Alcolumbre e Marinho disputam apoio de partidos para comandar Senado
Com apoio da oposição, senador do PL deve oficializar candidatura na próxima semana, mas vitória de Lula muda cenário da disputa, que pode beneficiar Alcolumbre
Bruno Goulart
A disputa pela Presidência do Senado deve colocar frente a frente o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a reeleição, e o senador Rogério Marinho (PL-RN), nome apoiado pela oposição. A eleição ocorre em um momento de reorganização das forças políticas após a vitória do presidente Lula da Silva (PT) na disputa presidencial. Enquanto Alcolumbre trabalha para reunir apoio entre diferentes partidos, o PL avalia os próximos passos antes de oficializar a candidatura de Marinho.
A assessoria de Rogério Marinho informou ao O HOJE que o partido fará uma reunião na quarta-feira (4) para discutir a candidatura. “Somente após a oficialização, o senador irá se manifestar sobre o tema”, afirmou a equipe. Até lá, as articulações devem se concentrar na definição de alianças e na avaliação dos votos que cada grupo poderá reunir para comandar o Senado.
Alcolumbre, por sua vez, já iniciou as movimentações para permanecer no cargo. Entre as estratégias atribuídas ao presidente da Casa está a negociação de espaços políticos, o que inclui a oferta de gabinetes para atrair o apoio de parlamentares. Além disso, o senador sinalizou a possibilidade de discutir um eventual indulto ou anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A aproximação com setores do bolsonarismo pode ampliar sua base de sustentação e alterar o equilíbrio da disputa.
Para o cientista político Lehninger Mota, a vitória de Lula modificou as condições que favoreciam Marinho. Antes do resultado eleitoral, o grupo da oposição alimentava as perspectivas de uma candidatura do PL. Agora, porém, o governo federal deve trabalhar para construir uma relação com partidos de centro, movimento que pode beneficiar Alcolumbre.
“Com a vitória do Lula, um cenário que era muito favorável ao Marinho muda um pouco”, avalia Mota. Segundo o cientista político, o presidente precisará negociar com o Centrão para garantir condições de governabilidade. Nesse contexto, a Presidência do Senado ganha importância porque o comando da Casa influencia a definição da pauta legislativa e a distribuição de espaços na Mesa Diretora e nas comissões.
O Republicanos aparece como uma das siglas que pode pesar na decisão. A legenda mantém relações com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e já ocupou ministérios no governo Lula. Para Mota, a capacidade do partido de negociar com o Executivo e com diferentes grupos políticos pode ser decisiva para definir o resultado da eleição.
“Existe a possibilidade de o PL, pela força que conquistou no Senado, atrair parte desse Centrão. Mas também pode acontecer algo parecido com 2023, quando o partido ficou sem espaço nos postos mais importantes da Mesa e das comissões”, afirma. Na avaliação do analista, caso Marinho avance com a candidatura e os partidos de centro se alinhem a Alcolumbre, a oposição poderá enfrentar dificuldades para garantir participação na direção do Senado.
Governo busca interlocução
O mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé também considera natural que Lula tente influenciar a escolha do presidente do Senado. Segundo Zancopé, o Executivo depende de interlocução com o Legislativo para aprovar projetos e evitar que pautas contrárias aos interesses do governo avancem.
“É óbvio que o Lula vai querer ter candidatos, sobretudo no Senado, mais alinhados ao Executivo, ao governo federal”, afirma Zancopé. Para o especialista, Alcolumbre reúne condições de manter um canal de negociação com o Palácio do Planalto, enquanto uma eventual presidência de Marinho poderia tornar essa interlocução mais difícil.
Zancopé ressalta que o interesse do governo não se limita à aprovação de projetos econômicos ou sociais. O controle da pauta também interfere em temas institucionais, como eventuais pedidos de impeachment de ministros do STF. Na avaliação do historiador, Lula tentará evitar uma crise entre os Poderes que possa ampliar a instabilidade política e prejudicar a confiança de investidores.
Como exemplo, o especialista cita a atuação de Alcolumbre na condução de propostas legislativas, como a PEC da Segurança Pública. O presidente do Senado tem poder para organizar a tramitação das matérias e definir o momento de votação, o que pode facilitar ou dificultar os planos do governo e da oposição.
Entretanto, Zancopé pondera que o apoio ao governo não está restrito a parlamentares de esquerda. Senadores eleitos por partidos de centro e de direita podem votar de acordo com o conteúdo das propostas, sem necessariamente seguir uma orientação permanente de oposição. Nesse sentido, o especialista menciona a senadora eleita por Goiás Gracinha Caiado (União Brasil), que afirmou não pretender fazer oposição apenas por oposição. (Especial para O HOJE)
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