sábado, 31 de outubro de 2026
CINEMA

Morre aos 86 anos o ator britânico Patrick Stewart

Artista construiu carreira de quase sete décadas e se tornou um dos nomes mais conhecidos da ficção científica

Luana Avelarpor em
Morre aos 86 anos o ator britânico Patrick Stewart

Patrick Stewart passou décadas interpretando personagens de William Shakespeare, mas foi no universo da ficção científica que encontrou seus papéis mais populares. O ator britânico, que deu vida ao capitão Jean-Luc Picard em “Star Trek” e ao professor Charles Xavier nos filmes de “X-Men”, morreu na quarta-feira (28), aos 86 anos, em sua casa, em Los Angeles, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada por sua representante na quinta-feira (29).

Segundo comunicado divulgado nas redes sociais do artista, Stewart enfrentava a doença de Alzheimer e a demência por corpos de Lewy. Ele estava sob os cuidados da esposa, a cantora Sunny Ozell, e passou os últimos momentos cercado por familiares e amigos. As duas condições, que comprometem funções cognitivas, não haviam sido divulgadas publicamente antes da morte.

Com uma voz grave que se tornou uma de suas características mais reconhecidas, o ator construiu personagens que conquistaram públicos diferentes. A carreira, no entanto, não seguiu o percurso habitual de uma estrela de Hollywood. Stewart já era um intérprete experiente quando começou a receber atenção internacional, aos 47 anos, idade em que muitos artistas já haviam consolidado sua presença nas telas.

O primeiro grande salto aconteceu em 1987, quando foi escolhido para comandar a nave Enterprise em “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. A produção precisava apresentar uma nova tripulação aos admiradores da série original, que associavam a franquia ao capitão James T. Kirk, interpretado por William Shatner.

A escalação de Stewart não foi recebida com entusiasmo por todos. Britânico, calvo e pouco conhecido nos Estados Unidos, ele parecia uma escolha improvável para assumir uma das posições mais importantes da televisão de ficção científica. A desconfiança, porém, perdeu força conforme Jean-Luc Picard conquistava o público.

Diferentemente de protagonistas que resolviam conflitos pela força, o capitão recorria à diplomacia e ao conhecimento. A interpretação conferiu ao personagem uma autoridade discreta, sustentada mais pela maneira de falar e tomar decisões do que por demonstrações de poder.

A série permaneceu no ar até 1994 e acumulou 18 prêmios Emmy. O personagem ganhou quatro filmes e retornou à televisão em “Jornada nas Estrelas: Picard”, exibida entre 2020 e 2023, quando Stewart voltou a explorar a história do comandante.

O prestígio antes da fama

Nascido em 13 de julho de 1940, em Mirfield, na Inglaterra, Patrick Hewes Stewart cresceu em uma família operária. A infância foi marcada por dificuldades financeiras e pela violência doméstica, experiência que mais tarde o levaria a apoiar organizações de proteção às vítimas.

Seu interesse pelo teatro começou ainda na escola, estimulado pelo contato com Shakespeare. Antes de se dedicar integralmente à interpretação, trabalhou como jornalista no Dewsbury Reporter, onde também escrevia obituários.

Em 1966, ingressou na Royal Shakespeare Company, passando a dividir os palcos com artistas como Helen Mirren, Ben Kingsley e Glenda Jackson. Participou de montagens de “Macbeth”, “A Tempestade” e “Antônio e Cleópatra”, acumulando reconhecimento no teatro britânico.

Em 1986, recebeu um prêmio de melhor ator por sua interpretação em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, de Edward Albee. A experiência nos palcos lhe rendeu prestígio, mas não impediu que enfrentasse resistência de colegas quando decidiu trabalhar na televisão americana.

Stewart questionava a ideia de que produções populares fossem artisticamente inferiores. Em entrevista ao jornal The Independent, em 2003, criticou o preconceito de profissionais do teatro contra sua participação em “Star Trek”.

Um novo público com “X-Men”

A chegada ao cinema de super-heróis aconteceu em 2000, com o lançamento do primeiro “X-Men”. Stewart assumiu o papel de Charles Xavier, professor com poderes telepáticos que acolhia jovens mutantes e tentava promover a convivência entre eles e os humanos.

A produção reuniu o ator a Ian McKellen, seu amigo de longa data, escalado como Magneto. A relação entre os personagens, antigos aliados que passaram a defender caminhos diferentes para proteger os mutantes, tornou-se um dos pontos centrais da franquia.

Stewart voltaria ao papel em diversas produções. Entre elas está “Logan” (2017), no qual contracenou com Hugh Jackman e interpretou um Xavier debilitado, com dificuldades para controlar os próprios poderes. A transformação do professor em um homem vulnerável deu ao personagem uma dimensão diferente daquela apresentada nos primeiros filmes.

O ator também participou de “Duna” (1984), dirigido por David Lynch, no papel de Gurney Halleck, e continuou trabalhando em produções teatrais mesmo depois de conquistar fama internacional.

Em 2010, recebeu da rainha Elizabeth 2ª o título de cavaleiro pelos serviços prestados às artes dramáticas. Sua trajetória incluiu ainda indicações a premiações como Emmy e Tony.

Além do trabalho artístico, Stewart participou de campanhas de defesa dos direitos humanos e de apoio a refugiados e sobreviventes de violência doméstica. Em 2023, publicou a autobiografia “Making It So: A Memoir”, na qual abordou episódios da infância, relações familiares e experiências profissionais.

Casado com Sunny Ozell desde 2013, ele deixa dois filhos, Daniel e Sophia, de seu primeiro casamento. A notícia da morte provocou homenagens de colegas como Hugh Jackman, Ian McKellen e William Shatner, que destacaram sua contribuição ao teatro, ao cinema e à televisão.

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