domingo, 1 de novembro de 2026
NEGÓCIOS

O cliente já não quer apenas comprar: quer participar da criação

Uma imagem enviada pelo celular pode ser o começo de uma negociação que envolve personalização, limites de produção e novas formas de relacionamento entre quem compra e quem vende

Otavio Augustopor em
O cliente já não quer apenas comprar: quer participar da criação
Foto: Freepik

Uma mãe queria presentear as filhas com personagens que elas acompanhavam nas redes sociais. Eram figuras de frutas criadas por inteligência artificial que viralizaram no TikTok, no Kwai e em outras plataformas: as famosas novelas de frutas. O que até então existia apenas na tela se transformou em um pedido de brinquedos personalizados. Em vez de procurar produtos semelhantes no comércio convencional, ela entrou em contato com um negócio de impressão 3D para saber se seria possível transformar os desenhos em bonecos.

O pedido chegou a Eduardo Guimarães, da 3D Create, em Goiânia. A encomenda mostra como uma referência vista na internet pode se transformar em uma demanda de consumo. O cliente apresenta uma imagem, uma fotografia ou apenas uma ideia e espera encontrar uma forma de materializá-la. Nem sempre, porém, é possível reproduzir fielmente o que aparece na tela. Há limitações técnicas, detalhes pequenos demais para a impressora e projetos que precisam ser adaptados. Antes de a máquina começar a trabalhar, é necessário entender o que o consumidor espera e explicar o que pode ser feito.

Em Ceres, interior de Goiás, Ana Clara, responsável pela A Casa Cria 3D, também recebe pedidos que começam com uma imagem enviada pelo celular. Uma cliente, por exemplo, encaminhou a fotografia de um Chevrolet para que ela desenvolvesse uma miniatura do veículo. Em outros casos, o consumidor apresenta um produto visto no Instagram ou solicita mudanças nas cores, nas dimensões e nas características de uma peça.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Clara
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Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Clara

As duas experiências ajudam a observar uma mudança nas relações de consumo. Em determinadas situações, o cliente não procura apenas um produto disponível no mercado: participa da definição do que será produzido, apresenta referências e acompanha as decisões. A negociação pode começar e se desenvolver inteiramente no ambiente digital.

Essa transformação ocorre em um mercado no qual as compras pela internet deixaram de ser exceção. Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), divulgada em julho de 2026, estima que 139 milhões de brasileiros compraram pela internet nos 12 meses anteriores ao levantamento. Entre os consumidores digitais que vivem nas capitais, 85% fizeram ao menos uma compra on-line no período. O estudo também aponta que 73% dos entrevistados compraram pelo WhatsApp no mês anterior à pesquisa.

Os dados ajudam a dimensionar a presença dos canais digitais na rotina de consumo. Para os pequenos negócios, essa mudança interfere na forma de apresentar produtos, receber pedidos e conversar com os clientes. Nas experiências de Ana Clara e Eduardo, as redes sociais são o primeiro caminho para que consumidores conheçam o trabalho e iniciem uma negociação, inclusive quando estão em outras cidades ou estados.

O pedido começa na tela

Quando Ana Clara começou a trabalhar com impressão 3D, os primeiros pedidos vinham de familiares e pessoas próximas. Eram itens decorativos, produtos religiosos e pequenas lembranças. Com o tempo, ela passou a receber encomendas de outros consumidores, principalmente por meio de indicações e das redes sociais.

Entre os pedidos que desenvolveu está um expositor com tecnologia NFC, utilizado por estabelecimentos comerciais para direcionar clientes a canais digitais. O exemplo mostra como a impressão 3D também pode atender demandas de outros negócios, que procuram peças específicas para integrar o atendimento presencial às plataformas on-line.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Clara

A divulgação nas redes sociais trouxe novos pedidos. Segundo Ana Clara, um dos vídeos publicados alcançou aproximadamente 2 milhões de pessoas e resultou em mais de 100 encomendas. Ela afirma que os conteúdos publicados também atraíram mais de 6 mil seguidores e geraram mais de mil contatos de interessados. Os números são baseados nos dados que acompanha nas próprias plataformas.

