Morre aos 86 anos o ator britânico Patrick Stewart
Artista construiu carreira de quase sete décadas e se tornou um dos nomes mais conhecidos da ficção científica
Patrick Stewart passou décadas interpretando personagens de William Shakespeare, mas foi no universo da ficção científica que encontrou seus papéis mais populares. O ator britânico, que deu vida ao capitão Jean-Luc Picard em “Star Trek” e ao professor Charles Xavier nos filmes de “X-Men”, morreu na quarta-feira (28), aos 86 anos, em sua casa, em Los Angeles, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada por sua representante na quinta-feira (29).
Segundo comunicado divulgado nas redes sociais do artista, Stewart enfrentava a doença de Alzheimer e a demência por corpos de Lewy. Ele estava sob os cuidados da esposa, a cantora Sunny Ozell, e passou os últimos momentos cercado por familiares e amigos. As duas condições, que comprometem funções cognitivas, não haviam sido divulgadas publicamente antes da morte.
Com uma voz grave que se tornou uma de suas características mais reconhecidas, o ator construiu personagens que conquistaram públicos diferentes. A carreira, no entanto, não seguiu o percurso habitual de uma estrela de Hollywood. Stewart já era um intérprete experiente quando começou a receber atenção internacional, aos 47 anos, idade em que muitos artistas já haviam consolidado sua presença nas telas.
O primeiro grande salto aconteceu em 1987, quando foi escolhido para comandar a nave Enterprise em “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. A produção precisava apresentar uma nova tripulação aos admiradores da série original, que associavam a franquia ao capitão James T. Kirk, interpretado por William Shatner.
A escalação de Stewart não foi recebida com entusiasmo por todos. Britânico, calvo e pouco conhecido nos Estados Unidos, ele parecia uma escolha improvável para assumir uma das posições mais importantes da televisão de ficção científica. A desconfiança, porém, perdeu força conforme Jean-Luc Picard conquistava o público.
Diferentemente de protagonistas que resolviam conflitos pela força, o capitão recorria à diplomacia e ao conhecimento. A interpretação conferiu ao personagem uma autoridade discreta, sustentada mais pela maneira de falar e tomar decisões do que por demonstrações de poder.
A série permaneceu no ar até 1994 e acumulou 18 prêmios Emmy. O personagem ganhou quatro filmes e retornou à televisão em “Jornada nas Estrelas: Picard”, exibida entre 2020 e 2023, quando Stewart voltou a explorar a história do comandante.
O prestígio antes da fama
Nascido em 13 de julho de 1940, em Mirfield, na Inglaterra, Patrick Hewes Stewart cresceu em uma família operária. A infância foi marcada por dificuldades financeiras e pela violência doméstica, experiência que mais tarde o levaria a apoiar organizações de proteção às vítimas.
Seu interesse pelo teatro começou ainda na escola, estimulado pelo contato com Shakespeare. Antes de se dedicar integralmente à interpretação, trabalhou como jornalista no Dewsbury Reporter, onde também escrevia obituários.
Em 1966, ingressou na Royal Shakespeare Company, passando a dividir os palcos com artistas como Helen Mirren, Ben Kingsley e Glenda Jackson. Participou de montagens de “Macbeth”, “A Tempestade” e “Antônio e Cleópatra”, acumulando reconhecimento no teatro britânico.
Em 1986, recebeu um prêmio de melhor ator por sua interpretação em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, de Edward Albee. A experiência nos palcos lhe rendeu prestígio, mas não impediu que enfrentasse resistência de colegas quando decidiu trabalhar na televisão americana.
Stewart questionava a ideia de que produções populares fossem artisticamente inferiores. Em entrevista ao jornal The Independent, em 2003, criticou o preconceito de profissionais do teatro contra sua participação em “Star Trek”.
Um novo público com “X-Men”
A chegada ao cinema de super-heróis aconteceu em 2000, com o lançamento do primeiro “X-Men”. Stewart assumiu o papel de Charles Xavier, professor com poderes telepáticos que acolhia jovens mutantes e tentava promover a convivência entre eles e os humanos.
A produção reuniu o ator a Ian McKellen, seu amigo de longa data, escalado como Magneto. A relação entre os personagens, antigos aliados que passaram a defender caminhos diferentes para proteger os mutantes, tornou-se um dos pontos centrais da franquia.
Stewart voltaria ao papel em diversas produções. Entre elas está “Logan” (2017), no qual contracenou com Hugh Jackman e interpretou um Xavier debilitado, com dificuldades para controlar os próprios poderes. A transformação do professor em um homem vulnerável deu ao personagem uma dimensão diferente daquela apresentada nos primeiros filmes.
O ator também participou de “Duna” (1984), dirigido por David Lynch, no papel de Gurney Halleck, e continuou trabalhando em produções teatrais mesmo depois de conquistar fama internacional.
Em 2010, recebeu da rainha Elizabeth 2ª o título de cavaleiro pelos serviços prestados às artes dramáticas. Sua trajetória incluiu ainda indicações a premiações como Emmy e Tony.
Além do trabalho artístico, Stewart participou de campanhas de defesa dos direitos humanos e de apoio a refugiados e sobreviventes de violência doméstica. Em 2023, publicou a autobiografia “Making It So: A Memoir”, na qual abordou episódios da infância, relações familiares e experiências profissionais.
Casado com Sunny Ozell desde 2013, ele deixa dois filhos, Daniel e Sophia, de seu primeiro casamento. A notícia da morte provocou homenagens de colegas como Hugh Jackman, Ian McKellen e William Shatner, que destacaram sua contribuição ao teatro, ao cinema e à televisão.
LEIA MAIS:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.