sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Comportamento

Jornada dupla ainda recai sobre as mulheres nos relacionamentos

Mesmo com empregos formais e contribuições financeiras equivalentes, brasileiras continuam assumindo três vezes mais tarefas domésticas que seus parceiros, segundo dados do IBGE e do Ipea

Luana Avelarpor Luana Avelar em
Jornada dupla ainda recai sobre as mulheres nos relacionamentos

Num país em que mais de 52% das mulheres em idade ativa estão empregadas, a divisão do trabalho dentro de casa ainda reflete padrões do século passado. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados de pessoas, contra 11 horas dos homens. Mesmo quando ocupam jornadas completas fora do lar, elas continuam sendo as principais responsáveis pelo funcionamento da casa e pela atenção a filhos, pais idosos ou parentes doentes.

Essa discrepância não é apenas estatística. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 66% dos homens brasileiros afirmam “ajudar” em casa, enquanto apenas 17% se dizem corresponsáveis pelas atividades domésticas. O vocabulário usado nas respostas reforça a ideia de que o cuidado é um favor e não uma obrigação compartilhada. A pesquisa ainda aponta que, em casais heterossexuais com filhos pequenos, a carga de trabalho não remunerado é quatro vezes maior para as mães.

O fenômeno, conhecido como jornada dupla ou tripla, afeta diretamente a saúde física e mental das mulheres. Estudo da Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o Ministério da Saúde revela que mulheres que acumulam trabalho formal e responsabilidades domésticas têm maior incidência de ansiedade, distúrbios do sono e sintomas depressivos. A sobrecarga constante também impacta o desejo sexual, o tempo de lazer e a qualidade do vínculo afetivo com o parceiro.

Apesar de o tema ter ganhado espaço em campanhas e debates sobre equidade de gênero, as mudanças práticas ainda são lentas. Em 2023, a ONU Mulheres apontou o Brasil como um dos países da América Latina com maior desequilíbrio na divisão do trabalho doméstico, atrás apenas de Honduras e Guatemala. A entidade alerta que essa desigualdade compromete a autonomia econômica e emocional das mulheres e perpetua ciclos de dependência afetiva e financeira.

Entre os casais mais jovens e urbanos, as expectativas de equidade são maiores, mas os dados mostram que a prática nem sempre acompanha o discurso. Uma pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva revela que, entre pessoas de 25 a 35 anos, 76% das mulheres sentem que a responsabilidade da casa ainda é majoritariamente delas, mesmo quando o companheiro se diz progressista. A diferença costuma se acentuar após o nascimento do primeiro filho, momento em que muitas mulheres reduzem ou interrompem a carreira, enquanto os homens mantêm sua trajetória profissional inalterada.

Especialistas em psicologia e relações de gênero defendem que a chave para a mudança está na educação emocional dos meninos desde a infância, na valorização do trabalho reprodutivo — aquele que não gera renda, mas mantém a vida — e na construção de pactos mais claros entre os casais. O cuidado, dizem, não é instintivo nem natural. É uma prática aprendida, dividida, negociada e sustentada diariamente.

Amar em 2025 exige mais do que flores no Dia dos Namorados. Exige empatia, presença ativa e responsabilidade compartilhada. Enquanto a balança do afeto continuar pendendo para um só lado, o romance corre o risco de se tornar mais um fator de exaustão. O desafio dos casais contemporâneos não é apenas manter o amor vivo, mas garantir que ele não pese desigualmente sobre os ombros de quem mais cuida.

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Fafá

FAFÁ DE BELÉM

Fafá de Belém chega aos 70 com repertório que resiste ao tempo

Levantamento do Ecad aponta as músicas da cantora paraense mais executadas no Brasil nos últimos c...
Colegas e o Herdeiro

CINEMA

“Colegas e o Herdeiro” tem pré-estreia em SP com ator goiano no elenco principal

João Vitor de Paiva interpreta Duda, personagem que vive romance central na trama; filme chega aos ...
violência de gênero

Monólogo "Senhora P"

Espetáculo sobre violência gênero chega a Goiânia com sessões gratuitas e oficina de criação

"Senhora P", monólogo da atriz e pesquisadora Adriana Lodi, é apresentado no Centro Cultural da UF...
Primeira Trilha Poética reúne literatura, música e cultura no Centro Histórico de Corumbá de Goiás

Trilha Poética

Primeira Trilha Poética reúne literatura, música e cultura no Centro Histórico de Corumbá de Goiás

Evento será realizado neste sábado (8) e contará com seis estações de declamação, homenagens,...
engordar

SAÚDE

Por que tantas pessoas voltam a engordar? Ciência explica por que o organismo tenta recuperar o peso perdido

Especialista afirma que o efeito sanfona é consequência de adaptações biológicas que aumentam a...
Governo libera recesso de fim de ano para servidores; veja as datas

PREPARE O DESCANSO!

Governo libera recesso de fim de ano para servidores; veja as datas

Medida contempla servidores, empregados públicos, temporários e estagiários da Administração P�...
Lembra do Jacaré, do É o Tchan? Veja o que ele faz hoje no Canadá

MISTURA DO BRASIL COM O CANADÁ

Lembra do Jacaré, do É o Tchan? Veja o que ele faz hoje no Canadá

Aos 54 anos, Edson Cardoso deixou os palcos para trás, construiu uma nova carreira e atualmente ocu...
Horóscopo do dia (07/08): veja as previsões para o seu signo

ASTROS

Horóscopo do dia (07/08): veja as previsões para o seu signo

A sexta-feira favorece novas oportunidades, decisões profissionais e mudanças na vida afetiva, mas...