20 anos sem os reis do riso, Mamonas Assassinas

Postado em: 02-03-2016 às 08h30
Por: Redação
Os Mamonas Assassinas são lembrados com carinho pelos fãs, 20 anos depois do acidente que pôs fim a um dos maiores fenômenos da música brasileira

JÚNIOR BUENO

O ano era 1995 e o Brasil vivia um estado de euforia com o sucesso do recém lançado Plano Real. Cinco rapazes de Guarulhos, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, lançam o primei­ro álbum de uma banda de nome engraçado, Mamonas Assassinas. Dinho, Sérgio, Júlio, Bento e Samuel estavam na casa dos 20 e poucos anos e tentavam firmar uma carreira musical. Já tinham tentado e falhado cantando covers, com o nome de Utopia. Após conhecerem o produtor Rick Bonadio, foram rebatizados, lançaram um álbum de sucesso fenomenal, ganharam o Brasil, venderam mais de três milhões de cópias do álbum homônimo e morreram em um aci­den­te aéreo, no auge do sucesso.

O ano era 1996. No dia 2 de março, há exatamente 20 anos, o grupo Mamonas Assassinas sofreu um acidente de avião e morreu, menos de um ano após se tornar conhecido em todo o país, via rádio e TV. Um do­mingo que com certeza quem passou pelos anos 90 deve se lembrar até hoje. De repente, aquela banda desbocada que havia colocado a palavra “suruba” na boca de crianças já não existia mais. Aqueles garotos com roupas listradas de prisioneiro cantando em um inglês sofrível, expressões como “music is very porreta” se foram no auge, sem tempo para despedidas. 

O sucesso dos Mamonas Assassinas é um caso raro de sorte, talento e carisma, tudo junto no lugar e momento certos. O álbum conseguiu a façanha de colocar todas as14 músicas nas rádios. Toda festinha de 1995 tinha que tocar o disco inteiro, e até hoje, quem viveu esta febre consegue cantar sem errar os versos de Robocop Gay, Jumento Celestino, 1406, Pelados em Santos, Lá Vem o Alemão, Chopis Centis, Vira Vira, Sabão Cracrá, Uma Arlinda Mulher, Cabeça de Bagre II, Bois Don’t Cry, Débil Metal e Sábado de Sol.

Jesiel Bueno era fã da banda e faz aniversário no dia 3 de março. Naquele 1996, ele acordou para receber parabéns, mas ao invés das felicitações, veio a trágica notícia. “Mamonas era minha banda favorita, no entanto, por conta dos meus pais serem evangélicos, éramos obrigados a esconder a fita K7. Como éramos três irmãos, sempre nos revezávamos olhando no portão, para ficar de olho se os pais estavam chegando,” lembra ele. A mãe dele, Vilma Amorim, só descobriu a armação agora, nos depoimentos para essa matéria e explica: “Eu gostava deles também, só não aprecio palavrões, seja falado ou cantado,” diz ela. 

Rafael Koilalat e Luana Neres também se sentiram órfãos naquele dia. “Eu tinha 12 anos e me lembro de chorar dias a fio, colecionar reportagens, fotos. Era a minha banda preferida na época,” diz Lua­na. Já Rafael conta: “Eu tinha por volta de 7 anos, foi a única banda da qual que tive um CD original, e no dia da morte eu estava casa, foi notícia nacional, o Gugu explorou muito no Domingo Legal. E o triste é que mesmo com a pouca idade, eu sabia inconscientemente que nunca surgiria outra banda como eles, com a mesma alegria.” 

Musicalmente os Mamonas Assassinas dividiam opiniões. Para alguns, aquela baderna toda no palco, os palavrões e as piadas eram vazios de sentido e o som, de qualidade duvidosa. Alexandre Figueiredo fez uma crítica à banda no seu blog, Mingau de Aço: “Era apenas um grupo de humoristas razoável, mas musicalmente inexpressivo. Mesmo o lado musical servia mais para gancho às piadas do grupo do que para alguma expressão sonora inovadora no âmbito do rock. E não havia expectativa que o grupo fosse mais adian­te nas aventuras roqueiras. Portanto, o melhor seria que o grupo fosse entendido como um conjunto de humoristas corretos e honestos. Mas, mesmo assim, que nada tinham de contundentes. Suas paródias não correspondiam a um humor crítico, mas à chamada paródia cordial, feita por homenagem, não por de­preciação.”

Mas é enganoso achar que só porque morreram é que os músicos tiveram seu valor inflacionado no mercado dos gênios. Gostem ou não, eles eram muito mais que carinhas engraçados. “Os Mamonas era uma banda com influência direta da Dream Theater, o que pode ser observado na música Bois Don’t Cry, em que ocorre um verdadeiro plágio da música The Mirror,” diz Jesiel. Por trás daquela irreverência havia uma mistura de Belchior, Red Hot Chilli Peppers, The Cure, Negritude Júnior, Rush, The Clash e mais um tanto de ingredientes. Tudo isso numa roupagem que caiu no gosto das turmas do fundão do Brasil.

O conteúdo das letras também não era somente para dar risada. “Eles trataram de vários temas relevantes de uma forma muito interessante e ao mesmo tempo com um tom de reflexão,” diz Jesiel, que dá exemplos: “O êxodo do nordestino para São Paulo para tentar uma vida melhor, o preconceito contra homossexuais em Robocop Gay e o amor puro e simples representado pela Brasília amarela.” Mesmo na única música composta em inglês, Heavy Metal, esse tom de crítica está presente. Aqui, eles fazem trocadilho com Heavy Metal com a expressão débil mental. É também de uma forma, sacaneiam aqueles que ouvem música pesada e não entendem nada de seu conteúdo. Tanto que Dinho diz: “Shake your head, sucker!”, ou seja, “Agite sua cabeça, otário!” Por essa os metaleiros não esperavam.

Passados 20 anos, os Mamonas ainda são lembrados com carinho, como algo que pertence a uma época onde crescer é difícil, mas pode ser divertido. A morte dos integrantes foi certamente a primeira vez que muitas crianças e adolescentes tiveram que lidar com a perda e o luto. E é surpreendente que o tom ácido tenha sobrevivido a estes tempos de politicamente correto. Talvez porque, se repararmos bem, o teor é feito para divertir sem precisar oprimir ninguém. Coisa que muito humorista de 2016 ainda não aprendeu.  

Mamonas, o musical e a série

A história dos meninos irreverentes de Guarulhos será contada em um musical. A montagem O Musical Mamonas Assassinas pretende mostrar a trajetória de sucesso do grupo que conquistou o Brasil com o primeiro disco lançado e vi­via o auge da carreira quando tiveram o sonho interrompido por um acidente aé­reo fatal. Cinco atores foram selecionados para reviver os integrantes da banda: Ruy Brissac será Dinho; Adriano Tunes dará vida ao tecladista Julio; Yudi Tamashiro vai interpretar Bento e Elcio Bonazzi e Arthur Ienzura, farão os irmãos Sergio e Samuel. O mesmo elenco também estará em outra produção, desta vez na TV. A vida e a obra da banda também será transformada em série na Record. Com cinco episódios, a série será assinada por Carlos Lombardi. A estreia da peça está prevista para março, com encenação no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, e a série ainda está em pré-produção, sem data de estreia. 

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