Vizinhança previu desabamento de uma loja em reforma no Jardim Guanabara

“O telhado do vizinho caiu”, alertou o filho de Diva dos Santos, vizinha da obra que cedeu o teto após as chuvas

Postado em: 11-02-2022 às 08h35
Por: Maiara Dal Bosco
“O telhado do vizinho caiu”, alertou o filho de Diva dos Santos, vizinha da obra que cedeu o teto após as chuvas | Foto: Pedro Pinheiro

Um misto de sentimentos marcou a manhã de ontem (10) da aposentada Diva dos Santos Maciel, 71, moradora do Jardim Guanabara, em Goiânia. Às 7h da manhã ela recebe a notícia do nascimento da tão esperada primeira bisneta, depois de já ter três outros bisnetos. A emoção e a felicidade que marcavam a manhã da aposentada foram interrompidas por volta das 11h30, horário em que ela e o esposo almoçavam, por um barulho estrondoso. Ao ouvi-lo, a sensação de desespero tomou conta e ela, ao imaginar que seria um avião caindo, só pensou, naquele momento, em pegar seu esposo – que usa uma cadeira de rodas e deixar a casa.

Somente nos instantes seguintes que a aposentada compreendeu o que havia, de fato, acontecido. Um de seus filhos, que também estava na residência, chegou com a notícia. “O telhado do vizinho caiu”, declarou ele. O filho de Diva se referia ao acidente que resultou no desabamento de uma laje, em uma loja que estava em reforma. Um homem, que trabalhava no local, acabou morrendo soterrado.

À reportagem, visivelmente emocionada, Diva, vizinha há mais de 40 anos do local do acidente, contou como percebeu o acontecimento dos fatos. “Eles estavam trabalhando, até fecharam para reforma. Eu só ouvi o barulho, muito alto, enquanto colocava comida para meu esposo. Pensei que era um avião caindo em nossa casa, só pensei em sair. Quando meu filho chegou e nos avisou, fomos lá para fora [da casa]”. Diante do acontecido, a aposentada, que tem diabetes e pressão alta, passou mal. “Eu senti muita tontura, foi a vizinha quem me trouxe para casa e me deu uma água, então me acalmei um pouco”, relata.

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Depois de alguns minutos, a aposentada convida a reportagem para entrar na residência e verificar os estragos causados pelo acidente. Em seu quarto, ela explica que foi orientada a não dormir no local por conta do risco de desabamento do muro, distante cerca de 1,5 m da parede do dormitório. “Vamos dormir no sofá, o rapaz falou que não é para dormir aqui, ele está com medo que o muro desabe. Ele até perguntou se eu ia continuar em casa, e falei que sim, por conta do meu esposo é difícil sairmos”, conta Diva.

O acidente também deixou estragos nos fundos da casa. Na parte externa, a aposentada aponta para mais uma parte do muro vizinho, que está comprometido. “Falaram para não ficarmos próximos, porque se cair, vai cair para cá. Queriam até isolar o local, mas eu falei que não íamos desobedecer e chegar perto”, afirma. Ela espera receber ajuda para reparar os estragos da residência que demorou tanto tempo para construir. “Falaram que vão acompanhar, pediram os meus dados, e espero mesmo que ajudem, porque não temos condições”, pontua.

Agora, a mulher que viveu emoções distintas na manhã de ontem (10), com o nascimento da primeira bisneta, Helena, e que chorou de emoção com a notícia do crescimento da família, e, mais tarde, com o acidente que vitimou fatalmente uma pessoa ao lado de sua casa, se vê esperançosa. “É ruim o que aconteceu hoje, foi uma fatalidade. Fiquei triste porque só quem já passou pelo o que já passei sabe que não é fácil. Mas Deus vai ajudar, vai dar tudo certo, pra nós e para o pessoal da loja também, eles são boas pessoas, trabalhadores. Estão muito abalados”, finalizou.

Evitado

Ao deixar a residência da aposentada Diva, a reportagem encontrou outro morador antigo do setor. O pintor Ailton Arantes, mora na rua desde 1968 e contou que por diversas vezes alertou os pedreiros da obra que o gesso estava sendo feito de forma errada. “Não amarra um gesso sobre outro que o arame não suporta o peso, e foi o que aconteceu, pesou tanto que cedeu”, explica.

Para ele, o acidente poderia ter sido evitada. “A maioria das pessoas que trabalham na mão de obra não têm experiência, não conhece, não estuda. Todas as obras precisam ter engenheiro. Lá na frente não tem placa com o responsável da obra. Agora prejudica quem está lá dentro [da obra], a rua, o comércio todinho, que todo mundo trabalha pra pagar as contas, os vizinhos, que é perigoso que haja desabamentos”, afirma Ailton.

Defesa Civil

Presente no local, a Defesa Civil foi quem fez as interdições citadas pela moradora. O Coordenador Municipal de Proteção e Defesa Civil, Robledo Mendoça de Farias explicou à reportagem que, inicialmente, o trabalho da Defesa Civil foi isolar a região próxima ao desabamento.

“Posteriormente, avaliamos os riscos das edificações em volta, e até o momento, não foi possível entrar no galpão. Estamos aguardando a Polícia Científica concluir o trabalho. Iremos avaliar a estrutura interna do galpão que desabou. Já fizemos os levantamentos, a estrutura que sobrou está toda abalada, e, inclusive, sugerimos que seja feita a demolição total do local, para que posteriormente seja construído algo novo no lugar”, afrma Robledo, que destacou ainda que os dois lados, bem como os fundos do local do acidente estão isolados.

Para evitar que situações como essa se repitam, a Defesa Civil orienta que o cidadão que pretende fazer uma reforma, ou uma construção nova, que procure um profissional. “É importante que a pessoa procure um profissional, como Arquiteto ou Engenheiro, e faça os trâmites legais dentro da Prefeitura para que a obra não corra o risco de acontecer como aconteceu hoje, esse desabamento. Acompanhamento profissional é muito importante”, finaliza.

Entenda

No final da manhã de ontem (10), o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás (CBMGO) foi acionado para socorrer uma vítima de desabamento. O acidente aconteceu na Rua Santa Catarina, no Jardim Guanabara, em Goiânia. Por volta das 13h de ontem, a Corporação informou que a vítima, que estava na obra, foi soterrada embaixo de uma laje e não resistiu. O óbito foi confirmado no local pelo Corpo de Bombeiros.

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