sábado, 31 de outubro de 2026
CENTRO POP

Sem acesso a banho, população de rua enfrenta dificuldades em Goiânia

Limitações na oferta de higiene básica expõem falhas na rede de atendimento da Capital

Anna Salgadopor em
Fila de pessoas no Centro POP de Goiânia
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

O acesso ao banho diário não integra a rotina de centenas de pessoas em situação de rua em Goiânia. Sem uma estrutura pública suficiente para atender à demanda, a higiene pessoal passa a depender de alternativas improvisadas, como o uso de córregos da Capital para banho e lavagem de roupas. A prática expõe essa população a riscos recorrentes e evidencia limitações no atendimento, enquanto poder público e sociedade civil apresentam abordagens distintas sobre o enfrentamento do problema.

A realização da higiene, nesses casos, envolve o deslocamento até margens de córregos e a descida por barrancos. Em pontos como os córregos Botafogo e Cascavel, as pessoas utilizam a água disponível como única alternativa para limpeza do corpo e de vestimentas. Durante o período chuvoso, o risco aumenta devido às chamadas “cabeças d’água”, quando o volume dos córregos se eleva de forma repentina e intensa, com potencial de arrastar quem estiver no local ou nas proximidades.

Goiânia registrou episódios recentes de mortes de pessoas levadas pela correnteza enquanto utilizavam bicas ou áreas próximas aos córregos. Há relatos de tentativas de resgate com uso de cordas e estruturas de contenção instaladas nas marginais, mas a força da água dificulta a retirada. Em alguns casos, os corpos são localizados a quilômetros de distância do ponto inicial, o que reforça a dimensão do risco enfrentado por quem utiliza esses espaços de forma improvisada.

O principal equipamento público destinado a esse atendimento é o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP). A unidade está localizada a cerca de 1,2 quilômetro da Região da 44 e da Praça do Trabalhador e oferece acesso a banho, lavanderia e outros serviços básicos. Apesar disso, usuários relatam limitações no acesso e dificuldades para utilização regular da estrutura disponível.

Entre os problemas apontados estão a alta demanda e o tempo de espera, especialmente para o uso da lavanderia. Também há registros de banheiros indisponíveis por períodos consecutivos em momentos de maior movimento ou em semanas de maior circulação de pessoas na cidade. Em situações associadas a pontos facultativos municipais, relatos indicam intervalos de até cinco dias sem acesso ao banho. Nesses casos, parte da população retorna aos córregos ou recorre a banheiros pagos em rodoviárias, alternativa considerada inviável para muitos devido à falta de recursos financeiros.

A condução da política municipal voltada à população em situação de rua em Goiânia passou por mudanças recentes que geraram repercussão e debates em diferentes setores da sociedade. Em janeiro de 2026, um abrigo emergencial foi transferido do Setor Aeroporto para o Residencial Aruanã 3 após pressão de representantes empresariais da região anterior, que manifestaram insatisfação com a permanência da estrutura no local. No novo endereço, moradores organizaram manifestações contrárias à instalação e continuidade do equipamento, alegando preocupações relacionadas à segurança, à valorização imobiliária e a possíveis impactos no cotidiano da vizinhança. 

Poucos dias depois, o grupo atendido foi novamente removido durante um período chuvoso e encaminhado para comunidades terapêuticas fora da área urbana, o que interrompeu a permanência no local recém-ocupado e levantou questionamentos sobre a continuidade do atendimento e o acompanhamento dessas pessoas.

Nesse cenário, o Centro POP também foi alvo de mudanças estruturais e operacionais. A unidade, que anteriormente funcionava na região central da Capital, foi transferida para o Setor Aeroporto como parte de uma reconfiguração da rede de atendimento. 

A administração municipal aponta que o novo espaço possui maior capacidade física e melhores condições para a oferta de serviços essenciais, como alimentação, higiene pessoal, lavanderia e atendimento psicossocial. Por outro lado, a mudança gerou reações de moradores da região e críticas de pesquisadores, especialistas e movimentos sociais, que apontam que as ações têm priorizado a realocação territorial da população atendida em vez da ampliação efetiva de políticas públicas de inclusão e assistência continuada, destacando também possíveis impactos no acesso dessa população aos serviços concentrados na área central.

Frente do CENTRO POP GOIÂNIA
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

Restrição a ações voluntárias reduz oferta de banho à população vulnerável

Diante das limitações da rede pública, iniciativas da sociedade civil passaram a atuar com estruturas móveis de atendimento. O projeto Banho Solidário oferece banho, roupas, kits de higiene e água potável em diferentes pontos da cidade, funcionando como alternativa complementar ao serviço público. A atuação, no entanto, passou a enfrentar restrições nos últimos meses.

Em maio de 2025, ações de grupos voluntários foram impedidas pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) em praças revitalizadas. A gestão municipal argumenta que o foco deve ser em soluções permanentes e que esses espaços devem atender ao uso geral da população. Também defende que a oferta de serviços nas ruas pode incentivar a permanência de pessoas nesses locais. Após a medida, houve redução de atendimentos em bairros como Campinas e Setor Leste Universitário, com concentração das ações na região central, onde a demanda chega a cerca de 70 banhos por semana.

A Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) informa que mantém equipes de abordagem social em diferentes regiões da cidade, com orientação sobre os riscos do uso de córregos e encaminhamento para unidades de atendimento da rede socioassistencial.

Sobre o funcionamento do Centro POP, a secretaria afirma que a interrupção dos banheiros ocorreu de forma pontual, por aproximadamente um dia, em razão da substituição da empresa responsável e da instalação de nova estrutura. A pasta informa ainda que a unidade opera dentro da capacidade prevista e que há monitoramento contínuo do serviço para ajustes operacionais. Segundo a Semasdh, gestantes, mulheres e pessoas com deficiência têm prioridade de atendimento dentro da unidade.

Em relação às iniciativas da sociedade civil, a secretaria afirma que há diálogo, desde que as ações estejam alinhadas a critérios técnicos e integradas à rede de proteção. A Prefeitura de Goiânia informa que o atendimento à população em situação de rua está sendo ampliado de forma planejada, com prioridade para ações voltadas à saída definitiva das ruas, em detrimento de medidas de caráter temporário.

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