terça-feira, 25 de agosto de 2026
Saúde Pública

Goiás amplia transplantes em 62%, mas recusa familiar à doação ainda é entrave

Mesmo com avanço nacional e crescimento expressivo no Estado, taxa de negativa das famílias chega a 68% em Goiás — acima da média do País

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em
Goiás
Foto: Divulgação/Ses-Go

Apesar do avanço significativo na realização de transplantes, o Estado de Goiás ainda lida com um obstáculo persistente: a alta taxa de recusa familiar à doação de órgãos, que chega a 68%, acima da média nacional. O dado preocupa especialistas, mesmo diante de melhorias na estrutura hospitalar, no aumento do número de procedimentos e na adoção de novas tecnologias para captação e compatibilização entre doadores e receptores.

Em 2024, o Brasil registrou um marco histórico: mais de 30 mil transplantes de órgãos e tecidos foram realizados, segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e do Ministério da Saúde. O recorde anterior, de 2023, era de 28,7 mil. Rim, córnea e fígado lideram a lista de órgãos mais transplantados. Ainda assim, cerca de 78 mil pessoas continuam na fila nacional de espera.

Esse avanço nacional foi impulsionado por campanhas de conscientização, melhorias logísticas e ampliação da infraestrutura hospitalar. A parceria do Ministério da Saúde com companhias aéreas e a Força Aérea Brasileira (FAB) possibilitou o transporte gratuito de órgãos e tecidos em mais de 5 mil voos em 2024. 

O Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por financiar 85% dos transplantes e fornece gratuitamente os imunossupressores necessários aos pacientes transplantados por toda a vida.

Crescimento expressivo em Goiás

No cenário regional, Goiás também apresenta indicadores positivos. O Estado registrou um crescimento de 62% no número de transplantes nos últimos três anos,  passando de 553 procedimentos em 2022 para 895 em 2024. 

Rim e córnea são os órgãos mais transplantados no Estado e também os que concentram as maiores filas. Atualmente, 1.705 pessoas aguardam por um transplante de córnea, 691 esperam por um rim, sete estão na fila do fígado e uma pessoa aguarda transplante de pâncreas, totalizando cerca de 2.400 pacientes.

Mesmo diante desses avanços, o maior entrave continua sendo a negativa familiar à doação. “A gente depende principalmente da autorização da família. A família pode rejeitar essa doação, independente de haver um documento em que a pessoa fale que é doadora”, explica Katiuscia Freitas, gerente da Central Estadual de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).

De acordo com Katiuscia, abordar famílias sobre a doação de órgãos é um momento sensível, especialmente por envolver o tema da morte. Para lidar com essa dificuldade, o Estado tem investido na capacitação de profissionais da saúde, com mais de 800 treinados até maio de 2024 em comissões especializadas dentro dos hospitais.

Entre os principais motivos de rejeição estão o desejo de manter o corpo íntegro, a crença de que o falecido não era doador e o tempo necessário para realizar o procedimento. No entanto, a gerente explica que os transplantes não afetam a integridade do corpo e que uma única pessoa pode salvar até oito vidas.

O Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG) é o principal centro transplantador de Goiás, responsável por 98% dos transplantes renais realizados no Estado. “Temos outros hospitais credenciados, como a Santa Casa e o Hospital de Clínicas, mas eles não estão realizando os procedimentos. A maior parte é feita pelo SUS”, pontua Katiuscia.

CORRELATA

Documento digital amplia acesso à doação 

Para ampliar a transparência e simplificar o processo de manifestação da vontade de doar órgãos, o Brasil lançou em 2024 a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), um documento totalmente digital que formaliza, de forma segura e gratuita, a decisão do cidadão. 

A iniciativa é fruto de uma parceria entre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Colégio Notarial do Brasil e o Ministério da Saúde, com o objetivo de facilitar a adesão de novos doadores e reduzir as incertezas enfrentadas por famílias no momento da perda.

A AEDO pode ser emitida por qualquer pessoa com mais de 18 anos, diretamente em um cartório de notas ou pelos canais digitais – como o site www.aedo.org.br e o aplicativo e-Notariado. O processo é simples: o interessado preenche um formulário eletrônico com seus dados pessoais, escolhe quais órgãos e tecidos deseja doar, e passa por uma videoconferência com um tabelião para validação da identidade e da vontade expressa. Após essa etapa, o documento é assinado digitalmente e arquivado em um banco de dados nacional, integrado ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

Além de ser um registro legalmente reconhecido, a AEDO tem a vantagem de ser acessada em tempo real pelas centrais de transplante no momento do óbito, permitindo maior agilidade na tomada de decisão médica. Ela pode ser consultada por hospitais, profissionais da saúde e pela própria família do doador, contribuindo para esclarecer dúvidas e dar respaldo à autorização. 

“A AEDO soluciona uma importante demanda social, registrando de forma segura e jurídica a vontade de ser doador. Isso evita dúvidas e facilita a conversa com as famílias em momentos críticos”, afirma Giselle de Oliveira Barros, presidente do Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal.

A ferramenta, porém, não substitui a necessidade da autorização familiar. Segundo a legislação brasileira, a doação de órgãos só é efetivada com o consentimento dos parentes diretos. Por isso, especialistas e autoridades reforçam a importância do diálogo em vida. “Mesmo com o documento eletrônico, é fundamental comunicar à família. Isso garante que a vontade do doador seja respeitada”, alerta Katiuscia.

Entre os principais benefícios da AEDO estão a praticidade do processo, a gratuidade, a validade jurídica nacional e a possibilidade de o doador personalizar o tipo de doação – como escolher doar apenas rins, córneas, fígado ou todos os órgãos possíveis. 

O documento pode ser revogado a qualquer momento pelo titular, caso mude de opinião. Em apenas um ano de funcionamento, mais de 20 mil pessoas já formalizaram sua vontade de doar por meio da AEDO em todo o país, demonstrando o potencial da iniciativa.

A plataforma ainda contribui para a redução do tempo entre a morte do doador e a cirurgia de transplante, um fator crucial para a viabilidade dos órgãos. Isso é possível graças à integração com novos sistemas do Ministério da Saúde que cruzam dados clínicos, imunológicos e logísticos em tempo real. 

O governo federal também ampliou parcerias com companhias aéreas e com a Força Aérea Brasileira (FAB), garantindo o transporte rápido e gratuito dos órgãos em território nacional – apenas em 2024, foram realizados mais de 5 mil voos para essa finalidade.

Leia mais: Mulher morre e trio de idosos fica ferido após carro capotar na GO-210

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