Com a circulação dos conteúdos, a empresa passou a receber encomendas de outras cidades e estados. O Instagram se tornou um dos principais canais de contato: é por ali que consumidores conhecem os produtos, consultam possibilidades e iniciam a negociação. A compra, portanto, pode começar a distância, sem que o cliente tenha contato presencial com quem fabrica a peça.

A experiência de Eduardo Guimarães, da 3D Create, segue um caminho semelhante. Ele conta que o negócio começou com um site e uma página no Instagram, por onde chegaram os primeiros clientes, sem investimento em anúncios. As solicitações incluíam peças personalizadas e encomendas em quantidade.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Eduardo Guimarães

Uma das primeiras que chamou sua atenção foi a de mil chaveiros. O pedido mostrou que a impressão 3D também poderia atender demandas de empresas, além de encomendas individuais. Segundo Eduardo, os clientes procuram desde miniaturas e peças personalizadas até brindes e objetos para projetos de engenharia.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Eduardo Guimarães

A variedade das solicitações indica que nem todo consumidor chega ao mercado com uma decisão de compra definida. Há quem envie um arquivo pronto para impressão, quem apresente uma fotografia ou uma referência encontrada na internet e também quem tenha apenas uma ideia inicial. Nesse último caso, o desenvolvimento do produto depende de uma conversa para definir o que será possível produzir.

Alguns clientes pedem mudanças nas cores, nas dimensões ou nas características de uma peça. Outros procuram algo que não encontram no comércio convencional. Para atender a essas demandas, é necessário compreender a finalidade do produto e avaliar quais adaptações podem ser feitas.

A inteligência artificial acrescentou outra possibilidade a esse processo. Eduardo relata que alguns clientes utilizam ferramentas de IA para criar imagens dos objetos que desejam e enviam os resultados como referência. Mas uma imagem gerada digitalmente não corresponde, necessariamente, a um projeto que possa ser reproduzido pela impressora 3D. Detalhes muito pequenos, formatos e proporções podem exigir alterações.

A diferença entre a imagem e o objeto possível de fabricar exige negociação. Antes de aceitar uma encomenda, é preciso explicar os limites técnicos e discutir adaptações. A expectativa criada na tela nem sempre corresponde ao resultado que a tecnologia permite alcançar.

A loja que não precisa de balcão

Nos negócios de Ana Clara e Eduardo, a compra não começa em uma loja aberta ao público. Os produtos são apresentados nas redes sociais, o primeiro contato ocorre por mensagem e boa parte da negociação é feita a distância. O consumidor pode conhecer as opções, tirar dúvidas e encomendar uma peça sem visitar o local de produção.

Na A Casa Cria 3D, Ana Clara utiliza o Instagram para mostrar produtos e etapas da fabricação. Segundo ela, as publicações alcançam o público principalmente de forma orgânica, sem investimento em anúncios pagos. O canal também permite receber solicitações de consumidores que chegam com referências próprias ou perguntam sobre possibilidades de personalização.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Eduardo Guimarães

Depois do primeiro contato, a negociação envolve questões como preço, características, prazo de produção e entrega. Para os pedidos em Goiânia e região, Ana Clara combina a retirada ou a entrega das peças. As encomendas destinadas a outras cidades e estados são enviadas por serviços de transporte, com embalagens reforçadas para evitar danos.

Na 3D Create, a dinâmica é semelhante. Eduardo mantém um ponto de apoio onde ficam as impressoras e onde os clientes podem retirar os pedidos, mas não tem uma loja ou mostruário aberto ao público. O contato acontece virtualmente. No início, conta ele, alguns consumidores demonstravam receio de encomendar sem conhecer pessoalmente o estabelecimento.

A situação evidencia uma questão presente nas compras realizadas a distância: como confiar em um negócio com o qual o consumidor não tem contato presencial? Eduardo relata que avaliações de clientes, indicações e exemplos de trabalhos anteriores ajudam a esclarecer dúvidas. Em algumas situações, ele também conversa por telefone para explicar o projeto antes de fechar a encomenda.

A presença desses canais também aparece em levantamentos sobre os pequenos negócios goianos. A nona edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae e divulgada em fevereiro de 2025, identificou que 74% dos empreendedores ouvidos em Goiás utilizavam redes sociais, aplicativos ou internet para vender. Entre os canais citados estavam o WhatsApp, mencionado por 81% dos participantes, e o Instagram, por 60%.

