Custo da produção nacional de cerveja deve aumentar com guerra na Ucrânia

Postado em: 09-04-2022 às 13h00
Por: Maria Paula Borges
Conflito afeta os preços pois os países envolvidos no conflito representam quase 30% das exportações globais de cevada | Foto: reprodução

A cerveja pode ficar ainda mais cara para o brasileiro devido a guerra entre Rússia e Ucrânia, que pressiona os preços da cevada e do malte, principais ingredientes da bebida. O conflito afeta diretamente nos preços porque os dois países envolvidos representam quase 30% das exportações globais de cevada. Afetando o cenário nacional, a Rússia é o terceiro maior fornecedor de malte para o Brasil, ficando atrás da Argentina e Uruguai. 

Os dois países não são as principais fornecedoras das cervejarias brasileiras, mas a falta dos insumos no mercado internacional provoca uma alta nos preços. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a produção de cervejas no Brasil é a terceira maior do mundo e o faturamento da indústria cervejeira chega a R$ 77 bilhões, representando 2% do Produto Interno Bruto (PIB).

Além disso, os dados do Mapa em 2019 apontaram que o Brasil importou 671 mil toneladas de grãos de cevada, ocupando o décimo primeiro lugar entre os maiores importadores mundiais de cevada, e importou 1,09 milhão de tonelada de malte, sendo o primeiro no ranking entre maiores importadores de malte. 

De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), cerca de 78% da cevada e 65% do malte consumidos no Brasil em 2021 são importados de outros países entre eles e os envolvidos na guerra.

Em relação a outro insumo, o lúpulo é praticamente todo importado sobretudo da Etiópia e, segundo Luiz Nicolaewysk, superintendente do Sindicerv, a guerra impactará o custo. “Não vai faltar, mas vai encarecer. São commodities e, nesse momento de falta, inflaciona. Já temos algo em torno de 10% de aumento no preço desses insumos”, afirmou. 

Segundo dados do Índice de Preço no Consumidor (IPCA), até fevereiro, a inflação da cerveja acumulou 8,39% nos últimos 12 meses para o consumo nos domicílios. O diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), Paulo de Tarso Petroni, analisa que a margem de lucro das produtoras pode ser, em média, até 30% comprometida.

Ele analisa ainda que outros fatores impactam o custo de produção do empresário, como o aumento do preço dos combustíveis e o valor do dólar. O diretor afirma ainda que as empresas têm evitado repassar as altas para os clientes, uma vez que quando repassam não é de forma integral e se dá em produtos ou regiões selecionadas. 

“Quanto ao preço da bebida, deve impactar sim por conta desse aumento forte dos insumos de produção, dos aumentos de custo, mas nós estamos sempre com um tampão que é a capacidade de compra, ou seja, a disponibilidade de renda do consumidor final”, afirmou.

Petroni observou também que o problema já foi enfrentado no Brasil. “Uma deterioração da capacidade de consumo do brasileiro. Então, não adianta muito a gente forçar querendo aumentar os preços para repassar os custos que vem de lá de fora porque, de fato, o consumidor não absorve isso”. 

O problema deve impactar ainda mais os pequenos empreendedores. De acordo com o Gilberto Tarantino, presidente da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), com as dificuldades, que já somava outras barreiras, o impacto vai ser grande. “Prejudica principalmente as cervejarias menores, como as artesanais ou independentes. Hoje, nós temos cerca de 1.300 cervejarias produtivas. Nós importamos em volume menor, não fazemos contratos de 12 meses como empresas maiores e temos poder de negociação menor. Algumas estão fazendo o repasse dos custos aos poucos, enquanto o cliente tem optado por outras marcas”, ressaltou.

Entretanto, o impacto ainda não foi sentido pelos brasileiros no cenário comercial. Nos últimos 12 meses do IPCA, a cerveja aumentou 5,97%. 

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