Entenda como moradores e comerciantes estão matando as árvores de Goiânia

Para fugir da fiscalização, moradores e comerciantes de diversas regiões utilizam métodos cruéis que destroem áreas verdes

Postado em: 04-10-2021 às 08h09
Por: Redação
Para fugir da fiscalização, moradores e comerciantes de diversas regiões utilizam métodos cruéis que destroem áreas verdes | Foto: Reprodução

Por Yago Sales

Qualquer que seja a espécie, a árvore é quase uma divindade erguida misteriosamente nos fundos da casa da avó, em frente à escola da infância ou no caminho que leva a criançada pelo trieiro do campo. A folhagem diminui a temperatura de passageiros de ônibus, do motorista do carro e de motociclistas, embora muita gente ainda tenha o hábito de tratar as árvores como memória centenária, testemunha de biografias, há inúmeros interesses obscuros por trás de crimes que, de forma personificada, assassinam estes monumentos brotados do solo goianiense. 

A reportagem do jornal O Hoje descobriu, em diversos endereços, árvores que sofrem a um extermínio silencioso e impiedoso em calçadas, canteiros, praças e parques. Ainda não se sabe quem são os algozes desse crime ambiental, mas é possível identificar a causa da morte de dezenas de árvores por meio de táticas que vão do anelamento, corte irregular e, à maneira mais paulatina, envenenamento com herbicida com glifosato.  

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Além de destruir a vida de árvores, os criminosos desrespeitam, para citar dois exemplos, a sobrevivência de abelhas silvestres e a manutenção de aves. Como exemplo, há diversas espécies plantadas nos canteiros da Avenida 85, onde periquitos e araras esvoaçam diariamente no finalzinho da tarde. No cenário de destruição, não é raro encontrar ninhos e ovos com filhotinhos mortos. Como é o caso de um filhote de rolinha-roxa morto após o apodrecimento de um ipê-amarelo na 24 de Outubro. 

Toda essa situação é facilmente encontrada em pelo menos seis bairros da capital, conforme levantado pelo Hoje. Em uma calçada da Avenida Araguaia entre as ruas 1 e 2, no Centro, um Oitizeiro devorado pelos cupins que aproveitaram que a árvore se tornou um cadáver à luz do dia após ter sido decepada com um facão enferrujado por um comerciante. É o que uma vizinha diz sob anonimato com medo de ser xingada pelo tal comerciante. “Ele já fez isso diversas vezes. Uma vez foi multado depois de derrubar uma árvore, agora ele usa veneno. É uma pena que ele continue fazendo isso sem que ninguém faça nada”, disse ela.

Outro exemplo encontrado pela reportagem: um Oitizeiro anelado, em processo de putrefação por dentro, na avenida A, na Vila Izaura. As folhas ainda estavam verdes na última sexta-feira, mas a qualquer momento começarão o processo de amarelamento e destituição de toda vida. A árvore vai secar, apodrecer e cair. Se não cair, o proprietário do imóvel certamente vai ligar para a Amma pedindo a retirada da planta sob o pretexto de que ela é um risco às casas e pessoas.

Por causa da multa aplicada para quem derruba uma árvore sem passar pelos trâmites legais, tanto proprietários de imóveis quanto donos de comércios pagam ou eles mesmos fazem o serviço sujo,anelam as árvores. O procedimento se dá quando arrancam impiedosamente lascas da casca. A situação tem preocupado especialistas sensíveis às causas ambientais em Goiânia. É o caso do Engenheiro Florestal e mestre em Genética e Melhoramento de Plantas, Rodrigo Carlos Batista. “Está se tornando comum encontrar em meio ao verde da cidade, árvores secas vítimas de crimes ambientais, como anelamento de troncos.”

Na Vila Abajá, especificamente na rua 4, esquina com a avenida Senador Jaime, a reportagem encontra os únicos resquícios de vida de uma sete-copas vítima do anelamento. Vizinhos conversaram reservadamente com o repórter. “Foi o filho da proprietária. Ele é um agrimensor, formado, olha só, em universidade federal. Chegou aqui com uma motosserra com veneno e enfiou nas árvores. Morreram todas”, disse um deles. Além da sete-copas, outras duas árvores sucumbem à morte na calçada de um imóvel com uma casa e um barracão para alugar. No muro, o número de telefone para onde o jornal ligou e ouviu, de maneira ríspida, que os donos não iam responder sobre quaisquer coisas relacionadas às árvores. 

Matança no parque

Há duas semanas cerca de 22 espécies em uma Unidade de Preservação Permanente (UPP) do setor Perim, em Goiânia, estão sob risco de morte após um vizinho invadir o local e produzir o anelamento das árvores. O caso, inclusive, deve ser investigado pela  Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (DEMA). Uma bióloga da Amma foi ao local e está tentando, utilizando técnicas quase cirúrgicas, para conseguir salvar algumas das árvores que passaram pelo processo criminoso. 

Para o engenheiro florestal Rodrigo Carlos Batista, esta ação favorece a morte do exemplar arbóreo, pois com a descascamento do exemplar, são retirados também os tecidos condutores que transportam nutrientes produzidos pelas folhas, que nutrem as raízes e demais partes das plantas. “Sendo assim, com a interrupção da condução desses nutrientes para as raízes, e a não regeneração natural da planta, favorecem para o enfraquecimento das raízes, diminuindo sua capacidade de absorver nutrientes do solo para nutrir a parte aérea da planta, enfraquecendo-a e levando a sua morte”, explica ele. 

Outro método de crime ambiental praticado em árvores urbanas é o envenenamento. “O tronco e as raízes das árvores são perfurados e injetados substâncias químicas que intoxicam a planta. Pouco tempo depois ela morre. Este tipo de crime é quase imperceptível pois há dificuldade em perceber que a árvore foi envenenada”, relata o engenheiro. O mais comum, inclusive encontrado pela reportagem, é o corte ilegal de árvores. 

Para qualquer intervenção em um exemplar arbóreo, localizado em passeio público, seja poda ou corte, é necessário ter a autorização do órgão ambiental responsável. Corte de árvores ou podas sem autorizações, são crimes e podem ser suscetíveis a sanções penais, levando até a prisão de acordo com a legislação federal (LEI Nº 9.605, DE 12 DE FEVEREIRO DE 1998).  

Para o diretor de Fiscalização Ambiental da Amma, Diego Moura, denúncias como estas relatadas nesta reportagem são prioridades para o órgão. “Em casos de denúncias, feitas pelo 161, conseguimos apreender motosserra, facão e veículos, principalmente carretinha utilizadas para o transporte dessas madeiras ilegais”. Segundo ele, é normal encontrar pessoas informais contratadas por moradores, de forma clandestina, principalmente nos finais de semana, para fazer tanto a retirada quanto procedimentos como o anelamento e envenenamento destas espécies. Ele destaca ainda que estes crimes são cometidos na maioria das vezes durante a noite e nos finais de semana. “Eles parecem não saber, mas trabalhamos muito em regime de plantão para cumprir a legislação”.

Ainda conforme o diretor, qualquer ação na arborização pública, nas praças, calçadas, rotatórios, é de responsabilidade do município. A pessoa que quer cortar alguma árvore na porta da sua casa, seja por saúde comprometida ou por atrapalhar a fiação, tem que solicitar ao órgão, que encaminha uma equipe técnica de biólogos após análise sobre o parecer. “Se vai ser poda ou corte da árvore, a pessoa deverá pagar à Comurg pelo serviço, que vai fazer o corte e o recolhimento do exemplar.”

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