O levantamento ouviu 181 empreendedores no estado, entre 25 de novembro e 17 de dezembro de 2024. Os percentuais dizem respeito aos participantes da pesquisa e não representam a totalidade das empresas goianas. Ainda assim, ajudam a contextualizar as experiências de Ana Clara e Eduardo. Nos dois negócios, as redes sociais concentram etapas que antes costumavam ocorrer presencialmente, como a apresentação dos produtos, o esclarecimento de dúvidas e o início da negociação. A mudança amplia as possibilidades de contato com consumidores, mas também exige atenção à clareza das informações e às condições combinadas na compra.

A rapidez que o consumidor espera e o tempo que a máquina exige

A facilidade de fazer um pedido pelo celular também traz uma expectativa de agilidade. O consumidor consulta produtos, conversa com vendedores e espera respostas rápidas. Na impressão 3D, porém, a rapidez do contato não significa que o objeto ficará pronto imediatamente. A fabricação depende de etapas que nem sempre são visíveis para quem faz a encomenda.

Eduardo conta que recebe pedidos de clientes que querem saber se é possível encomendar e retirar uma peça no mesmo dia. O prazo depende do estágio do projeto. Quando o arquivo já está pronto e não exige alterações, a impressão pode levar de uma a duas horas, conforme o modelo. Se for necessário desenvolver a peça, o tempo costuma variar de dois a três dias, dependendo da complexidade.

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Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Clara

A produção em quantidade exige outro planejamento. Eduardo cita, como exemplo, uma encomenda de 50 chaveiros, cuja impressão pode ocupar cerca de 20 horas. O tempo de fabricação varia conforme as dimensões, o formato e as configurações necessárias para cada objeto.

“Você programa a máquina e ela vai trabalhar. Não precisa ficar 100% do tempo em cima dela, é só monitorar”, explica. Enquanto a impressora funciona, no entanto, o atendimento continua. Responder às mensagens, esclarecer dúvidas, apresentar opções e informar o andamento da encomenda também fazem parte do trabalho.

A situação revela uma diferença entre a experiência de compra digital e o processo de fabricação. O pedido pode ser feito em poucos minutos, mas a entrega depende de um prazo que precisa ser compreendido e negociado entre as partes. Eduardo afirma que procura informar o tempo necessário antes de fechar o serviço, especialmente quando o cliente espera receber a peça no mesmo dia.

Ana Clara também observa que muitos consumidores não conhecem as etapas anteriores à impressão. Antes de o objeto ficar pronto, pode ser necessário desenvolver o modelo, preparar o arquivo e configurar a máquina. Dependendo da encomenda, ainda há ajustes e trabalhos manuais. Assim, mesmo uma peça aparentemente simples pode exigir horas de produção.

O preço também faz parte desse alinhamento de expectativas. Ana Clara relata que alguns clientes comparam o valor de uma peça personalizada ao de um produto industrializado de tamanho semelhante. A diferença, explica, está nos custos envolvidos na produção: além do material utilizado, entram na conta o tempo de máquina, o desenvolvimento do modelo, os testes, os ajustes e o trabalho necessário para atender às características solicitadas.

A comparação mostra um desafio para quem vende produtos personalizados: explicar ao consumidor que o valor não está apenas no objeto entregue, mas também no processo necessário para desenvolvê-lo. Para o cliente, compreender essas etapas ajuda a ajustar as expectativas sobre preço e prazo. Para o negócio, torna-se parte da própria relação de consumo.

O que a fotografia não mostra

A imagem enviada pelo cliente é apenas o ponto de partida. Até chegar ao produto final, é preciso avaliar se o formato pode ser fabricado, quais materiais serão utilizados e se alguns detalhes precisam ser modificados. Nem toda ideia pode ser reproduzida exatamente como foi imaginada, e explicar essas limitações também faz parte da relação entre quem vende e quem compra.

Eduardo conta que procura identificar possíveis dificuldades antes de iniciar a impressão. Detalhes muito pequenos podem não apresentar o resultado esperado, enquanto imagens que parecem realistas na tela nem sempre podem ser reproduzidas pela tecnologia. Quando necessário, a equipe sugere outros modelos ou propõe adaptações para tornar o projeto viável.

