Projeto ‘Água Viva’ traz Maria Bethânia, Beatriz Azevedo e Moreno Veloso em homenagem à escritora Clarice Lispector

Postado em: 04-05-2022 às 09h21
Por: Redação
A obra de Clarice Lispector continua universal, conversando com as novas gerações e inspirando criações | Foto: Reprodução

Por Lanna Oliveira

Clarice Lispector faz parte do imaginário cultural até os dias de hoje, integrando um hall artístico de grande prestigio. Inspiração para a cantora Maria Bethânia, esta que se une a Beatriz Azevedo e Moreno Veloso para celebrar a obra da escritora e o seu centenário, comemorado em dezembro de 2020, no álbum ‘Clarice Clarão’. A parceria entre as artistas deu fruto ao single ‘Água Viva’, que estreia dia 6 de maio nas principais plataformas de streaming e também gratuitamente no Sesc Digital. A produção integra uma série de ações e programas do Sesc São Paulo de valorização da cultura brasileira.

Com voz e produção de Beatriz Azevedo e Moreno Veloso, que também assinam a produção musical com composições próprias e de outros artistas, o disco ‘Clarice Clarão’ dá continuidade a uma série de ações e programas do Sesc São Paulo para valorização da cultura brasileira e divulgação de novos artistas nacionais. Na época do lançamento do primeiro single, que leva o nome do projeto, Beatriz contou que escreveu a composição “sozinha, mas de mãos dadas com Clarice, com seus livros espalhados por toda a casa, num momento de mergulho total em sua obra. Clarice é um estado de ser, um portal, uma vastidão”.

No disco, Beatriz e Moreno reúnem música, teatro e poesia para construir uma narrativa em contato profundo com a obra da escritora Clarice Lispector. Em ‘Água Viva’, Bethânia lê trecho do romance homônimo de Clarice. Uma obra primorosa que dá conta dessa característica sempre presente na autora homenageada: a fusão entre delicadeza e contundência. Por ocasião da participação de Maria Bethânia, Caetano Veloso escreveu: “Chamam Bethânia para dizer um trecho de pausa, de dissipação das trevas, de nascimento, como se sua voz fosse inevitável depois da expressão ‘grande demais’”.

Sobre a escritora que marcou a história da literatura brasileira, Bethânia lembra do privilégio de ter Clarice na plateia de ‘Rosa dos Ventos’, espetáculo em que atuava em 1971, sob direção de Fauzi Arap. Ao final da peça, a escritora teria dito “Faíscas no palco!”, elogio enormemente bem-vindo a uma admiradora e intérprete dos escritos clariceanos. Clarice, ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia.

Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um autorretrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.

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