Ronaldo Caiado amplia força política no Entorno de Brasília

Marconi, Ibaneis e até Gustavo Mendanha tentam ganhar espaço nos municípios próximos a Brasília, onde todos os prefeitos de municípios importantes estão na base governista | Foto: Reprodução

Postado em: 17-05-2021 às 08h44
Por: José Luiz Bittencourt
Marconi, Ibaneis e até Gustavo Mendanha tentam ganhar espaço nos municípios próximos a Brasília, onde todos os prefeitos de municípios importantes estão na base governista | Foto: Reprodução

Um dos campos mais notáveis da batalha eleitoral de 2022, em Goiás e até com certa implicação nacional, será a região do Entorno de Brasília. Estão plantados ali cerca de um milhão de votos que tanto podem ajudar a definir o nome do novo governador do Estado quanto alicerçar projetos de partidos que visam a recuperar ou ampliar o protagonismo no Congresso Nacional. Sem falar nas antigas e abaladas lideranças, caso, por exemplo, do ex-governador Marconi Perillo, que alimenta a esperança de reentrada no cenário político.

Nos tempos de outrora, o Entorno era uma terra de ninguém, longe de tudo e de todos, apesar da vizinhança com a capital da República e mesmo estando situada no Centro geográfico goiano. Faltava para a sua crescente população até mesmo o básico: infraestrutura urbana, água tratada, escolas e atendimento médico, para ficar no mínimo. Não havia emprego nem muito menos renda. Isso mudou. Hoje, existe pujança na economia local, gerada por um mercado consumidor que se conecta com Brasília, dona de um PIB uma vez e meia maior que o de Goiás, capaz também de exercer atração sobre parte expressiva da massa trabalhadora dos municípios limítrofes – de ondem também se originam entre 200 a 300 mil eleitores inscritos para votar no DF.

Daí o verdadeiro escopo das divergências entre os governadores Ronaldo Caiado e Ibaneis Rocha. A rusga pode até ter começado com base em escorregões como o do brasiliense ao incursionar em municípios do Entorno sem avisar ou consultar o colega de Goiás. Mas evoluiu para o que agora pode ser definido como um enfrentamento político-eleitoral. Adicione-se a esse confronto os interesses de Marconi, que sonha com a ressurreição através de um futuro mandato de deputado federal, para a conquista do qual espera ganhar algum apoio na região.

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Para Ibaneis e para o tucano, os obstáculos que se levantam são grandes, a partir do crescimento da influência de Caiado e dos investimentos que o seu governo está carreando para o Entorno. Nos nove maiores colégios eleitorais – Cristalina, Águas Lindas, Luziânia, Cidade Ocidental, Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto, Formosa, Planaltina e Valparaíso –, os prefeitos são todos de partidos já alinhados com a base do governador. Apenas um, Pábio Mossoró, de Valparaíso, é do MDB. Só que ele já avisou que, em 2022, se não houver aliança com o DEM para apoiar Caiado, deixará a legenda para se acomodar onde possa ficar à vontade para apostar na reeleição.

Há uma barreira, portanto, para conter os projetos oposicionistas no Entorno. Fazendo dupla com a sua fiel escudeira Lêda Borges, ex-prefeita de Valparaíso e no momento deputada estadual, Marconi percorre essa muralha atrás de brechas por onde enfiar os seus planos de reconstrução eleitoral, perseguindo o brilho do passado através da saída que sobrou, a candidatura à Câmara dos Deputados. Na sua cabeça, o PSDB e seus governos foram os únicos que contribuíram com o desenvolvimento dos municípios próximos de Brasília – e por isso nada mais justo do que buscar a reciprocidade devida, em 2022.

Não será assim tão automático. Seja nos discursos de Caiado na região seja pela fala dos prefeitos governistas seja na boca do povo, Marconi é chamado de “governador beija-flor”, mestre de obras eleitoreiras, tendo espalhado à granel esqueletos das suas gestões nas cidades mais populosas do Entorno. O apelido é referência à rapidez com que o pequeno pássaro pula de flor em flor, extraindo, com seu longo bico fino, o néctar de cada uma. Esse, na palavra tanto do governador quanto das lideranças regionais, é que seria o real legado do ex-governador, em conluio com os tucanos que mandaram, na sua época, nas prefeituras locais, enfim desaparecidos.

Caiado ocupou o vazio político do Entorno com uma estratégia que mistura uma presença assídua e a priorização de investimentos em infraestrutura, como as recentes liberações de recursos para sinalização e asfaltamento de ruas urbanas e construção de pontes para destravar estradas vicinais, totalizando mais de R$ 60 milhões. Ajunte-se o Hospital de Águas Lindas, que está sendo todo refeito para entrega no início do ano que vem, e a estadualização do Hospital de Luziânia, já referência de qualidade no atendimento médico da região. Mais a redução da criminalidade e a modernização das escolas estaduais e se tem um painel de realizações que nenhum governo levou até hoje.

Essa ação não só passa uma borracha na memória de Marconi que imagina ter no Entorno, como afasta a possível interferência de Ibaneis – de resto mais preocupado em gastar o seu tempo entre goladas de uísque e puxar saco do presidente Jair Bolsonaro, mesmo não sendo retribuído. O governador de Brasília, sem saber o que fazer, confirmou a sua falta de rumo ao receber há poucos dias o prefeito de Aparecida Gustavo Mendanha, interlocutor menor do MDB, sem qualquer cacife para se arvorar em mentor da oposição a Caiado.

A política de Goiás parece resumida à tentativa de reerguimento de impérios caídos dos dias pretéritos, o PSDB e o MDB, e ao seguimento do eixo de poder que está sendo cimentado pelo atual governador, aparentemente destino a confirmar mais quatro anos nas eleições marcadas para daqui a 15 meses – prazo apertado para produzir uma mudança nas expectativas que cercam a reeleição de Caiado. No que depender do Entorno de Brasília, menos ainda.

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