Avanço do PL no Congresso acirra disputa para comandar Câmara e Senado
Partido de Flávio Bolsonaro terá maior bancada e trabalha para ter o presidente de uma das Casas; Centrão e esquerda articulam para barrar avanço desenfreado da legenda
A vitória do PL na disputa por espaço no Congresso Nacional abriu uma nova frente de negociação política para a próxima legislatura. A legenda bolsonarista terá as maiores bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e articula para transformar o resultado das urnas em poder sobre as duas Casas. O movimento encontra resistência de partidos do Centrão e da esquerda, que articulam alternativas para evitar a concentração do comando do Legislativo nas mãos do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
As eleições para as presidências da Câmara e do Senado estão previstas para fevereiro de 2027, quando os novos parlamentares tomarão posse. Até lá, as negociações serão influenciadas pelo tamanho das bancadas e pelo resultado da disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Uma eventual vitória do senador do PL pode ampliar a pressão por um Legislativo alinhado ao novo governo. Já a reeleição do petista tende a reforçar o interesse de parte do Centrão em preservar os atuais comandos das Casas e manter margem de negociação com o Palácio do Planalto.
Na Câmara, o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) trabalha para transformar a resistência ao PL em uma aliança que assegure sua reeleição. Na última semana, Motta recebeu apoio de PSD, MDB, Podemos e das federações União Progressista (formada por União Brasil e PP), PSDB-Cidadania e Solidariedade-PRD. Além dos dez partidos, o PSB e o PDT anunciaram que também apoiam a reeleição do presidente da Casa Baixa, na última quarta-feira (21).
Os 12 partidos favoráveis ao atual presidente somam 273 deputados, acima dos 257 votos necessários para uma vitória em primeiro turno. O PT também sinalizou apoio, embora a votação seja secreta e a adesão formal de partidos não garanta, necessariamente, os votos de todos os seus integrantes.
Receio do crescimento do PL
A articulação expõe o receio de que o crescimento do PL reduza a influência das demais forças políticas na condução da Câmara. Com 121 deputados, o partido terá 33 cadeiras a mais que a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que elegeu 88 parlamentares e é a segunda maior representatividade na Casa. O avanço bolsonarista ocorreu, em parte, sobre legendas do Centrão.
Do lado do PL, o líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (RJ), e o primeiro vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (RJ), aparecem entre os nomes cotados para disputar o comando da Casa. Ambos são ligados ao bolsonarismo e podem representar uma alternativa a Motta caso o partido decida enfrentar diretamente o atual presidente. A legenda também considera a possibilidade de negociar o apoio a um nome de outra sigla, desde que consiga ampliar sua influência sobre a Câmara e o Senado.
O resultado presidencial será determinante para os próximos passos. Em caso de vitória de Flávio, o PL tende a ganhar força nas negociações, impulsionado pela perspectiva de alinhar o Congresso ao novo governo. A legenda poderia insistir em um nome próprio ou negociar uma candidatura de centro mais próxima do bolsonarismo.
Se Lula vencer, Motta terá um cenário mais favorável para permanecer no cargo. A convergência entre esses grupos não significa, necessariamente, a formação de uma base governista. O alinhamento serve, sobretudo, como barreira à tentativa do PL de controlar a Mesa Diretora.
Senado concentra disputa mais delicada
No Senado, a disputa é considerada mais sensível porque o PL terá 28 das 81 cadeiras a partir de 2027 e já trabalha para eleger Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio, como sucessor de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Marinho é o principal nome do PL cotado para a disputa. Além de coordenar a campanha de Flávio, o senador já concorreu à presidência do Senado em 2023, quando foi derrotado por Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
A sigla bolsonarista avalia que o comando da Casa é fundamental para avançar em pautas de interesse do grupo bolsonarista, especialmente as relacionadas ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Outra possibilidade é a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro. Tereza já manifestou interesse em disputar o cargo e afirmou que gostaria de ser a primeira mulher a presidir o Senado. A parlamentar é vista como uma alternativa que poderia compor um acordo mais amplo entre o PL e o Centrão.
O deputado Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara e eleito senador, também é citado nas conversas sobre a sucessão. Apesar disso, a avaliação é de que Lira, que terá seu primeiro mandato na Casa Alta, não deve disputar o comando do Senado já em 2027.
Do outro lado, Alcolumbre já busca viabilizar sua reeleição, seja com Lula ou Flávio na presidência. O presidente do Senado tem buscado apoio entre partidos do Centrão e da esquerda e aposta também em um racha nos votos do PL para ser reconduzido ao comando da Casa.
Isso porque o grupo político de Alcolumbre conta com senadores da legenda, como o vice-presidente do Senado, Eduardo Gomes (PL-TO). O presidente da Casa Alta já sinalizou que Gomes deve ser o relator da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2027.
O aceno de Alcolumbre não se limitou ao PL, já que a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com o fim da escala 6×1, de interesse do Planalto, foi aprovada na última semana e é vista como uma sinalização de aproximação com o governo Lula.
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