O processo também envolve tentativas e correções. Ana Clara relata que nem toda impressão funciona corretamente na primeira vez. Em algumas situações, é necessário alterar o modelo, modificar as configurações da máquina, testar materiais e investigar a origem de uma falha. Um projeto que parece simples para o consumidor pode exigir uma sequência de ajustes até chegar ao resultado possível.

Na 3D Create, Eduardo afirma que ele e os sócios acompanham os problemas durante a fabricação. Quando uma impressão apresenta defeito, a equipe interrompe o trabalho e procura identificar a causa. Segundo ele, em cerca de 90% dos casos, os problemas são resolvidos sem comprometer o prazo de entrega ou exigir uma comunicação ao cliente. Quando a falha pode atrasar o pedido ou está relacionada a um arquivo enviado pelo consumidor, a situação é informada.

A comunicação também ganhou espaço depois de experiências em que o resultado entregue não correspondia ao que o cliente esperava. Eduardo conta que passou a enviar fotografias dos filamentos e das opções de cores antes da produção. A equipe também apresenta uma prévia da modelagem e imagens da peça finalizada para que o consumidor possa avaliar o resultado antes da entrega. Caso seja necessário algum ajuste, a alteração é discutida nessa etapa.

Na A Casa Cria 3D, o contato continua depois que a encomenda chega ao destino. Ana Clara procura saber se o produto foi recebido em boas condições e se correspondeu às expectativas. Também solicita avaliações e sugestões dos clientes. Quando houve danos durante o transporte, ela relata que foi necessário providenciar o reenvio das peças.

O expositor com tecnologia NFC também mostrou que a orientação pode continuar depois da compra. Ana Clara conta que alguns consumidores tinham dúvidas sobre o funcionamento do dispositivo, especialmente sobre a compatibilidade do celular e o local correto de aproximação. Para esclarecer essas questões, passou a disponibilizar vídeos explicativos e instruções impressas que acompanham o produto.

Essas situações mostram que as expectativas do consumidor não se limitam à aparência ou à entrega do que foi comprado. A experiência também envolve receber informações claras, saber o que esperar do produto e contar com orientação quando surgem dificuldades. Em negócios nos quais a compra acontece a distância e cada encomenda pode ter características próprias, o atendimento antes, durante e depois da venda passa a ter papel importante na construção da confiança.

Quando o cliente volta

Ana Clara conta que parte dos consumidores retorna depois da primeira encomenda com novas ideias de produtos. Na 3D Create, Eduardo também observa clientes que voltam a procurar o negócio depois de conhecer as possibilidades da impressão 3D. Em ambos os casos, os pedidos seguintes nem sempre são iguais aos primeiros: uma compra pode abrir caminho para outras necessidades que o consumidor ainda não havia considerado.

A recorrência, no entanto, não elimina os desafios desse modelo de consumo. Cada encomenda pode exigir um projeto diferente, novas conversas e adaptações. O cliente tem liberdade para apresentar referências e modificar características, mas precisa considerar os limites técnicos, os prazos e os custos envolvidos. Para quem produz, o desafio é conciliar essas expectativas com a capacidade de fabricação.

As experiências dos dois empreendedores mostram um consumidor que chega ao comércio por caminhos diferentes dos tradicionais. Às vezes, parte de uma publicação nas redes sociais; em outras situações, de uma imagem criada por inteligência artificial ou de uma necessidade que ainda não encontrou um produto correspondente no mercado. O pedido pode começar com uma fotografia enviada pelo celular, mas a definição do que será comprado depende de uma negociação entre cliente e vendedor.

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Foto: Shutterstock

Isso não significa que o comércio convencional tenha perdido espaço ou que todos os consumidores procurem produtos personalizados. As decisões de compra continuam envolvendo preço, disponibilidade e rapidez. O que os casos da A Casa Cria 3D e da 3D Create permitem observar é a existência de demandas que não se encaixam necessariamente na oferta padronizada das prateleiras.

A impressão 3D é um recorte específico, mas ajuda a identificar questões que alcançam outros segmentos do varejo e dos serviços: o consumidor encontra referências em diferentes plataformas, chega ao vendedor com expectativas próprias e participa, em alguns casos, da definição do produto. Para os negócios, acompanhar essas mudanças exige mais do que estar presente nas redes sociais. É preciso compreender o que o público procura e avaliar como atender a essas demandas dentro das condições de cada atividade.

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