu trabalho. Depois de oito horas de negociação, com a delegada ferida sem gravidade, Jefferson foi levado de volta para a cadeia. O estrago estava feito e fez do aliado, vítima.
Repercutiu muito mal a atitude de Jefferson não apenas porque, como ex-legislador por quase 24 anos, sabia que não se deve resistir a ordem judicial, muito menos no instante do cumprimento. As imagens foram bastante exploradas pelos adversários de Bolsonaro, como se seu entorno fosse lotado de malucos que promovem chuva de chumbo sobre integrantes da PF, uma das poucas instituições brasileiras com alta aprovação. Não se falou em outra coisa durante aquela semana.
Deputada sacou sua pistola Taurus 9mm e correu atrás de Luan
Como não há nada tão ruim que não possa piorar, no sábado surgiu a versão feminina de Roberto Jefferson. Carla Zambelli estava andando na capital paulista quando, numa esquina da famosa Alameda Lorena, nos Jardins, teria sido admoestada por um jornalista, Luan Araújo. A deputada sacou sua pistola Taurus 9mm e correu atrás de Luan. A cena de uma parlamentar bolsonarista perseguindo um jovem negro no meio da rua por São Paulo circulou por todos os telefones celulares do Brasil. No dia seguinte, o eleitor foi às urnas com aquela imagem na cabeça. Foi uma hecatombe para a reeleição de Jair, pois acabou perdendo para Lula na maior cidade do País. O então governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que o apoiava, atribui a Zambelli a reviravolta de Lula vencer Bolsonaro, até ali o favorito.
No domingo passado, não apareceu Jefferson fuzilando uma mulher e no próximo sábado é improvável que surja uma Zambelli correndo atrás de um jovem jornalista negro com uma arma à mão. O que pode ser definitivo, para coincidir com essas datas, são os debates na TV – não apareceu na Band algo sequer parecido com as três granadas de Jefferson e, na Globo, caso ocorra, muito dificilmente se verá algo que gere os efeitos provocados por Zambelli. Mas não é por falta de tentativa. Lula, desde a refrega na Band, repete à exaustão que vai abrir seus sigilos bancários e fiscal, além dos de seus familiares, e incita sua militância a exigir que Flávio o imite. Mas não está conseguindo as consequências de Jefferson com um fuzil mirando uma delegada e um agente da PF.
Brasil vai eleger um presidente sem colocá-lo para explicar o que vai fazer
Se não foi Jair Bolsonaro o autor dos tiros no Rio nem foi ele quem sacou a pistola no meio da rua em São Paulo, os dois gestos extremos deveriam se resumir a seus autores. Isso no Brasil idealizado ou, no máximo, um país com clima eleitoral como nos pleitos anteriores a 2017, quando se radicalizou a polarização entre o bolsonarismo e o petismo. Lula estava preso, mas seus companheiros se encarregaram de atribuir a Jair Bolsonaro epítetos como os de fascista e de integrantes de uma certa extrema direita, seja lá o que isso queira dizer. Por isso, dois aliados portando armas próximo à eleição já seria um escândalo, ainda mais que não só portaram, um atirou em policiais, inclusive numa mulher, e a outra sacou a sua para perseguir um jornalista negro.
Mais uma vez, o Brasil vai eleger um presidente sem colocá-lo para explicar o que vai fazer no mandato. O que vai decidir é o escorregão, caso não seja dos candidatos, como não foi em 2022, aceita-se até um sujeito encrencado que grava vídeos de apoio. (Especial para O HOJE)
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